Elogio à dúvida

O quê?

Conheci um homem em Tejuco que tem muitas certezas. Não lhe importam os argumentos alheios quando vocifera que algumas profissões não têm utilidade nenhuma, quando postula ser alguém muito prático, quando alerta que as universidades de hoje só enganam, quando ensina que possui provas contundentes para atestar que suas verdades são a verdade correta para todos. Lembrei-me de Camus e pensei se no Brasil pode haver alguém feliz. Seria aquilo a felicidade? Não sei. Nunca fui dono de nenhuma verdade, aliás sempre preferi ser proprietário de dúvidas, pois são elas que me concedem o frio na barriga, são elas que me fazem correr em busca de conhecimento, são elas que me movem, de uma maneira geral. Não estou muito certo disso, mas julgo que pode ser assim. A dúvida talvez tenha me feito mais feliz e mais prudente. Eu só podia encontrar alguém tão devotado à certeza em uma cidade ladeada por vários nadas sem sentido, em uma cidade em que não posso andar sossegado, porque sempre há o risco de encontrar um conhecido enfrentando sua pinga num boteco transpirando verdades a granel. Um comentarista esportivo parece confirmar minha tese – não é um bom sinal. Tenho uma boa resposta para quase todas as perguntas: não sei. Com bons argumentos. No meio disso tudo, é sempre bom rever os amigos.

Festival da Mantiqueira

Cachoeira dos Pretos

Fomos, eu e Ana, para São Francisco Xavier novamente. Este ano, via Joanópolis, uma pequena cidade a quarenta quilômetros do nosso destino. Para quem gosta de natureza, é um caminho atraente. Passamos pela Cachoeira dos Pretos, maravilhosa. O porém é a estrada: de terra, travessia demorada. O melhor continua a ser o trajeto por São José dos Campos. Dois dias de literatura, estava com saudade do ar vaidoso dos escritores. Mas Osvaldo Rodrigues não é assim. Principalmente porque é nosso amigo. A melhor palestra da viagem foi a dele. Narrou-nos seu encontro com Ferreira Gullar nos anos 80. Acho que foi realmente nos anos 80. Minha memória não existe para datas e para nomes. Naquela época, lera um poema do maranhense e ficara tão impressionado que, com o livro ainda na mão, sem mala, sem cuia, corre para a rodoviária e segue para o Rio de Janeiro. Chegando lá, toma um coletivo para a livraria José Olympio, pois precisa do endereço do poeta. Consegue o telefone da redação do Jornal do Brasil: seria recebido no final da tarde. Conversam durante algumas horas e, ao se despedir, Gullar lamenta não poder manter contato com Osvaldo. Passava por problemas familiares. Sobre estas questões, o próprio José Ribamar Ferreira dissertou durante sua fala no Festival: dois filhos esquizofrênicos. Ouvir a história do poeta Osvaldo Rodrigues foi mais interessante do que acompanhar o maranhense contar da sua amizade com José Sarney.