Ignorância

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Falar, ouvir e ver

Outro dia li um trecho de uma entrevista com uma dessas garotas ex-Big Brother, que se empregou como atriz. Ela afirmava que o interior a havia deixado ignorante e que, ao se mudar para o Rio de Janeiro, corria atrás do prejuízo, frequentando o teatro, cinemas e se informando. Fiquei pensando durante vários dias naquelas respostas que têm tudo para convencer algum leitor descuidado. Há muito que discutir sobre tal declaração. Primeiro: morar na capital não garante sequer o acesso à cultura – ingressos para o teatro, cinema, shows musicais, espetáculos de dança etc., estão caros. Além disso,  os locais que oferecem cultura não são de fácil acesso para quem mora nos famosos subúrbios (banlieues, para ser chique, ou taudis, para ser realista). Para uma atriz de uma grande emissora, estas pedras no meio do caminho são pequenas demais para ser consideradas empecilhos. Por outro lado, há quem mora no interior, acusado de ignorante.  Outro problema. Victor Hugo ou Charles Baudelaire viveram em uma Paris que era muito menor do que inúmeras cidades brasileiras do século XXI espalhadas pelo interior. Ok, tinham acesso ao teatro e a outras formas de cultura. Se fizermos um paralelo entre as tecnologias da época e as de hoje, não tenho receio de arriscar um palpite: em termos de disponibilidade de bens culturais, hoje as cidades do interior são muito mais avançadas e oferecem muito mais recursos do que uma Paris de 1840, que deu ao mundo tantos gênios. A oferta de peças de teatro, de shows musicais, de filmes, de espetáculos, de maneira geral, é indescritivelmente maior nas capitais (São Paulo e Rio de Janeiro), mas esta disponibilidade não pode ser confundida com qualidade. No fundo, só há um pequeno número de shows, peças, vernissages, lançamentos de livros, que compensariam culturalmente o esforço para se chegar até eles. Os 98% restantes são o mesmo lixo que chegam para o resto do mundo e vêm do mesmo lugar. Mas foi outra frase da tal atriz que me deixou intrigado: ela revelou que somente agora, por morar na capital, está lendo determinados livros, porque no interior não os encontrava. Acredito que tudo neste mundo depende do interesse de cada um. Hoje qualquer pessoa encontra o livro que desejar a poucos cliques de sua casa. Tempo e disponibilidade para leitura são outro capítulo. Não quero neste espaço defender o interior provinciano e mesquinho, só quero afirmar que a mediocridade é uma virtude genuinamente humana e que 98% das criaturas deste planeta dela partilham sem o menor pudor ou dor de consciência. E também que não basta viver numa megalópole para ser culto e que não é suficiente morar no interior para ser ignorante – essas coisas são relativas.