o capim sobre o coleiro

De Brasília este livro. De Marcelo Benini. Eis duas poesias dele:

 

Tiziu é caco de telha

Menino encarvoado

Negrinho, na gíria.

 

 

Deus está no gosto

Deus é travo

Deus está no olho

Deus é cisco

Deus está nas putas

Deus é um amor perdido

Deus está na janela

Deus repara em tudo.

Anúncios

Blog da Bethânia

Didi como Bethânia.

Li reações indignidas nos cinco cantos da Internet e também nos jornais, sobre a notícia a respeito do Blog da cantora Maria Bethânia. Desejava ou ainda deseja arrecadar um milhão e trezentos mil reais para a produção do seu Blog. Não sei se a quantia é excessiva, porque não sou do ramo e mesmo se fosse, precisaria de mais dados para confeccionar um orçamento. Sei que ela pretende fazer um blog de poesia, em que ela declamará versos e discutirá poesia em vários vídeos. Vários mesmo. Diários. Ora, a produção de um vídeo é coisa cara, todo mundo sabe. Então, qual é o problema? Na mesma reunião, foram aprovados outros projetos bem mais caros e muito mais polêmicos.

Ontem vi um trecho de um programa, na televisão aberta, em que um apresentador mostrava um carro do mesmo valor, um Lamborghini. Se de repente se revelasse que um jogador de futebol era o dono da máquina, será que haveria um motim do mesmo porte? Por que é que as pessoas se revoltam com um blog de milhão e meio de reais e não se manifestam contra o salário de um jogador de futebol? Parece-me que, no final das contas, o dinheiro sai do mesmo bolso. Entre Bethânia e um centroavante qualquer, eu prefiro que o dinheiro do meu imposto siga para os bolsos da cantora. Não entendo tanta revolta, tanto escândalo. Bethânia é um patrimônio cultural e se precisa de um milhão e meio de reais dos nossos impostos – ora, por que não? Melhor na bolsa dela do que na cueca de algum político, não? Melhor na carteira dela do que nos cofres de algum banco quebrado, não? Seria uma espécie de compensação pelos milhões de reais que perdeu para a pirataria, não?

Sítio politicamente correto

Se este produto fosse vendido hoje, o menino negro teria de ser substituído por um branco e com todos os dentes. Mas o doce não sobreviveria, é politicamente incorreto. Então o cigarro desapareceria da mão da criança branca e seria transformado em um apito. Um apito de chocolate. Detalhe: cresci comendo os tais cigarrinhos e nunca senti vontade de fumar. E ainda tenho todos os dentes, apesar de tudo.

Ontem eu li que está sendo produzido um desenho do Sítio do Pica-pau amarelo. Parece que vai ser uma série, algo assim. O negócio que me deixou apreensivo, talvez até chateado, é que vão transformar a obra do pobre do Lobato. Depois da polêmica do ano passado, quando cortaram um livro do sujeito, porque tinha conotações racistas, agora mais essa. Vão acabar com o pó de pirlimpimpim. Pra não parecer outro pó. Se inicialmente as personagens do Sítio cheiravam o danado, depois passaram a borrifá-lo nas pessoas e agora ele desaparece. Vai se tornar um mantra. E estão propensos a sumir com a Tia Nastácia. Julgam que estes maus exemplos não contribuiriam para a educação decente das crianças.

Mas essas atitudes não são exclusivas do mercado brasileiro. A brincadeira tem filiais pelo mundo inteiro. Há alguns anos li uma notícia que iriam mudar a Bíblia, Deus passaria a ser homem e mulher. Quando fosse citado, a nova impressão traria assim: Naqueles dias Ele/Ela disse… Alguns radicais queriam trocar Ele por Ela e ponto final. Deus deveria ser feminino. Bom, nos cursos de Letras, era uma discussão linguística resolvida há até poucos anos.

Todos os grandes escritores do mundo já foram retocados, se não pela hipocrisia do politicamente correto, pelas armadilhas da imprensa. Será que não existe uma maneira de preservar a obra? Porque o autor passa. Não é injusto atentar desta maneira contra a arte de um morto?

Vida cachorra

Mariel Reis. Pegue um Rubem Fonseca, adicione um Dalton Trevisan, misture com um pouco dos contemporâneos – Marcelino Freire, João Carrascoza, Nelson de Oliveira, uma pitada de um filósofo aqui, outro acolá e pronto: Vida cachorra. O livro é um petardo, é violência em estado latente. E quando imaginamos que, já já, pode pingar uma gota de sangue dos contos, nos deparamos com o lirismo. Quem imaginava que poderia haver algo de humano nessas narrativas? Mas há. Aliás, só há. Mariel se lambuza de humanidade, chafurda no pior de nós, vasculha nossa monstruosa capacidade de devastação. Não vou fazer uma resenha da obra (um blog talvez não seja espaço para isso e já  não escrevo mais ensaios), só vou recomendar a leitura. O Mariel manda bem. E vai longe.

Homens ocos

Hollow men e o mundo corporativo

Relendo The hollow men, de T. S. Eliot, percebi todo o tormento de um indivíduo assombrado pelas próprias angústias (Eliot descobria que sua esposa o traía), suas dúvidas (Eliot perdia a fé e a esperança), atormentado pelo pós-guerra (o Tratado de Versalhes assinado há pouco) e a capacidade de transformar tudo isso em metáforas inacreditáveis. Os versos finais são dos mais recitados na história da humanidade: “This is the way the world ends. Not with a bang but a whimper.” Às vezes fico imaginando se já se produziu algo à altura em língua portuguesa e, claro, lembro-me de Fernando Pessoa. E no Brasil arrisco-me com Augusto dos Anjos. E João Cabral de Melo Neto.

Para aqueles que não curtem muito a língua inglesa, há uma tradução razoável de Ivan Junqueira. Um pouco confusa, às vezes, mas eficiente. Ah, havia me esquecido: a influência de Dante é muito forte em toda a obra de Eliot. Algumas partes deste Hollow men remetem ao Inferno.