Abandono

Acho que lares de grandes intelectuais são lugares quase sagrados. E penso também que todo Estado que se preze deve ter o hábido de preservar as moradias destes pensadores que já se foram e transformá-las em museus, em institutos, em casas de cultura, em um espaço de utilidade pública. Pagar um preço justo no imóvel, tombá-lo adequadamente e conseguir verbas para mantê-lo. Assim, quando li a matéria sobre a antiga residência de Sérgio Buarque de Holanda, fiquei transtornado. Claro que a filha do sujeito hoje é ministra e tudo se ajeitará. Mas e quantos outros edifícios históricos estão à míngua?

Onde morou Victor Hugo, hoje um museu.

Schadenfreude

Aprendendo a curtir as férias

 

O capítulo sobre a metáfora, em “Esse ofício do verso”, de Jorge Luis Borges, é algo aterrador para pessoas que, como eu, gostam de poesia. Um trecho:

Já que usei a expressão “antiga como o tempo” [as old as time], devo citar outro verso – um que talvez esteja fervilhando na memória de vocês. Não estou lemrbado do nome do autor. Achei-o citado por Kipling num livro seu não muito memorável, chamado From sea to sea: “A rose-red city, half as old as Time” [Uma cidade rubro-rósea, com a metade da idade do Tempo]. Tivesse escrito “A rose-red city, as old as Time”, não teria escrito absolutamente nada. Mas “half as old as Time” empresta uma espécie de precisão mágica – a mesma espécie de precisão mágica obtida por aquela estranha e corriqueira expressão inglesa “I will love you forever and a day” [Vou te amar para sempre e um dia]. “Para sempre” significa “por um tempo muito longo”, mas é abstrato demais para empolgar a imaginação.

Então fiquei imaginando que algumas metáforas acabam se tornando lugares-comuns com o uso. A este respeito saiu uma matéria hoje na Ilustríssima, que mistura crítica literária com Proust e Freud. Muito interessante, embora o tradutor tenha se perdido em alguns momentos – isso seria resolvido se os jornais trouxessem os textos originais. O ponto que me tocou e que converge para o assunto deste post, é a respeito da beleza. Para mim, um texto literário, para ser chamado de arte, deve transmitir uma sensação exclusiva e inédita. A beleza, portanto, está (também) no manuseio hábil das ferramentas da linguagem, inclusive criando novas.

O título deste post é igualmente dúbio. Remete ao fim das minhas férias. Como professor, meu descanso anual cai em janeiro. Não tenho liberdade para escolher outro mês. Então, nos últimos dez anos, o meu repouso é entremeado com notícias de desastres naturais causados pelas chuvas e com a chuva em si. Viajar começa a ser menos perigoso quando janeiro vai chegando ao fim e eu já não posso também pensar em sair de casa.

Hoje recebi da minha professora um vídeo interessante, sobre o poder que um consumidor tem em suas mãos. Com um telefone celular (não foi o caso), uma reclamação pertinente e o youtube para ajudar, podemos fazer miséria (para exercitar a metáfora-lugar-comum). O vídeo está aqui. E a resposta do fabricante aqui.

Há vagas

Estacionamento democrático

Trabalhando na Europa, um amigo meu ia de carona todos os dias de casa até o trabalho. Primeiro dia no novo emprego e já era convidado a dividir um carro: um colega passaria em sua casa. Um dia chegaram mais cedo, bem mais cedo e o estacionamento, enorme, estava praticamente vazio. Era possível escolher um excelente lugar, mas seu companheiro resolveu parar o carro bem longe, quase no extremo oposto à porta de entrada. Ora, este meu confrade não se conteve e questionou o francês: por que é que você parou tão longe, com tanta vaga melhor? A resposta o deixou desarmado e envergonhado: ainda tinham tempo para caminhar, mas os colegas que viessem a partir dali não conseguiriam bater o ponto na hora correta se tivessem de andar tanto. O fato de a história ter como palco a Europa não quer dizer nada: é somente um dado. Poderia ter sido aqui no Brasil, na Argentina, em qualquer lugar.

Recordei-me desta história ao ler ontem uma notícia no jornal, a respeito de um delegado que agrediu um cadeirante. Não é coisa rara de se testemunhar. Nem aqui e acredito que nem na Europa. Vejo duas, três, quatro vezes, todos os dias, um indivíduo que não é portador de necessidades especiais estacionar numa vaga preferencial. Um pavio menor e pronto, o resultado pode ser até morte. Se houvesse fiscalização, deveria ser aplicada a penalidade prevista no artigo 181, inciso XVII do CTB. Mas não há, porque não há dinheiro em jogo. Eu já disse e volto a repetir: tenho medo de qualquer pessoa armada – bandido ou mocinho. Não vi, mas os jornais divulgaram certa vez, em uma cidade do interior paulista, um tiroteio por causa de uma vaga em um shopping center.

Eu acho que o Estatuto do Idoso é um negócio maravilhoso, que não precisaria existir se a humanidade não fosse o que é. Este estatuto prevê a reserva de 5% das vagas em estacionamentos públicos e privados para pessoas com idade mais avançada. Nada mais justo e correto. Muita gente torce o nariz, outro tanto desrespeita, mas um dia o negócio pega. Tudo é muito recente ainda, as leis, os decretos, têm dez anos ou menos. Brasileiro é meio devagar, mas acaba aprendendo. Por via das dúvidas, eu tomei para mim a lição do europeu do início do post: sempre estaciono o mais longe possível da porta de entrada de qualquer local, assim tenho certeza que não provoco ninguém e faço minha parte para não levar um soco gratuitamente ou um tiro ou sofrer um derrame ou um ataque cardíaco por causa de uma discussão mesquinha, que só afiançaria que a sociedade não tem solução.

Van Eyck e Botero

Botero revisitou vários dos mestres que conheceu quando estudou na Europa. O resultado é sempre magnífico, como o paralelo que fez da tela de Jan Van Eyck, “O casal Arnolfini” ou “O retrato dos Arnolfini”. O quadro de Fernando Botero foi intitulado “O casamento dos Arnolfini (segundo van Eyck)” e acaba doando à cena uma leveza e uma vivacidade que o original não possuía. Já pensei em fazer isso na literatura – escolher um conto de um mestre e transformá-lo segundo meu estilo, mantendo os ingredientes principais. Ainda não trabalhei nisso, mas é um projeto.

O casal Arnolfini, Jan Van Eyck

Fernando Botero, O casamento de Arnolfini (segundo van Eyck)

Diálogo

Uma boa conversa

“Pô, cara, olha só, quanto tempo!”

“Pois é.”

“E aí, tudo certo?”

“Tudo.”

“E aí, você escreve ainda?”

“Ainda…”

“Nossa, legal.”

“Legal.”

“Já publicou algum livro?”

“Já sim.”

“Ah, é? Nossa, show. Sobre o quê que é?”

“São contos.”

“Ah, bacana. Mas você não tinha feito engenharia?”

“Fiz sim.”

“Nossa, legal.”

“É.”

“Ou, se você tiver algum livro seu aí, me passa pra mim ler.”

“Ah, claro, pode deixar.”

“Emprestado só, depois eu te devolvo.”

“Claro, claro. E você, o que tem feito?”

“Ah, tô aí na lida. Uma coisa aqui, outra ali.”

“Legal.”

“Olha, mas que bom ter um amigo famoso.”

“Quem?”

“Você, ué.”

“Ah, não, nunca fui famoso não. Nem minha família lê meus livros.”

“Hahahaha. Nossa, você é louco mesmo.”

“Por quê?”

“Engenheiro e escritor.”

“Ah, é.”

“Então tá, vou nessa. A mulher tá me esperando. Passa lá em casa depois pra gente tomar uma.”

“Ah, beleza, passo sim.”

“Você vai embora que dia?”

“Amanhã, eu acho.”

“Ah, então ainda dá tempo.”

“Dá sim.”

“Então tá. Valeu, até mais.”

“Até.”

 

Senso comum

Aqui! Aqui!

Como sempre gostei de equações matemáticas, que representassem algum fenômeno físico e como não havia conseguido me adaptar ao mercado, fui cursar o doutorado. Não por falta de opção, pois desde a adolescência eu sabia que jamais pararia de estudar. Discutia muito com um estudante de Física, tentando encontrar o significado de cada passo da resolução de uma equação diferencial. O que me alegrava nesse tempo era essa busca, queria entender os fenômenos que aquelas variáveis queriam representar. Não deixava de lado a literatura e nem a encarava como hobby – tinha o horário de leitura, de escrita, era tudo mais ou menos dividido. Mais ou menos, porque nunca fui organizado. Bom, o que estou tentando explicar é que a engenharia tem uma influência razoável sobre minha obra e por isso muitas pessoas não conseguem entender o que escrevo, porque não têm os pré-requisitos necessários e não se esforçam para tê-los. Não querem desafio. Outro dia, li uma resenha muito suspeita de uma professora universitária sobre um livro interessante. Ela argumenta que, ao escrever, o autor não pode se esquecer do leitor. Hum… Tenho sérias dúvidas a respeito dessa afirmação. É própria de alguém preso aos dogmas seculares da profissão. Ora, se se cria algo para seu leitor, você submete a arte ao critério de pessoas, do mercado, que estão submetidos aos preconceitos e limites de seu tempo. E daí se alguém pretende criar um romance ininteligível? Por um acaso não há um paralelo na pintura, com a abstração? Alguém consegue compreender uma pintura abstrata? E no entanto um Pollock não deixa de dar prazer nem deixa de ser belo. Meu livro “Abismo poente” e este novo, “Sol entre noites”, não chegam a ser ininteligíveis. De forma alguma. Só exigem do leitor uma paciência e uma atenção muito maior do que aquela necessária para ler um best seller. Só isso.

Conhecendo livro citado anteriormente, posso afirmar que não houve esforço por parte da resenhista, que fez uma leitura superficial e rápida. Claro, não podia ser diferente, pois um jornal paga, quando paga, 200, 300 reais, no máximo, por resenha. As humanas, como ciência, estão muito atrasadas em relação às exatas. Escrevo isso com conhecimento de causa, fiz cursos nas duas áreas. A linguística nem pensava em nos dar o ar da graça e Newton já fazia horrores com a Matemática e com a Física. E não pensem que Einstein é fácil de ser compreendido. Não é mesmo. O que dizem sobre sua teoria nos botecos, é senso comum, é Einstein mastigado, simplificado, deturpado e vomitado dois milhões de vezes. A Mecânica Quântica é complexa, mas para ser compreendida, os pesquisadores se debruçam sobre ela, leem com atenção, dispensam seu tempo a compreender o que Einstein queria dizer, a experimentar. A literatura devia ir pelo mesmo caminho, é a única forma de combater a mediocridade.

Comecei falando de equações, não? Então, hoje eu busco justamente o contrário, vejo os fenômenos, enxergo o mundo com o filtro da minha história e tento transformá-lo em texto. É assim que estou construindo a minha obra: encarando as palavras como variáveis e as frases como equações. Ao escrever assim , honestamente, só penso em mim. Nivelo os futuros e eventuais leitores com o prumo da minha própria interpretação – se eu consigo compreender o que escrevo, qualquer um também conseguirá, com mais ou menos esforço. Não acreditar na existência de leitores competentes, que conseguirão digerir o que se escreve, é o mesmo que subestimá-los e subestimar é desrespeitar.

A profissão

 

A literatura brasileira ainda é um bebê bastardo, que não sabe quando começar a engatinhar, de forma que viver dignamente por meio da escrita é algo complicado ainda em nosso país. Alguns já conseguem, como todos sabem. E muitos outros conseguirão também, em breve. A tendência é que o Brasil siga seus colonizadores e avance. Para que um escritor consiga se sustentar com os trocados das letras, é fundamental que se criem mais concursos literários e mais feiras também. De direitos autorais nenhum gênio sobrevive. Basta fazer as contas – um baita escritor, como Luiz Ruffato, vende 3 mil exemplares de cada obra sua. Sendo otimista, 5 mil exemplares. De cada venda ganha aí seus 5 reais, o que contabiliza 25 mil reais. Só que, para desovar 5 mil exemplares, as livrarias levam 2 anos. Fazendo as contas, isso daria um salário aí de R$ 1042,00 mensais para um escritor do porte do Ruffato. Um soldador, com todo o respeito aos soldadores, ganha 7, 8 vezes mais. Agora, para chegar lá, o Luiz demorou um tempinho. Digamos que já estava beirando os 40 anos (novamente sendo otimista) quando começou a vender bem. Isso quer dizer que, para o sujeito fazer literatura de qualidade neste nosso país, é preciso deixar de viver durante quarenta anos. Daí vem aquele mito, provavelmente: o de que escrever é um dom. Ora, é muito legal dizer isso, porque dom não tem preço e, principalmente, não é preciso que seja remunerado. As editoras adoram e não fazem nada para mudar a cabeça do leitor. Continuando o raciocínio: daí que é preciso criar concursos literários que premiem escritores que estão começando (é bom reconhecer o valor da obra de algum octogenário, mas não basta) e também que se convidem iniciantes para feiras literárias (e que estas participações sejam bem pagas).

Quando resolvi ser escritor, eu tinha uns quatroze anos, por aí. Mas quando comuniquei à minha família, já escrevia há um tempinho. Aos 20 anos eu desejava abandonar tudo para me tornar escritor e fui pedir a ajuda da minha família. A resposta foi simples, curta, imediata: termine seu curso superior e depois você poderá ser o que quiser, pois já terá um trabalho para se manter. Ironia das ironias, pois todos sabem que escritor não é profissão. Lá fora a coisa é mais fácil, sem dúvida. O candidato a escritor basta comunicar aos pais que quer ser um artista e que, para tanto, precisa ser sustentado durante uns três, quatro anos, tempo necessário para confeccionar seu primeiro best seller.

O livro de Enrique Vila-Matas, “Paris não tem fim”, toca neste assunto. O autor, Vila-Matas, recorda-se da carta que escreveu ao pai, pedindo-lhe que não cessasse de lhe enviar a pensão, pois estava quase terminando de escrever seu primeiro romance.

” ‘Querido pai: Cheguei a essa idade na qual se tem pleno domínio das próprias qualidades e a inteligência alcança sua força e capacidade máximas. É, portanto, o momento de realizar minha obra literária. Para realizá-la, necessito de tranquilidade e pouca distração, não ter que pedir dinheiro para Marguerite Duras nem estar o tempo todo me ocupando de convencê-lo de que vale a pena financiar a escritura de um romance que, afinal, quando o terminar e publicar e receber o aplauso das multidões, haverá de enchê-lo de orgulho paterno e de grande satisfação por saber ter sido generoso comigo. Seu filho, que lhe quer…’ ”

Com esta carta consegui adiar por um tempo o fim definitivo dos reembolsos postais. Provido de indubitável senso de humor e de um estilo muito sóbrio e direto, meu pai me respondeu:

‘Querido filho: Cheguei a essa idade na qual uma pessoa se vê obrigada a comprovar como seu filho se tornou um imbecil. Dou três meses para que termine a sua obra-prima. Além disso, quem é Marguerite Duras?’ ”

Eu não disse que lá fora é fácil e sim que lá fora é mais fácil do que aqui.