Policiais e Vigotsky

Educação

Não quero fazer apologia a nada, até porque é uma questão muito complicada essa da segurança (vide caso filho da Cissa Guimarães). Vou apenas narrar o que aconteceu comigo. Ontem no final da tarde vinha eu por esta cidade nova para mim, dirigindo dentro dos limites de velocidade, num bairro central, procurando um banco para fazer um saque. De repente vem correndo um carro da polícia atrás de mim, me ultrapassa e começa a andar devagar na minha frente. Dois policiais começaram a gesticular freneticamente. Entendi que eu devia estacionar, talvez quisessem conferir meus documentos. Dei seta, estacionei. Desceram os dois, revólveres em punho.

– Boa noite.

– Boa noite, respondi.

– Seu filho da puta, você não está vendo que a porra do seu farol está alto?

– Nossa, perdoe-me, estou me mudando agora para esta cidade, não percebi, não tinha a intenção de atrapalhar ninguém. Ainda não está totalmente escuro, não notei. Perdoe-me, senhor.

– Porra, não viu que eu estava sinalizando para abaixar a merda do farol? Você é burro ou é cego?

– Nossa, desculpe-me, não conhecia este sinal que o senhor estava fazendo.

Como tenho muito medo de policiais, sempre inseria uma palavra de desculpa entre as frases. Mas não adiantou muito, ele levantava cada vez mais a voz:

– Caralho, fica esperto, porra. Essa merda está cegando todo mundo. Abaixa essa porcaria logo.

Ao gritar, ficava agitando a arma e eu tive medo que o revólver disparasse acidentalmente.  Concordei com tudo, na esperança que ele fosse embora logo. O guarda do outro lado da porta continuava de arma em punho, rindo.

– Perdoe-me, eu realmente não percebi.

– Olha só, não deixa eu te ver de novo pela cidade não, beleza?

Então eu ponderei que ou tenho de trocar de carro ou mudar a placa do meu. Porque mais cedo ou mais tarde nós vamos nos avistar de novo. A gente sempre encontra problema, mesmo sem procurar.

Tempo

Sim, às vezes bebo café.

Estou me mudando para uma casa. Isso é complicado, pois me deixa um pouco sem tempo. Eu mesmo encaixotei meus três mil livros – caixas e caixas, plástico bolha mais plástico bolha e eles não podem ficar muito tempo confinados. Além disso, uma novidade sobre “Sol entre noites”, o livro que escrevo no momento. Mais trabalho e menos tempo. Depois eu conto. Por enquanto, fiquem com algumas poesias d’O livro da carne. Aqui. Em tempo: estou apaixonado pela jabuticabeira no quintal.

O xis da questão

La petite vendeuse de soleil

– O senhor já esteve aqui antes?, dispara a atendente, prestativa.

– Sim. (Não sou de muita conversa)

– Nome, por favor.

Soletro para ela, que clica daqui, digita dali. Nada posso ver, porque o monitor está voltado em sua direção.

– Mas seu nome não consta no cadastro.

– Uai, mas nunca me cadastraram aqui!

– O senhor não acabou de dizer que já esteve em nosso estabelecimento?

– Sim.

Ela abaixa os olhos, desanimada, clica daqui, aperta dali e pergunta, superior, impaciente:

– Nome?

Um mundo esquisito

Banana ao telefone

Desde a infância até a pré-adolescência, jamais comprei roupas ou sapatos. Quem fazia isso por mim era minha mãe. Claro que ela me levava com ela até as lojas, mas podia ter evitado expor seu filho daquela maneira. Íamos de Pernambucanas em Pernambucanas, passávamos a tarde inteira pechinchando. Só saíamos de algum lugar com algum pacote quando o produto unia um preço baixo a uma qualidade superior e a generosas formas de pagamento. Três ou quatro vezes sem juros, geralmente. Visitávamos nove, dez estabelecimentos e muitas vezes comprávamos a camiseta ou o tênis que víramos naquela primeira loja, na qual entramos no início do dia. Isso me traumatizou bastante, porque Ituiutaba era uma cidade quente, muito quente e eu detestava ficar experimentando roupas suado. Por que não podia usar aquela camiseta com um furo na manga pro resto da vida? Ou o kichute que ainda duraria mais uns quatro ou cinco anos? Carrego até hoje este pavor por compras. Por isso, quando me perguntam se gosto de Internet, respondo que sim, porque ela me salvou do contato comprador-vendedora. Um corpo-a-corpo de fazer inveja à seleção holandesa desta Copa. Agora só compro sapatos, calças e camisas em lojas virtuais. Muito bom. Quando visito uma camisaria na Internet já adquiro umas dez camisas logo de uma vez para poder ficar dois, três anos sem comprar mais nada. Há também outras coisas deste planeta com as quais não me acostumo: telefone e campainha. Não adianta bater na porta aqui de casa. Se estou sozinho, não atendo mesmo. Telefone também não me atrai muito não. Para mim é uma coisa surreal isso de telefonar (mesmo assim, sim, tenho celular). Já notaram que quando falamos neste aparelhinho, não podemos nos calar e um silêncio de um segundo é uma tortura insuportável? Ao vivo, a coisa não é assim. Pode-se ficar até meia hora em silêncio, que está tudo certo, o interlocutor sabe que você ainda está ali, na maioria das vezes. Eu acho que existem muitas coisas estranhas neste mundo.

outro miniconto

Estou escrevendo (terminando) o terceiro conto de “sol entre noites”. Então estes minicontos são uma espécie de descanso, um exercício divertido.

erro

googou: jezus – 5.650.000 resultados. jesus – 203.000.000 links. não, não era conclusivo. desde aquele comentário que a pulga incomodava. podia ser inveja. ou despeito. e sua rede de relacionamentos não contava com um professor de gramática. retornara das férias com a frase tatuada no peito do pé, uma sandália que realçava as letras caprichadas. o pastor lhe jurara que estava tudo certo. depois, comprar um erro de português por aquela fortuna? decidira: de então em diante, até que tirasse tudo a limpo, só iria para o trabalho calçando tênis.

miniconto

Eva e a morte, púlpito de madeira - Cathédrale Saint Michel, Bruxelas.

Durante alguns anos mantive um site de minicontos. De vez em quando sinto falta desses exercícios. Para curar essa saudade, escrevi este aí há alguns dias:

duelo

para atravessar sem pânico as quatro horas diárias de sono, combinara com a esposa: ela ficaria acordada, vigiando-o, enquanto descansava. um imprevisto – taquicardia, agitação, arquejo, apneia – e devia despertá-lo. cinco anos nessa rotina. desejava estar alerto se a morte o avistasse. da última vez, quando um infarto o surpreendeu durante o banho – deixando-o oito dias em coma – as drogas impediram um diálogo coerente com aquela alucinação. ela não o encontraria desprevenido novamente, cobraria uma resposta para a pergunta adiada: por quê?