Autran Dourado

Demorei a voltar aqui. Estava muito enrolado com alguns textos encomendados. Hoje recebi uma mensagem do meu amigo Ronaldo Cagiano. Era para eu ler uma entrevista do Autran Dourado, dada à Folha de SP faz alguns anos. É, realmente, muito boa. Eis um trecho que achei fantástico:

Folha – A erudição é necessária ao escritor?

Dourado – A erudição é acidental, embora seja uma coisa que se busque. Quando o autor está começando a escrever, não pode pensar em ninguém. Nem em outros autores nem em seu público, porque sequer consegue saber quem é seu público. O escritor é aquele solitário. Eu não sei qual é meu leitor e não me submeto à posição de procurá-lo.

É por isso que vejo com certo escândalo o que está acontecendo no Brasil: pessoas jovens que se iniciam na literatura e querem logo vender livro. Têm vocação de best-seller. São fabricantes de livro, e o livro que você vê não resultou de nenhum esforço maior, não correu nenhum sangue por ele. Isso não é ser escritor. Vender livro é um acidente na vida de um escritor.

Caso alguém se interesse, a entrevista completa está aqui.

Concordo com ele que a venda é um acidente necessário, assim como o reconhecimento. Mais feliz ainda é aquele escritor que se contenta com seu próprio esforço. Algo como a satisfação de ter feito um bom trabalho. Mas andei pensando que essa história de reconhecimento depois da morte não vale nada. Alguém por acaso considera, de verdade, que Machado de Assis ou Clarice Lispector ou Guimarães Rosa estão lucrando com o sucesso, em pleno 2012, com traduções mundo afora?

O escritor e pesquisador Valdomiro Santana analisa meu livro

O livro da carne, 7letras, 2010

Li na ficha catalográfica de seu livro que você nasceu em 1971. Nenhuma outra informação biográfica. Nada sabe o leitor em que cidade de Minas você nasceu, como era a escola primária em que estudou, se tomou banho de rio, brincou de gude, o que lhe ficou dos roxos, dos preceitos e das  procissões da Semana Santa, se havia matraca na Quinta-feira de Trevas, o que guardou da imagem do Senhor Morto; se, em sua cidade, a igreja era barroca, se havia em volta montanhas, se foi cursar o secundário num colégio católico em regime de internato; se e quando leu Boitempo, de Drummond, o poema “Infância”, de Paulo Mendes Campos, o conto “O carneirinho azul”, de Otto Lara Resende, a ficção de Guimarães Rosa, Itinerário poético, de Emílio Moura, Confissões de Minas,
também de Drummond.
À medida que eu ia lendo, devagar, bem devagar, os poemas de seu livro, me fazia essas perguntas. Uma estilística, vamos dizer assim, foi o que se impôs na leitura, a da reiteração obsessiva da preposição “para” e o uso deliberado, também obsessivo, dos verbos no infinitivo (impessoal). Mesmo onde essa preposição não aparece, ela fica subentendida, tanto quanto a sintaxe dos verbos em suas formas nominais.
A parte ou seção inicial “Antes do verbo” me parece dispensável. São circunlóquios. Os poemas prescindem dessa “justificativa”, ou do que soa como “explicação necessária”. Que eles próprios digam a que vieram. E o dizem. Há uma construção,  no sentido de que você riscou um projeto e o seguiu; o livro, por isso, tem uma unidade; há nele talvez um certo construtivismo à la João Cabral de Melo Neto, não a influência de sua poética, nem, muito menos, o decreto de banir palavras abstratas). Isso me fez pensar na palavra vers em francês, que, além do substantivo “verso”, pode indicar também como preposição “em direção a”, que equivale a “para”. As “receitas” os “roteiros” dão conta desse projeto de busca da infância, que não é necessariamente a “sua”, mas a do mundo, ou de “um” mundo, em que o “eu” foi arrancado, em que você, o autor, está dessubjetivado. Pois não é com memórias da infância que se faz o que quer que seja, mas com blocos de sensações, certos materiais ou objetos que pertencem ao tempo em pessoa, ao tempo que é nossa unica subjetividade, como fez Proust. E, nessa medida, o passado contraído se distende, o “foi” é o que continua pulsando, ainda que instantaneamente, nos órgãos dos sentidos. O tempo, note, não nos é interior; nós é que somos interiores ao tempo, no qual mudamos, nos perdemos e nos redescobrimos, já que ele mesmo, o tempo, não muda, por ser uma forma vazia, e tampouco é eterno.
O que ficou então em mim da leitura de seu livro? Ficou um entre dois, um intermezzo, alguma coisa no meio, sem as margem: uma, a do projeto falhado de busca da infância; a outra, a da subjetividade que os poemas (re)inventam. Não é sempre no meio que acontecem as coisas? O princípio e o fim não têm interesse algum, porque sem graça. Daí, a contraimagem suscitada pela leitura: uma espécie de cano furado, em que a água não vai de um ponto X a um ponto Y, mas esguicha para todos os lados.
Essa contraimagem subverte o “para”, o “em direção a”, a “receita”, “o roteiro”, o “sentido” perseguido. E o poeta, sem eu nenhum, puxa o tapete que ele próprio teceu.
Foi assim que li O livro da carne. Você merece o nome de poeta.
(Valdomiro Santana, 07 de janeiro de 2012)