Festival da Mantiqueira

Cachoeira dos Pretos

Fomos, eu e Ana, para São Francisco Xavier novamente. Este ano, via Joanópolis, uma pequena cidade a quarenta quilômetros do nosso destino. Para quem gosta de natureza, é um caminho atraente. Passamos pela Cachoeira dos Pretos, maravilhosa. O porém é a estrada: de terra, travessia demorada. O melhor continua a ser o trajeto por São José dos Campos. Dois dias de literatura, estava com saudade do ar vaidoso dos escritores. Mas Osvaldo Rodrigues não é assim. Principalmente porque é nosso amigo. A melhor palestra da viagem foi a dele. Narrou-nos seu encontro com Ferreira Gullar nos anos 80. Acho que foi realmente nos anos 80. Minha memória não existe para datas e para nomes. Naquela época, lera um poema do maranhense e ficara tão impressionado que, com o livro ainda na mão, sem mala, sem cuia, corre para a rodoviária e segue para o Rio de Janeiro. Chegando lá, toma um coletivo para a livraria José Olympio, pois precisa do endereço do poeta. Consegue o telefone da redação do Jornal do Brasil: seria recebido no final da tarde. Conversam durante algumas horas e, ao se despedir, Gullar lamenta não poder manter contato com Osvaldo. Passava por problemas familiares. Sobre estas questões, o próprio José Ribamar Ferreira dissertou durante sua fala no Festival: dois filhos esquizofrênicos. Ouvir a história do poeta Osvaldo Rodrigues foi mais interessante do que acompanhar o maranhense contar da sua amizade com José Sarney.

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Um pouco de literatura

Instrumento educativo

Estou um pouco cansado da Pedagogia. No Brasil, os cursos de Pedagogia são voltados para crianças. Ou seja – se um sujeito quiser ser professor universitário ou de cursinho ou colegial, não deve procurar a Pedagogia. Ingressei em um curso à distância da UFSCar em 2008 e, apesar de reconhecer a qualidade que a universidade oferece, mesmo à distância, tenho me sentido um peixe fora d’água. Porque não tenho interesse em lecionar para crianças e, se depender de mim, jamais o farei. Então tento adaptar o que leio à minha prática, que se resume em dar aulas em cursos técnicos e superiores. É isso.

Li as resenhas do Alcir Pécora publicadas na Folha de São Paulo nos últimos meses. Apesar de concordar com muita coisa que o crítico escreveu, tenho um certo receio de que ele pegue um livro meu pela frente. Porque são poucas as obras que ele elogia, o que significa que a literatura brasileira contemporânea é uma merda. E eu não estou tão certo disso. Neste último final de semana desceu a lenha (com argumentos) nos lançamentos de Nelson de Oliveira e Joca Reiners Terron.

Para terminar, tem uns poemas de meu último livro aqui.

Álvaro Alves de Faria, em seu blog

Eu na Praça Benedito Calixto

Acompanhem o blog do Álvaro Alves de Faria.

Ainda existem livros de poesia. Os meus 19 leitores podem acreditar. Ainda existem aqueles livros de poesia em que a gente pode se debruçar para se envolver na Beleza. Aquela poesia verdadeira, não o que, infelizmente, está nas prateleiras de uma mediocridade medonha, amparada pela chamada mídia cultural que não tem compromisso nenhum com nada. Digo isto ao ler o novo livro de Whisner Fraga, “O livro da carne”, lançado agora pela editora 7 Letras. Whisner Fraga é o que de melhor surgiu nos últimos anos nestas plagas brasileiras no que diz respeito à literatura, ao poema e à prosa. Autor elegante, de palavras delicadas, de versos bem construídos como quem lida com uma peça de porcelana, moldada especialmente com o sentimento mais íntimo e verdadeiro. Um livro que comove do começo ao fim, desde seu depoimento no início: “Escrevo sobre as incontáveis infâncias que vivi na distante e (agora) irreconhecível Minas Gerais”. Mais adiante: “Os homens não apreciam o sofrimento, mesmo quando necessário ou inevitável, e eu não sei se estes versos são imprescindíveis”. Os poemas de “O livro da carne” são pequenos retratos de instantes gravados para sempre numa memória poética, do ser poético. Whisner não é poeta por acaso. Na verdade, carrega em si muitas vidas e muitas jornadas que tecem essa poesia limpa, que nasce e renasce sempre, no gesto, na pedra, no olhar, na face, na palavra. Essa poesia foi colhida da sua própria distância, como se colhe uma fruta de uma árvore. Ainda existem livros de poesia. De verdadeira poesia. Ainda existem. Prova disso, é este novo livro de Whisner Fraga, em que se deixa levar por si mesmo, apenas dizendo o que vê no espelho, aquelas imagens de um tempo que nunca desaparecerá. Deixo um poema de Whisner, como exemplo da paisagem poética que ele mostra por ser o poeta que é:

PARA RECONHECER ARREDORES

Inocentar equações

Devolver ao mártir o enigma da dor

Convidar os livros ao absurdo das páginas

Imitar o alarido dos sinos

Divertido trinado de cigarras

Jardinar recreios

Abraçar o pátio

Recorrer às marés e naufrágios

Pulsar encantos

Socorrer colheitas e pequenezas

Agarrar a mão mais atenta

E inventar o próprio nome.

Lixo

O consumo

A moça do supermercado me alertou: em breve as sacolinhas plásticas não estarão mais disponíveis. Apesar de costumeiramente levar minhas compras para casa em uma caixa de papelão, provoquei: “E vão disponibilizar sacolas de papel em seu lugar?” A moça me encarou desconsolada – tinha de aguentar mais essa antes do final do expediente? Muita gente usa as sacolas como depósitos para o lixo doméstico. É só dar um pulinho na calçada mais próxima e qualquer um pode constatar o fato. Como essas pessoas farão? Ah, simples, comprarão no mesmo hipermercado os sacos próprios para o armazenamento e descarte do lixo. Sacos… plásticos! Outro dia precisei novamente ir às compras (costumo pescar meu almoço nestes estabelecimentos) e questionei a moça da rotisserie: “vocês irão substituir estas embalagens de isopor por outras ecologicamente corretas?” “Hã?” Deixa pra lá, eu tentei. No caixa, de novo a lenga-lenga: “em breve não teremos mais estas sacolas”. A mulher atrás de mim suspirou: “já não era sem tempo!” Aí, a julgar por sua roupa, pelas duas crianças a tiracolo, pelos quilos extras e pela corrente de ouro, conspirei: só pode ser dona de um desses carros de 160 cavalos, que vive dizendo que precisa comprar uma bicicleta (mais para emagrecer do que para cessar de injetar Co2 no nariz alheio). Ora, acredito que para ser ativista ou para se dizer ecologicamente correta, uma pessoa tem de ter conhecimento. Não basta virar vegetariana do dia pra noite e querer salvar o mundo. Aliás, o mundo está salvo, quem está perdido somos nós, seres desumanos. De que adianta alguém parar de lavar a calçada de casa se não critica a irrigação agrícola, grande responsável pelo desperdício de água em nosso país? De que vale comprar uma daquelas sacolas ecológicas (baita negócio para quem as vende) que os hipermercados oferecem, se continua a ir às compras de carro, duas, três vezes por semana? Nem vou citar a superpopulação de nosso planeta, porque há poucos dias rolou o dia das mães e as pessoas podem se ofender. E por aí vai…