Debate Flip 2011

Organizado por Ovídio Poli Junior, aconteceu no Bar Zaratustra, como parte da programação da Off Flip. Mediado por Diogo Henriques, da Língua Geral, estiveram por lá: Carlos Henrique Schroeder, eu, Tony Monti, Veronica Stigger e Marne Lúcio Guedes. Marne também conduziu o papo, nos provocando: vocês acham que o bizarro dá conta da antologia? O que vocês acham da crítica literária atual? E assim por diante. Mas o melhor foi mesmo a leitura – expliquei que “sol entre noites” era continuação de “abismo poente” e que os contos deste último foram numerados de i a ix e por isso “sol entre noites” começava com o conto x, indo até o xvii, se não me engano.

Schroeder, eu, Tony, Stigger e Marne. Devo ter dito algo engraçado.

Leitura do conto "x", que está na antologia Geração zero zero.

Bonito este logo da Off Flip.

Flip & FHC, Márcia Denser

06/08/2010 – 06h00

Flip & FHC

Márcia Denser

“A Flip não festeja absolutamente a Literatura nem os escritores e muito menos o autor brasileiro, mas exclusivamente o mercado editorial, a literatura mercantilizada”

Os organizadores da Flip foram extremamente coerentes ao escolher FHC para abrir a versão 2010 da Festa Literária Internacional de Paraty, até porque tal escolha é a cara desse, digamos, evento, reunido em torno duma espécie de gueto ( literalmente) elitista, alienado. Globalizado? Não propriamente globalizado, mas apátrida, já que o dinheiro não tem mãe, muito menos língua mãe, tampouco pátria mãe.

A Flip não festeja absolutamente a Literatura nem os escritores e muito menos o autor brasileiro, mas exclusivamente o mercado editorial, a literatura mercantilizada. E apátrida. Ou seja, a barbárie.

Ou, na famosa equação de Cortázar: Literatura = Informação de Luxo. Enfeite. Perfumaria. Ornamento crítico = FHC!!! C.Q.D.

Deu no UOL: Meia hora antes da inauguração da Festa Literária de Paraty, um pequeno grupo de moradores da cidade chamou a atenção diante do Kibu, digo,Tenda dos Autores, onde se realizam os principais debates. Eles portavam cartazes e camisetas com frases de protesto à presença do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: “Viva Saramago. FHC não!”, gritava a organizadora do protesto. “O que você acha de FHC abrir uma festa literária em pleno ano eleitoral? Ele podia vir em qualquer ano, menos neste. Ele é porta-voz de um partido político. A simples presença dele já é uma opção política da Flip”. 

Pois é. Em 2010, a organização da Flip abre o jogo e confessa logo de que lado está. Mas a Flip se esquece da própria Flip (esquecendo sobretudo, que cultura é um processo cumulativo/ mas quem falou em cultura?/claro,claro). Quando lá estive, em 2005, eu vi: Arnaldo Jabor não pode concluir sua palestra devido ao fato de elogiar em público este mesmo FHC. A vaia do público – os intelectuais e convidados presentes sob o Kibu, digo, Tenda – foi tão estrondosa que o sujeito teve simplesmente que se mandar e pano rápido.

Aliás, este enclave que privilegia poucos, raros e extremamente discutíveis (senão irrelevantes) elementos ligados ao livro (vamos excluir de uma vez por todas a palavrinha Literatura, sim? vamos deixá-la fora DISTO, ok?), notadamente judeus, deveria armar seu luxuoso pavi,digo, kibutz à beira do Mar Morto, quiçá Tel-Aviv. Senão vejamos: entre os convidados, resplandecem nomes como Abraham B Yohoshua, Benjamin Moses, Arnaldo Bloch, Moacyr Scliar (querido amigo), um brasileiro chamado mui apropriadamente Eucanaã Ferraz (?), o editor Luiz Schwarcz, o livreiro Pedro Hertz.

Contudo, estou sendo injusta até porque o elemento anglo-saxão e multiculturalista (outra palavrinha encantadora!) não só prolifera como abunda: Crumb, Lionel Shriver, Terry Eagleton, John Makinson, o CEO da Penguin Books (não é uma gracinha?), William Kennedy, a dupla William Boyd e Pauline Melville, escritores “pós-coloniais” (cruzes!).Acrescente-se alguns globais, poetas e celebridades arroz-de-festa tipo Silio Boccanera, o indiano Salmon Rushdie, Ferreira Gullar, amos, atos, obros. Ah, sim, e criaturas diversas desfiando pautas tipo “o futuro do livro”, “a ditadura cubana” , “a cidade criativa”.

Me poupem.Eventos como esse des-historizam, des-politizam, são uma merda.

Então, a respeito de “povos sem história” vou citar Otto Bauer (citado por Hannah Arendt): “A consciência histórica tem papel importante na formação da consciência nacional. A emancipação das nações do domínio colonial nasce da emancipação da literatura nacional da língua internacional erudita, do colonizador. A função política desta ascensão do idioma consiste em provar que só o povo que possui uma literatura e uma história próprias tem o direito à soberania nacional.”

Literatura e História, Yes, nós temos, resta a Geografia. Ou seja, a Flip estaria melhor instalada, em seu elemento mesmo, se armasse seu adorável kibutz à beira do Mar Morto. Quiçá Tel-Aviv. 

Quanto à FHC, sugere-se que, na próxima, vá ornamentar criticamente o gueto de Varsóvia.

Flip

O mesmo escritor que afirmou que o interior é para vacas foi visto em seu Salmanmóvel (obrigado, Luciano!) indo para um safári com o seu mascote de treze anos a tiracolo. Ele parecia mais feliz por estar com o bichinho. Mas não sou tão otimista a ponto de inserir minha mão no fogo por isso. A Flip está estranha. A mesa mais concorrida foi a do Crumb. É um cara chato, como todos podem imaginar. Eu penso que ele não devia ter cedido às pressões da esposa, pois seria muito melhor se ficasse em casa. Carregar tamanha rabugice deve ser um troço complicado. Yehosuha foi uma decepção, embora sua obra continue magistral para mim. Encontrar Azar Nafisi na calçada, com ninguém por perto importunando, foi uma experiência interessante. Só posso dizer que é uma grande mulher. Voltando ao Crumb: sua apresentação foi uma piada. O cara é todo calculado, faz brincadeiras pensadas em casa e é um grande chato. É o mito que participa dos eventos literários, não um desenhista. A FLIP está muito esquisita mesmo: FHC, Lou Reed (que graças a Deus não veio), Yehoshua com seus três seguranças, Crumb, Salman Rushdie… Onde estão Le Clézio e Herta Müeller? Será que a FLIP não consegue trazer mais escritores? Depois, que tal chamar um Nobel de Física, de Química? Se a coisa está diversificando, acredito que isso também seja literatura. Destaque para o despreparo e truculência daqueles laranjinhas que ficam vigiando as mesas. Tratam escritores como popstars, uma coisa esquisita. Vira e mexe estão falando em chamar a polícia. Deviam colocar gente mais qualificada. Eu vou para Paraty porque sempre encontro algum escritor pelas ruas.

FLIP de novo

Sinto-me envergonhado por ter de escrever sobre a FLIP. FHC abrindo a Feira em ano de eleição é uma prova da opção política dos organizadores do evento. Mas isso seria simplificar o problema. Há algo muito estranho acontecendo. Os ingressos para as tendas (dos autores e do telão) se esgotam em minutos na Internet. E aqui não vejo nenhuma mesa lotada – nem dos autores nem do telão. Na fila me alertam para uma suposta compra maciça de ingressos por parte de editoras. Acredito. Os autógrafos são uma piada. Alguns autores até tentam ser simpáticos, mas é um grande desafio para eles. O pessoal da livraria que ajuda a sustentar essas egocentricidades é despreparado – um livro por autor, a obra aberta na página do autógrafo e ordens similares que aprenderam num curso bilíngue (porque todos falam inglês) para carrasco de Auschwitz. Um mineiro me confessa que precisa de um tratamento, pois não entende o motivo pelo qual se sujeita a passar por essas coisas só para ter uma assinatura meia-boca em uma folha de rosto. Azar Nafisi é simpática, mas o pessoal da livraria quer deixá-la chata. Ela fica com medo e assina somente um livro por pessoa. A. B. Yehoshua ou é arrogante ou está assustado. Pensa que terá de assinar 500 livros ou mais. A fila para os autógrafos é imensa, realmente, mas todos querem a Nafisi. Yehoshua aqui é desconhecido, lógico. Mas ele supõe que não. Porque é um bom escritor, é sim. Então sai desiludido, com quatro seguranças da pousada a tiracolo. Para que tudo isso? Realmente não entendo. Escritor está virando popstar. Então por que cargas d’água Yehoshua não se mete a fazer um disco? O legal é encontrar algum autor pela cidade e bater um papo. Daí destaco o simpático Ronaldo Correia de Brito, a atenciosa Pauline Melville e assim por diante. Acho que Xuxa e Ana Maria Braga estão fazendo falta na FLIP. Torço para que venham lançar seus livros ano que vem.

Flip 04 de agosto

Um grupo de manifestantes empunhava cartazes em frente à tenda dos autores. Fernando Henrique Cardoso abriria a festa dali a pouco. Algumas pessoas se perguntavam o que o político fazia em Paraty. A maioria gostou. A Folha de São Paulo está com um stand bem legal: servia capuccino, vinho, tudo na faixa. Água não tinha não. Enquanto experimentava o vinho, escutei um grupinho conversando: – Um país que tem um cara como FHC só pode se tornar grande, não tem jeito. Logo depois, FHC passa do nosso lado, caminhando pelas ruas da cidade – uma fila enorme o seguia. Muitos poetas vendendo seus livros, muitos mesmo. Basta parar um pouco para ser abordado. A loja de souvenirs lotada, lotada mesmo. Os preços salgados: moleskine (não a original) a 30 reais, uma bolsa a 30 reais e assim por diante. As vendedoras recusavam cartão.

Leituras

Tabucchi

“um corpo tem que atravessar camadas e camadas de tempo agregando pacientemente em torno do núcleo todos os pertences necessários para ser corpo, até desembocar à superfície como criatura viva, mesmo que porventura já moribunda.”

Trecho do romance “Tristano morre” (Tristano muore: una vita), de Antonio Tabucchi, que estará na Flip deste ano. Tradução de Gaëtan Martins de Olveira.