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Está tudo derretendo.

A polícia não dava folga ontem na Santa Ifigênia, onde fui comprar umas pilhas recarregáveis. Voltava da Secretaria de Cultura, onde estive assinando o contrato do ProAC – meu novo livro, “Sol entre noites” foi premiado. Vou de Ficções novamente. Acho importante um autor ter várias obras com a mesma editora. É o que vou tentar. Esqueci um pouco de escrever aqui, porque estou trabalhando muito neste “Sol entre noites”. Pesquisa, principalmente. Depois andei meio desanimado. É muito motorista buzinando por nada, o tempo seco, o calor. Adotamos uma gata, Ifinha. É gata de rua, novinha, não dá para trazer pra dentro de casa. Dei vermífugo a ela, agora quero levá-la para que a castrem. Tem muito gato morto pelas ruas, é triste. Sobre isso estou escrevendo uma poesia, que lerei na Casa das Rosas, na quinta poética de setembro.

Celso de Alencar

Poeta Celso de Alencar

Celso é um grande poeta. Sim, é meu amigo, mas é também um grande poeta. Estes versos que publico abaixo são de seu novo livro, ainda inédito, “Poemas perversos”.

DEVOLVAMOS O RIO

 (Celso de Alencar)

Devolvamos o rio.

Devolvamos tudo aquilo que lhe pertence.

O silêncio das manhãs entreabertas.

O sol atravessando o orvalho com

formato de um ombro inteiro.

As bandeirolas de papel crepom resplandecente.

Os barcos e seus porões de pequenas estátuas.

O gozo do redemoinho deslumbrado.

As árvores derramando flores

sobre as corredeiras.

O cântico dos pássaros que se banham nas margens

onde dormem os cavalos levemente embriagados.

Os segredos dos namorados

e a inocência dos corações emigrantes.

Devolvamos as pequenas ondas.

Os pequenos pescadores

com seus sonhos transparentes

e os peixes.

Devolvamos a morte estremecente

além da morte

o cemitério viajante e afundado.

Devolvamos tudo, inclusive o leito experimentado

que acolhe a vastidão de nomes inteiros

e a vida com suas mamas profundamente desfiguradas.

Devolvamos o rio.

Antes de Celso de Alencar

A crítica

Estou preparando um post sobre o poeta Celso de Alencar. Ele me autorizou a inserir aqui um poema inédito, que será publicado em seu próximo livro. Aguardem mais um pouco.

Enquanto isso, gostaria de falar de uns certos medíocres, que leem dois livros ao mês e se dizem críticos literários, que enfrentam mal e porcamente algumas traduções, porque se arriscam somente em seu idioma natal, que se dizem intelectuais e garantem espaço em jornais literários (ou suplementos) igualmente reacionários, que se escoram nos cânones e descem a lenha nas vanguardas, porque é mais seguro, o que lhes garante um lugar no panteão dos ignorantes e imbecis, que tem uma comitiva de ruminantes aumentando exponencialmente a cada segundo. A estes fracos, um aviso: cuidado!

Flip & FHC, Márcia Denser

06/08/2010 – 06h00

Flip & FHC

Márcia Denser

“A Flip não festeja absolutamente a Literatura nem os escritores e muito menos o autor brasileiro, mas exclusivamente o mercado editorial, a literatura mercantilizada”

Os organizadores da Flip foram extremamente coerentes ao escolher FHC para abrir a versão 2010 da Festa Literária Internacional de Paraty, até porque tal escolha é a cara desse, digamos, evento, reunido em torno duma espécie de gueto ( literalmente) elitista, alienado. Globalizado? Não propriamente globalizado, mas apátrida, já que o dinheiro não tem mãe, muito menos língua mãe, tampouco pátria mãe.

A Flip não festeja absolutamente a Literatura nem os escritores e muito menos o autor brasileiro, mas exclusivamente o mercado editorial, a literatura mercantilizada. E apátrida. Ou seja, a barbárie.

Ou, na famosa equação de Cortázar: Literatura = Informação de Luxo. Enfeite. Perfumaria. Ornamento crítico = FHC!!! C.Q.D.

Deu no UOL: Meia hora antes da inauguração da Festa Literária de Paraty, um pequeno grupo de moradores da cidade chamou a atenção diante do Kibu, digo,Tenda dos Autores, onde se realizam os principais debates. Eles portavam cartazes e camisetas com frases de protesto à presença do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: “Viva Saramago. FHC não!”, gritava a organizadora do protesto. “O que você acha de FHC abrir uma festa literária em pleno ano eleitoral? Ele podia vir em qualquer ano, menos neste. Ele é porta-voz de um partido político. A simples presença dele já é uma opção política da Flip”. 

Pois é. Em 2010, a organização da Flip abre o jogo e confessa logo de que lado está. Mas a Flip se esquece da própria Flip (esquecendo sobretudo, que cultura é um processo cumulativo/ mas quem falou em cultura?/claro,claro). Quando lá estive, em 2005, eu vi: Arnaldo Jabor não pode concluir sua palestra devido ao fato de elogiar em público este mesmo FHC. A vaia do público – os intelectuais e convidados presentes sob o Kibu, digo, Tenda – foi tão estrondosa que o sujeito teve simplesmente que se mandar e pano rápido.

Aliás, este enclave que privilegia poucos, raros e extremamente discutíveis (senão irrelevantes) elementos ligados ao livro (vamos excluir de uma vez por todas a palavrinha Literatura, sim? vamos deixá-la fora DISTO, ok?), notadamente judeus, deveria armar seu luxuoso pavi,digo, kibutz à beira do Mar Morto, quiçá Tel-Aviv. Senão vejamos: entre os convidados, resplandecem nomes como Abraham B Yohoshua, Benjamin Moses, Arnaldo Bloch, Moacyr Scliar (querido amigo), um brasileiro chamado mui apropriadamente Eucanaã Ferraz (?), o editor Luiz Schwarcz, o livreiro Pedro Hertz.

Contudo, estou sendo injusta até porque o elemento anglo-saxão e multiculturalista (outra palavrinha encantadora!) não só prolifera como abunda: Crumb, Lionel Shriver, Terry Eagleton, John Makinson, o CEO da Penguin Books (não é uma gracinha?), William Kennedy, a dupla William Boyd e Pauline Melville, escritores “pós-coloniais” (cruzes!).Acrescente-se alguns globais, poetas e celebridades arroz-de-festa tipo Silio Boccanera, o indiano Salmon Rushdie, Ferreira Gullar, amos, atos, obros. Ah, sim, e criaturas diversas desfiando pautas tipo “o futuro do livro”, “a ditadura cubana” , “a cidade criativa”.

Me poupem.Eventos como esse des-historizam, des-politizam, são uma merda.

Então, a respeito de “povos sem história” vou citar Otto Bauer (citado por Hannah Arendt): “A consciência histórica tem papel importante na formação da consciência nacional. A emancipação das nações do domínio colonial nasce da emancipação da literatura nacional da língua internacional erudita, do colonizador. A função política desta ascensão do idioma consiste em provar que só o povo que possui uma literatura e uma história próprias tem o direito à soberania nacional.”

Literatura e História, Yes, nós temos, resta a Geografia. Ou seja, a Flip estaria melhor instalada, em seu elemento mesmo, se armasse seu adorável kibutz à beira do Mar Morto. Quiçá Tel-Aviv. 

Quanto à FHC, sugere-se que, na próxima, vá ornamentar criticamente o gueto de Varsóvia.

Flip

O mesmo escritor que afirmou que o interior é para vacas foi visto em seu Salmanmóvel (obrigado, Luciano!) indo para um safári com o seu mascote de treze anos a tiracolo. Ele parecia mais feliz por estar com o bichinho. Mas não sou tão otimista a ponto de inserir minha mão no fogo por isso. A Flip está estranha. A mesa mais concorrida foi a do Crumb. É um cara chato, como todos podem imaginar. Eu penso que ele não devia ter cedido às pressões da esposa, pois seria muito melhor se ficasse em casa. Carregar tamanha rabugice deve ser um troço complicado. Yehosuha foi uma decepção, embora sua obra continue magistral para mim. Encontrar Azar Nafisi na calçada, com ninguém por perto importunando, foi uma experiência interessante. Só posso dizer que é uma grande mulher. Voltando ao Crumb: sua apresentação foi uma piada. O cara é todo calculado, faz brincadeiras pensadas em casa e é um grande chato. É o mito que participa dos eventos literários, não um desenhista. A FLIP está muito esquisita mesmo: FHC, Lou Reed (que graças a Deus não veio), Yehoshua com seus três seguranças, Crumb, Salman Rushdie… Onde estão Le Clézio e Herta Müeller? Será que a FLIP não consegue trazer mais escritores? Depois, que tal chamar um Nobel de Física, de Química? Se a coisa está diversificando, acredito que isso também seja literatura. Destaque para o despreparo e truculência daqueles laranjinhas que ficam vigiando as mesas. Tratam escritores como popstars, uma coisa esquisita. Vira e mexe estão falando em chamar a polícia. Deviam colocar gente mais qualificada. Eu vou para Paraty porque sempre encontro algum escritor pelas ruas.

FLIP de novo

Sinto-me envergonhado por ter de escrever sobre a FLIP. FHC abrindo a Feira em ano de eleição é uma prova da opção política dos organizadores do evento. Mas isso seria simplificar o problema. Há algo muito estranho acontecendo. Os ingressos para as tendas (dos autores e do telão) se esgotam em minutos na Internet. E aqui não vejo nenhuma mesa lotada – nem dos autores nem do telão. Na fila me alertam para uma suposta compra maciça de ingressos por parte de editoras. Acredito. Os autógrafos são uma piada. Alguns autores até tentam ser simpáticos, mas é um grande desafio para eles. O pessoal da livraria que ajuda a sustentar essas egocentricidades é despreparado – um livro por autor, a obra aberta na página do autógrafo e ordens similares que aprenderam num curso bilíngue (porque todos falam inglês) para carrasco de Auschwitz. Um mineiro me confessa que precisa de um tratamento, pois não entende o motivo pelo qual se sujeita a passar por essas coisas só para ter uma assinatura meia-boca em uma folha de rosto. Azar Nafisi é simpática, mas o pessoal da livraria quer deixá-la chata. Ela fica com medo e assina somente um livro por pessoa. A. B. Yehoshua ou é arrogante ou está assustado. Pensa que terá de assinar 500 livros ou mais. A fila para os autógrafos é imensa, realmente, mas todos querem a Nafisi. Yehoshua aqui é desconhecido, lógico. Mas ele supõe que não. Porque é um bom escritor, é sim. Então sai desiludido, com quatro seguranças da pousada a tiracolo. Para que tudo isso? Realmente não entendo. Escritor está virando popstar. Então por que cargas d’água Yehoshua não se mete a fazer um disco? O legal é encontrar algum autor pela cidade e bater um papo. Daí destaco o simpático Ronaldo Correia de Brito, a atenciosa Pauline Melville e assim por diante. Acho que Xuxa e Ana Maria Braga estão fazendo falta na FLIP. Torço para que venham lançar seus livros ano que vem.

Flip 04 de agosto

Um grupo de manifestantes empunhava cartazes em frente à tenda dos autores. Fernando Henrique Cardoso abriria a festa dali a pouco. Algumas pessoas se perguntavam o que o político fazia em Paraty. A maioria gostou. A Folha de São Paulo está com um stand bem legal: servia capuccino, vinho, tudo na faixa. Água não tinha não. Enquanto experimentava o vinho, escutei um grupinho conversando: – Um país que tem um cara como FHC só pode se tornar grande, não tem jeito. Logo depois, FHC passa do nosso lado, caminhando pelas ruas da cidade – uma fila enorme o seguia. Muitos poetas vendendo seus livros, muitos mesmo. Basta parar um pouco para ser abordado. A loja de souvenirs lotada, lotada mesmo. Os preços salgados: moleskine (não a original) a 30 reais, uma bolsa a 30 reais e assim por diante. As vendedoras recusavam cartão.