Sobre filhos e Gaia

Gaia grávida

James Ephraim Lovelock propôs a “hipótese de Gaia” para explicar o comportamento sistêmico de nosso planeta.  Superficialmente, é como acontece no filme “Avatar”, em que os seres vivos estão todos conectados entre si – plantas, animais e a Terra é um ser vivo também. Lovelock vem apresentando teorias a cada livro mais catastróficas. O último, “The vanishing face of Gaia: a final warning” tenta provar que não existe mais saída para os seres humanos: é encarar as inevitáveis mudanças climáticas. Bom, mas eu quero chegar em outra conclusão a que o autor chegou, a de que a Terra não suporta 7 bilhões de humanos vivendo sobre ela. Claro que nenhum casal em sã consciência levará isso em conta na hora de decidir ter um filho. O que me fez pensar nos motivos que levam as pessoas a ter filhos ou a não os ter. A conclusão é um pouco óbvia e, talvez justamente por isto, difícil de a alcançarmos: egoísmo. Um homem e uma mulher decidem procriar, porque desejam levar adiante o nome da família ou porque querem uma criatura que os amará em função, primordialmente, dos laços sanguíneos ou porque querem um laboratório particular onde manipular suas paranoias e assim por diante. Querem ter orgulho do filho, em uma frase. Orgulho, em uma palavra. Da mesma forma, os que não desejam filhos pensam no gasto, no trabalho que uma criança dá, na perda da liberdade e coisas assim. Não conheço ninguém que pondere mais profundamente sobre o assunto. Então recomendo a leitura do livro de Lovelock, que foi traduzido recentemente aqui no Brasil e publicado pela editora Intrínseca com o título “Gaia: alerta final”.

Rumble in the jungle

Algo como “Estrondo na selva”. A primeira aventura de Don King como promotor de lutas de boxe. Não sou grande fã do esporte, nem é porque acho violento, é porque hoje em dia não tem mais muita graça, perdeu aquele encanto de antigamente. A luta, entre Mohammed Ali e George Foreman foi uma das mais bonitas deste esporte. Aconteceu em 1974, no antigo Zaire, hoje Congo, em  uma cidade chamada Kinshasa, como parte de uma estratégia de King para angariar a grana para pagar Ali e Foreman (cada um recebeu cinco milhões de dólares pela noite). Para que a luta pudesse ser transmitida nos EUA, ela aconteceu 4 da madrugada  no Zaire. No primeiro hound, Ali vai com tudo para cima de Foreman, mas percebe que a vitória não será fácil, isso se acontecer. Dá para ver que sente medo do oponente, mais novo e mais forte. Mas Ali tinha de vencer, pois estava querendo se aposentar e não queria sair por baixo. Então ele bola uma tática (que vimos copiada num desses Rocky da vida): deixa o Foreman bater o quanto quer, vai para as cordas e é castigado por um moleque orgulhoso, louco para derrotar o mito. Lá pelo quinto round, podemos ver um George Foreman cansado, que quase não consegue mais golpear. No oitavo round, mal consegue se manter de pé. Então Ali dispara vários diretos e acontece o improvável: nocaute. A torcida grita desde o primeiro round: “boma ye, Ali, boma ye” (mate-o, Ali, mate-o) e àquela altura berra a mesma frase. Havia um Mohammed Ali político, defendendo os negros e um George Foreman calado, nervoso, que de vez em quando soltava umas frases inteligentes. Ou seja: havia vida fora do ringue.

 

Ecologia

Avatar, de James Cameron

Sou prudente quando o assunto é este. Certo dia, conversando com um amigo, perguntei-lhe sobre essa história de alterações climáticas. Se isso não era cíclico, se em alguma outra época de sua história a humanidade não atravessou mudança semelhante. Fiz a mesma pergunta pouco antes a um especialista no assunto. Com o conhecimento de ambos, recebi a resposta que esperava: é possível. Sobre isso, a respeito da matéria de Pondé na Folha, o filme Avatar não é tão ingênuo assim não. Ali, ao contrário do que o articulista do jornal propôs, há uma violência no relacionamento com a natureza: é preciso matar para comer, por exemplo. O filme, visualmente, é deslumbrante. Cameron fez o que ninguém jamais havia feito em matéria de imagens. E cinema é, sobretudo, imagem. Penso que o que acontece é que o homem exagera em nome do capitalismo. Sempre faço um paralelo com o rato, que esgota os recursos de determinado lugar e se muda para outro. A questão é se o homem terá tempo de se mudar da Terra. Leio sempre por aí que o planeta está em um ponto chave – a decisão para salvá-lo tem de ser tomara agora. Mas quem disse que o planeta tem de ser salvo? Quem professou que o homem tem de ser salvo? Se realmente estamos nesta encruzilhada e é preciso tomar uma decisão, será que a resposta não é que está na hora de o homem ser extinto?