Bibliotecas

Maria Helena Vieira da Silva, Bibliotèque, 1952.

Compro bibliotecas. Não grandes nem só de livros raros. Bibliotecas normais, de livros de filosofia e/ou literatura. De 300, 400, 500 livros. Talvez um pouco mais, vai depender do preço. Se alguém quiser vender alguma, entre em contato comigo.

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Dr. House e chagas

Coração com Chagas

Vi num episódio da série House que um sujeito tinha vindo ao Brasil e contraído a Doença de Chagas. A coisa foi muito simples no episódio: o indivíduo só tomou uns comprimidos e se curou. Como assim? Você consulta um médico aqui em nosso país e lhe explicarão que Chagas não tem cura. Destino: morte. E ponto final, volte pra casa e espere a foice. E, para determinados estágios da doença, já arranjam sim uma saída, um jeito de controlar o protozoário. O que acontece, então? Existem remédios que mantêm a moléstia estável, mas ninguém comenta nos hospitais. Relato isso porque conheço uma pessoa que está com Chagas e há mais de seis anos vem ouvindo que seu caso não tem solução, vai tomando uns remédios para fortalecer os músculos do coração e vamos ver. Agora chegou em um ponto em que só lhe resta um transplante de coração. Ok, ele vai conseguir, não vai?

Leituras

Tabucchi

“um corpo tem que atravessar camadas e camadas de tempo agregando pacientemente em torno do núcleo todos os pertences necessários para ser corpo, até desembocar à superfície como criatura viva, mesmo que porventura já moribunda.”

Trecho do romance “Tristano morre” (Tristano muore: una vita), de Antonio Tabucchi, que estará na Flip deste ano. Tradução de Gaëtan Martins de Olveira.

Feiras

A feira do dia

Lembro-me de ter ido a uma Bienal do Livro há muitos anos. Como na época estava empolgado com a literatura francesa contemporânea, resolvi ir a uma mesa em que estariam debatendo Michel Quint, Antônio Torres e Plínio Cabral. Meu interesse era na obra recém-lançada “Jardins assustadores”, do Quint. Depois de falarem sobre si e sobre suas obras, os escritores abrem para perguntas e surge um garoto de uns 17, 18 anos, pedindo a palavra. Faz uma propaganda do seu livro, que tinha como título algo parecido com “A história do anjo” e trazia sua foto na capa. Era uma autobiografia, revelara. Queria mais espaço na mídia, pois escrevera uma obra-prima. Mal estar geral, lógico. Só para dizer que propagandas, autopromoção, perguntas nada interessantes, não são privilégio de feiras do interior.

Nesta Feira do Livro de Ribeirão Preto, algo interessante: escritores assistindo a palestras de colegas. Assim, entre a plateia vi Luiz Ruffato e Cristóvão Tezza, em diferentes eventos. As feiras vão se multiplicando país afora e o interesse pela literatura parece aumentar, como defendeu ontem Adriana Lisboa. Mas isso não quer dizer que bons escritores estejam vendendo mais – ontem testemunhei apenas umas quatro ou cinco pessoas na fila de autógrafos de Lisboa. O livro no Brasil é um objeto muito caro – 38 reais por um romance de duzentas páginas é meio puxado.

Leituras

O primeiro homem

Sempre um homem é o primeiro homem. Porque o seu mundo é a reinvenção do mundo, a sua voz uma voz original. Que nessa voz ressoem outras vozes: se ela é autêntica, é nova, como se nascida no sangue. Daí a interrogação com que olhamos os jovens, a expectativa com que ouvimos um novo escritor: que notícia nos traz? que mundo nos inventou? que espelho há nele do nosso? que humildade nos impõe ao orgulho do que conquistámos?


Início do prefácio de Vergílio Ferreira para o livro “Rumor branco”, de Almeida Faria.

Feira do Livro

Esquimó

Li em algum lugar que o curador da Flip é muito cuidadoso com a escolha dos mediadores das mesas do evento. Esse cuidado falta aos organizadores da Feira do Livro de Ribeirão Preto. Ontem fui assistir à fala do Fabrício Corsaletti e, se não fosse a humildade e o jogo de cintura do poeta, sairia de lá desapontado. A pobre senhora, que tinha a tarefa de apresentar o escritor ao público, resolveu que talvez devesse ser a estrela do evento e exagerou. Cometeu muitas gafes: se esqueceu do nome de seu interlocutor, quis explicar poemas, argumentou que desconhecia a obra de Corsaletti, confundiu-o com o Carpinejar. Como se não bastasse, antes de encerrar a mesa, pediu a Fabrício que fizesse uma pergunta ao público. Incômodo geral. Já a apresentação da escritora Susana Fortes ficou por conta de uma fera: Lola Aybar, tarimbada, eficiente, com profundo conhecimento da obra da romancista espanhola. Fez o que todo mediador deve fazer: perguntas certas. Não perdeu tempo com divagações ou longas explicações. Resumindo: dizem que o melhor juiz de futebol é aquele cujo nome, ao final da partida, ninguém se lembra. Ontem, show empolgante de Tom Zé, para variar.

A Feira do Livro, de um modo geral, está mais fraca este ano. Destaque para a banca da cubana Citmatel, com seus CDs e DVDs didáticos.

Elogio à dúvida

O quê?

Conheci um homem em Tejuco que tem muitas certezas. Não lhe importam os argumentos alheios quando vocifera que algumas profissões não têm utilidade nenhuma, quando postula ser alguém muito prático, quando alerta que as universidades de hoje só enganam, quando ensina que possui provas contundentes para atestar que suas verdades são a verdade correta para todos. Lembrei-me de Camus e pensei se no Brasil pode haver alguém feliz. Seria aquilo a felicidade? Não sei. Nunca fui dono de nenhuma verdade, aliás sempre preferi ser proprietário de dúvidas, pois são elas que me concedem o frio na barriga, são elas que me fazem correr em busca de conhecimento, são elas que me movem, de uma maneira geral. Não estou muito certo disso, mas julgo que pode ser assim. A dúvida talvez tenha me feito mais feliz e mais prudente. Eu só podia encontrar alguém tão devotado à certeza em uma cidade ladeada por vários nadas sem sentido, em uma cidade em que não posso andar sossegado, porque sempre há o risco de encontrar um conhecido enfrentando sua pinga num boteco transpirando verdades a granel. Um comentarista esportivo parece confirmar minha tese – não é um bom sinal. Tenho uma boa resposta para quase todas as perguntas: não sei. Com bons argumentos. No meio disso tudo, é sempre bom rever os amigos.