Encurralada

Agora não sei o caminho. Isso é ruim. Durante semanas construí um texto, que acredito até que seja bom, forte. Agora não sei pra onde ir, o que fazer com a história, como terminar, como matar a personagem. Não sei escolher as palavras, elas fogem, resistem. Às vezes é ruim não saber de mais nada. Mas só às vezes.

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Algumas questões

Às vezes vou ouvir algum escritor, é raro, mas algumas vezes vou. Há uma argumentação recorrente na voz desses sujeitos, velhos ou novos.

1) Eles reclamam que nasceram para a literatura, que não sabem fazer mais nada.

Caramba, todo mundo sabe “fazer outra coisa”. Se não sabe, aprende, as opções são inúmeras. Agora, gostar de outra profissão são outros quinhentos. Ainda assim, é possível. Escrever é somente uma alternativa num universo em constante expansão.

 

2) Eles escrevem por altruísmo, porque querem um mundo melhor, porque querem deixar algo para a posteridade.

As pessoas só escrevem por vaidade e egocentrismo. A perpetuação do nome é somente vaidade elevada à vigésima potência. Escritores gostam de ser bajulados, elogiados, badalados e gostam de ler e ouvir tudo o que dizem de bom a seu respeito. E, é evidente, que só podem ouvir e ler enquanto estão vivos, logo, o importante é reconhecimento aqui e agora, custe o que custar. O mundo melhor, para um escritor, é aquele em que todos querem ler seus livros.

Consumismo

 

O lançamento de “Moenda de silêncios” em BH é neste sábado, não se esqueçam de ir!

Hoje comprei um aparelho eletrônico e, ao ler o manual, me defrontei com uma frase mais ou menos assim: “vida útil deste equipamento: aproximadamente 5 anos, se observados os procedimentos de manutenção etc.” Puxa, eu cresci ouvindo aquela história de durabilidade. Íamos comprar uma panela, um colchão, um sofá e o mantra do vendedor era o mesmo, em qualquer loja: “isso dura pra sempre, senhora”. Aí, em algum momento da história, isso não se tornou uma ambição mais da sociedade: quem quer a mesma geladeira a vida inteira, o mesmo fogão? Só que a coisa foi piorando e hoje os smartphones seguem o exemplo dos carros e mudam de modelo ano a ano. Até aí tudo bem, compra quem quer. Se a pessoa não ceder ao marketing, pode ser que um telefone inteligente desses aí aguente uns oito ou nove anos.

O foda é o tapa na cara, o descarado tapa na cara: daqui a cinco anos, no máximo, você vai ter de comprar outro desse aí e jogar o seu fora. Pô, pode até ser que eu não queira um eletrônico que dure a vida inteira, já estou domesticado mesmo, mas também resistir por só cinco anos é achar que meu dinheiro é capim, não?

Libertação

Eu tinha 9 anos e cursava a 3a série do primeiro grau em uma escola pública de uma pequena cidade do interior mineiro, quando, durante uma aula, a professora, uma senhorinha sisuda e honesta, lançou o desafio: o autor do melhor trabalho sobre o dramaturgo Vianinha ganharia como prêmio um livro. Um livro! Eu queria sair naquele momento da escola, correr para a biblioteca, para o teatro, para algum centro cultural, em busca de informações, de fotos, de qualquer material que me ajudasse a obter aquela recompensa. Não queria ter de esperar. Assim, com o auxílio de adultos, de enciclopédias, de voluntários, de artistas, consegui vencer a competição.

Ao perceber a tristeza nos olhares de meus colegas, percebi que não tinha talento para o triunfo, mas acabei relevando isso quando rasguei o embrulho e desentranhei do pacote uma edição de Menino de Engenho, de José Lins do Rego. Uma edição barata, de papel ruim, capa duas cores, mas que exalava um cheiro de conhecimento, de tipografia, de diversão, que me persegue até hoje. Foi a primeira obra de minha biblioteca particular.

A partir dali, eu me tornei, nas palavras de meu pai, um desajustado. Tentaram me consertar: davam-me carona até o clube, um sol, uma piscina, me fariam desistir daquela loucura de me enfurnar num quarto pouco iluminado para ler alguma coisa. Tentaram me converter em uma criatura social, forçando-me a participar de cursos de oratória e socialização. Meus pais previam que, com o desajuste, se achegariam também a infelicidade, a miséria, a solidão. E, para a preocupação de todos, eu só piorava. Ia ao cinema, à praça, à casa dos pouquíssimos amigos, sempre com um livro debaixo do braço. Qualquer minuto de espera se tornava uma desculpa para a leitura.

Eu não tinha mesada, mas arranjava um jeito de conseguir uns trocados: passeava com o cachorro da vizinha, lavava alguma calçada, carregava as compras da semana daquela vovózinha torturada pela gota e pelo reumatismo. Eu havia contraído o “vício impune”, de que tanto falou o poeta Baudelaire. Trocava todas as moedas que ganhava por livros. Com o tempo, me tornei refém daquela máxima atribuída a Erasmo: “Quando tenho algum dinheiro adquiro livros e, se me sobra algum, compro então comida e roupas”.

Trato esses objetos com o carinho com que se deve tratar aquilo que se ama profundamente. Sei acariciá-los, sei sustentá-los com a palma estirada da mão, para que não se danifiquem, sei conservá-los para que me acompanhem com vigor nesta pequena viagem aqui na Terra. Não sei exatamente quantas obras possui o meu acervo, mas tenho livros espalhados pela casa toda. Livros em cima de mesas, da geladeira, dos criados, das camas, da máquina de lavar roupas, da pia. Helena, minha filha de onze meses, engatinha sobre capas, lombadas, páginas, e, surpreso, observo que, sob a ótica de um bebê, meus amigos ganham outras utilidades.

Então, acabei por me tornar uma espécie de “book hunter”. Passo horas e horas em sebos à caça de alguma obra rara. Descobri várias e às vezes sofro muito ao ver um autógrafo se desbotando diante da umidade, uma capa de uma rara primeira edição permanentemente danificada. Pena que o desmazelo de alguém comprometera algum tesouro. Por um desses acasos da existência, cheguei a conhecer a Guita, esposa de José Mindlin. Nem sei se posso afirmar aqui, sem correr o risco de ser leviano, que ela era uma restauradora de livros. O que ela fazia era muito mais: era mágica! Bastava um volume avariado lhe cair nas mãos para sofrer uma transformação.

A partir daí, eu, que nunca havia colado uma ingênua fitinha em qualquer lombada ou capa, tive a confirmação de que estava inteiramente certo. Restaurar qualquer objeto é uma tarefa que exige não só habilidade, paciência, carinho e conhecimento, mas também um dom. É preciso saber que o restaurador é alguém que consegue ressuscitar algo que estava perdido. É por isso que idolatro todo aquele que defende, que ama, que recupera, que quer o bem para um livro.

Eu quis, neste pequeno relato, dar uma amostra do meu amor pela palavra. Tento até hoje tranquilizar meus pais, atestando que a leitura não me fez miserável, mas sei que não acreditam, principalmente quando me encaram com uma condescendência eivada de dó. Se não nos trazem iluminação, se não nos trazem redenção, se não nos trazem esperança, pelo menos que as letras nos tragam prazer e libertação.

Wikipiada

Estou sendo alvo de uma bobagem na Wikipedia. Uns administradores irão tirar a página com meu nome do ar. A justificativa: autopromoção. Ora, sob minha óptica, ter um verbete (que estão chamando de autobiografia) nesta “enciclopédia”, é motivo de vergonha e desconfiança para mim. Sempre digo aos meus alunos para não pesquisarem na Wikipedia, para não confiarem em seus verbetes. Claro, todos sabem que nada ali é totalmente confiável. Então resolveram, tarde demais, realizar uma “caça às bruxas”. Que besteira. Se nunca foi séria, não será agora que conseguirão o feito. Ora, se fosse um organismo sério, em vez de submeterem a página com meu nome a uma “votação”, em que, quem vota é somente administrador do site, deveriam pesquisar por aí a veracidade das informações. Basta uma visita à minha página pessoal ou uma pesquisa no sebo mais próximo ou na estante virtual, para perceber que nenhuma informação ali é descabida. Autopromoção? Que piada. Aí, tentei tirar eu mesmo minha página do ar antes que eu apele para questões de direitos autorais e eis que sou acusado de vandalismo. É ou não é o país da piada pronta?

O mito da igualdade

É lógico que ainda vivemos em uma sociedade machista e preconceituosa. Estava estacionando quando vi a batida: um carro entrava em uma oficina, sem dar seta. Ou seja: vinha a uma velocidade razoável e do nada resolve virar. Uma moto que seguia atrás acabou batendo na lateral do outro veículo. Até aí, acidentes acontecem, principalmente por imprudência. Só que o motorista do Fiat desceu avacalhando. Claro, assim que percebeu que quem dirigia a moto era uma mulher, se sentiu no direito de ignorâncias. Chegou impondo, gritando. A moça tirou o capacete, o pulso ralado, transtornada, pois havia caído no chão, a jaqueta rasgada. E falou alto também, mas na boa, reclamando que o sujeito só se preocupava com o carro e nem queria saber se ela havia se machucado. Verdade: ele só repetia que a porta estava toda amassada. E gritava, gritava, gritava. Queria a qualquer custo que a moça pagasse o prejuízo. Foi quando ela argumentou que ele não tinha acionado a seta. Aí, retomando o domínio de si, acrescentou que ligaria para o namorado, e sacou o celular. A partir de então, eu vi uma transformação no indivíduo imprudente: “ah, vamos deixar disso, fica por isso mesmo, tá tudo certo”. Como se ele percebesse, de repente, que o argumento do namorado da moça viria mais forte, porque era de um homem. E tremeu. De homem para homem, a questão era outra. A moça desistia de brigar. Se fosse adiante, ganharia o conserto de sua moto, bastante danificada com a batida. Devia ter ligado para a polícia, feito um B. O., colocado aquele sujeito em seu devido lugar de idiota.

Desinformação

Como professor, sei que a coisa mais complicada que existe é dar uma aula ou falar sobre um assunto que não domino. Como ex-resenhista e ex-articulista, eu também sei disso. Então, eu estava lendo o jornal de hoje e me deparei com a seguinte matéria: “Lições de administração com um poeta”. Ora, administrador entender de poesia é coisa rara, fato decisivo para que eu me aventurasse pelo texto, de Rogério Amato:

“Li recentemente um artigo interessante do poeta russo nascido na Geórgia Vladimir Maiakovski.

Ele dizia: ‘Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor, e não dizemos nada. (…)'”

Decidi parar por aí. Para começar, não se trata de um artigo e sim de uma poesia e seu autor não é Maiakóvski e sim Eduardo Alves da Costa. Eduardo caiu numa armadilha: intitulou o conjunto de versos de “No caminho com Maiakóvski” e isso lhe tem gerado inúmeras dores de cabeça. O que é de se estranhar é um jornal do porte da Folha não ter um revisor que sacasse isso e fizesse a correção antes de publicar a matéria.

Erro semelhante ocorreu nos meus tempos de estudante de Letras. Minha turma confeccionou uma camiseta com a poesia, dando sua autoria a Maiakóvski. Quando vieram me oferecer uma, recusei, alegando que quem havia escrito os versos era Eduardo Alves da Costa. Pra quê? Fiz inimigos para o resto da vida.

Mas como é mesmo aquele dito popular? Perco o amigo mas não perco a chance de corrigir um engano?

O poeta Eduardo Alves da Costa

O poeta Eduardo Alves da Costa

Memória

Todos os meus avós faleceram há algum tempo. Conversando hoje com meu irmão, perguntei a ele se ele se lembrava dos nomes de todos eles. Juntos, nos esforçamos e chegamos aos nomes e sobrenomes dos pais de meu pai. Mas sobre os pais de minha mãe, esses mortos há mais tempo, não conseguimos um acordo quanto aos sobrenomes. Meu objetivo original era alcançar os dados de meus bisavós e aí, nada. Resultado: nossa memória alcançou muito perto, de modo que, quando algum escritor me diz que o importante é que a obra seja lembrada depois que ele esteja morto, eu penso que isso é uma grande bobagem. Vaidade. Desejamos reconhecimento agora, que estamos vivos. Depois, ninguém sabe o que virá, por mais que se especule. Além do mais, parece-me óbvio que o máximo que nossa obra sobreviverá a nós é quase nada diante dos milhões de anos de história da humanidade.

Educação

Li agora num jornal: “o momento é de desaceleração na economia, e a escola é o primeiro item que a família deixa de pagar.” Há muito o que ponderar sobre a frase. Primeiro, que aparentemente a sociedade até parece achar que a educação tem alguma importância e por isso se mete a matricular os filhos em escolas “de excelência”, pagas, evidentemente. Mas quando a coisa aperta, parece ser mais importante bancar o novo celular, o novo tablet, o novo carro, do que quitar as mensalidades da escola do filho. Daí percebemos que educação virou bem de consumo.

Os pais, a qualquer custo, procuram as melhores instituições. Ensino fundamental e médio, não tem jeito, é pagar uma escola privada de grife. Depois enfiar a prole em uma universidade pública, se a garotada for CDF. Tudo porque ainda existe o sonho de que basta cursar boas escolas para se dar bem na vida.

Hoje há escola para a maioria, mas o modelo ainda é o mesmo do de 1970: educação de qualidade só para a elite. A coletividade interioriza a opressão e arruma um jeitinho de vencer o próximo. Para se ter sucesso, só é preciso se esforçar, quem faz a escola é o aluno. Nossa, quanto senso comum, quanta ignorância. Assim, todos se esquecem que a educação não é um bem, não devendo estar sujeita exclusivamente a leis de mercado. O problema é que são muitos os que prescindem do direito à educação de qualidade.

Evolução

O próprio título deste post pode ser pensado como uma crítica ou como um convite ao estudo de alguns livros de Richard Dawkins, também. Mas meu objetivo é um pouco mais humilde, embora, de maneira alguma, queria fazer qualquer tipo de crítica ao que quer que seja. É somente uma reflexão. Sei que não adianta, mesmo com argumentos, tentar mudar a opinião da maior parte das pessoas, no que diz respeito à religião. Quem é religioso continuará a ser religioso e a respeitar seus dogmas, apesar de qualquer prova e quem é ateu, assim seguirá sua vida, no ateísmo.

O interessante é que sempre ouço falar que a igreja não pode mudar suas posições com o passar do tempo e aqui me refiro à igreja católica. Que as leis foram criadas por Deus e que não dependem da época. Só que, se formos pensar direitinho, a religião parece ter superado a escravidão (ficando apenas neste exemplo). Pelo menos não encontramos mais padres professando que é bom que se tenha um escravo no quintal de casa, para ajudar no trabalho. Se não me engano, de vez em quando a igreja até se embrenha em alguma campanha contra a escravidão nos dias atuais (que existe, lógico). Então, por acaso, estava lendo um trecho do Êxodo, que defendia que não devemos cobiçar a mulher do próximo, nem os escravos do próximo. Ora, se a igreja não concorda mais com escravos, só resta dizer que a palavra de Deus foi superada, já que se acredita que a Bíblia foi escrita por homens, inspirados por Deus.

Assim, acompanhei outro dia que o Santo Padre condenou a união Gay, utilizando o mesmo texto sagrado para sustentar seu julgamento. Claro que os homossexuais estão se lixando para o que o Papa professa, mas eu acho que é questão de tempo para a igreja rever seu posicionamento radical (há pouco reviu algo sobre a camisinha, alguém se lembra?). Não serei tão radical quanto Christopher Hitchens, mas estou certo que em alguns anos outros “furos” do livro cairão por terra.