Conexões

Eu estava esperando terminar um novo miniconto para voltar a postar aqui, mas uma semana foi pouco para finalizá-lo. E se o blog fica parado, bom, corro o risco de deixá-lo parado. De qualquer maneira, há poucos dias li “Meus dias de escritor”, de Tobias Wolff, simplesmente porque resolvi que deveria conhecer todos os finalistas do National Book Award dos últimos 5 ou 6 anos (até agora esotu gostando mais de Life of Pi). Numa pausa dessa leitura, fui folhear o jornal e descobri que a biblioteca de Valêncio Xavier havia sido vendida para dois sebos. Ora, todos sabem que se alguém vai vender uma biblioteca, a média que vai conseguir é R$ 1,50 por livro. Até aí tudo bem. O dono do sebo também está arriscando – pode encontrar desde primeiras edições autografadas (algo raro de acontecer) e pode achar também algumas Sabrinas no pacote. Então, o aviso: chegando perto da velhice, leitor, se desfaça de alguma obra rara que porventura venha a possuir – caso se interesse pelo destino do volume, é claro. Então fui pesquisar preços de livros usados. É incrível como se pode ter prateleiras lotadas de obras-primas por tão pouco dinheiro. O livro do Tobias Wolff, qualquer um pode encontrar por seis, sete reais. Em “Meus dias de escritor””, Wolff narra as peripécias de um jovem aspirante a escritor, que resolve plagiar um conto para vencer um concurso literário, cujo prêmio era nada menos do que uma tarde com Ernest Hemingway. Gosto particularmente dos contos de Hemingway, que podem ser encontrados a quinze, vinte reais. Os romances, acho-os, em geral, de qualidade inferior. Wolff, assim, arranja uma boa desculpa para falar de seus autores preferidos. Em certo instante, o escritor norte-americano cita Isak Dinesen como uma de suas preferidas. Minha memória para nomes chega perto de uma piada de mau gosto, de forma que não me recordei de nada que a dinamarquesa escrevera. Encomendei “Anecdotes of destiny” e, surpresa!: Dinesen é a autora do conto Babette’s Feast (A festa de Babette), que pode ser encomendado por dez, quinze reais. O que quero dizer é, que, depois de usado, qualquer obra dessas não chega a valer mesmo mais que dois ou três reis.

Não poderia deixar de citar o livro “O robô de bom coração”, um infanto-juvenil de Edson Angelo Muniz, conterrâneo e amigo. Uma prosa envolvente, um livro muito bem escrito. A história é um manifesto ecológico, que não cai na armadilha da defesa vazia, do discurso sem reflexão e sem argumentos. Tenho o hábito de escrever sobre todos os livros que leio, antigamente com o intuito de resenhá-los. Mantive a mania, mas abandonei a motivação. Sobre “O robô de bom coração”: “o livro trata da necessidade que um tem do outro – o que está representado pelos dois sóis de Cetro”. “Um homem desrespeita o outro se invade o espaço alheio sem autorização. E invade o espaço do outro quando polui, consome, devasta.” “Não existe independência.” E assim por diante. São frases, reflexões que a leitura d’O robô de bom coração me trouxe.

Hoje é feriado. Preparei o contrato do meu conto “x”, que estará na Geração Zero Zero, mas correio só segunda-feira mesmo. Espero voltar semana que vem com um novo miniconto. Abraços!

Outro miniconto meu

IngSoc 1984

Estado de direito

Quando o telefone se agitou em solavancos incisivos, persistentes, ele não imaginava que seria o patrão intimando-o para uma entrevista. O que poderia ter importância às cinco da tarde de uma sexta-feira? A terceira sala à esquerda de quem segue, do almoxarifado rumo ao banheiro, era temida: ninguém nunca saiu de lá contente. O gerente começou assim: então, você sabe né, essas manias da geração Y, esse negócio de considerar que a tecnologia faz parte da vida, você sabe, né, não é bem assim, de modo que, enfim, eu li o seu último post, de ainda há pouco, o das 15:32. Depois, contemplativo, o chefe prosseguiu: já avisei que isso de assunto pessoal no horário de trabalho não é uma boa, blog é tarefa para casa, mas tocamos na base da vista grossa. Só que divulgar às 15:32 que chegamos ao final de semana não é uma boa. Convocar, em uma página pública, os colegas para uma cervejinha às 17 horas, “assim que o sinal tocar e a gente abandonar os aquários”, não é de bom tom. Depois repetir a mensagem no seu Twitter? É um pouco demais, né? Nossa empresa sempre se prezou pela discrição. De modo que, é isso, não quero mais tomar seu tempo, enfim, tem a happy hour, né?, então já pode ir, seus colegas devem estar esperando. E segunda-feira você passa no RH para acertar suas contas. Não é nada pessoal, você sabe, né?, a empresa em recessão, os cortes são inevitáveis. É essa história de globalização, você já deve ter ouvido falar.

Outro miniconto meu

Escultura "O beijo da morte", que está no Cemitério de Poblenou.

O fim

 Não sei se para esconder as pernas, que escapuliam da saia, da anágua e de um e outro tecido que atravancavam a liberdade da pele, não sei se para disfarçar o mau-cheiro oriundo da fralda suja, mas cobriram-na até a cintura. O lençol abafou um pouco a pestilência que se espreguiçava pelo quarto há três horas ou mais, só que o ambiente ainda podia ser considerado insalubre. Não havia como ou por que consolar quem quer que fosse: o desfecho se daria em breve. Foi surpreso que ouvi a queixa, articulada num timbre de ameaça, numa entonação grave demais para a fachada de perpétua serenidade: “Não quero morrer”. Reiterou: “Não quero morrer”. E me pareceu que, quanto mais repetisse, mais morreria. E eu atesto: era angustiante presenciar aquela covardia em uma senhora de cento e três anos, que defendera durante toda a sua longa vida que ninguém nesta Terra jamais ficou para semente, para apagar a luz ou para contar a história.

Um nome para um livro

A briga por um título

Eu e Ronaldo Cagiano escrevemos há dez anos um livro, que, na época, julgávamos juvenil. De qualquer maneira, o título inicial era “O fio da meada”. Era mais para que a obra tivesse um nome mesmo, pois “fio da meada” não é uma designação brilhante para um livro ou para qualquer coisa. Engavetado, permaneceu sendo chamado assim, quando alguém se recordava dele. No final do ano passado, recebemos uma proposta para editá-lo e, então, praticamente o reescrevemos. Aí faltou um novo título, pois o original nos incomodava. Ronaldo sugeriu: “No coração da moenda”. Interessante, pois consideramos São Paulo, cidade onde se passa a história, uma espécie de máquina de triturar ambições. Mas “coração” acabou virando um clichê, graças ao uso excessivo por parte dos cantores de música sertaneja, principalmente. Abandonamos esse título. Aí eu sugeri: “Moenda em coma.” Depois, repetindo o mantra “moenda em coma” o dia inteiro para meus gatos, cheguei à conclusão que o termo não soava bem. Ronaldo concordou. Fomos brincando: “Tapeçaria de desecontros”, “Mosaico de ruídos”, “Diáspora de silêncios”, mas nada disso funcionou. E-mail para cá, e-mail para lá, decidimos: “Moenda de silêncios”. É este o nome de nosso livro, que será publicado até julho.