Biografias

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Uma matéria hoje veiculada hoje pelo Estadão, sobre a publicação de biografias, me levou a pensar a respeito do assunto. O texto trata de um livro que o jornalista Paulo César de Araújo vem escrevendo há cinco anos sobre a vida de Raul Seixas. Vou tentar ver os dois lados da moeda. De uma banda, uma das ex-mulheres de Raulzito tenta barrar o lançamento da obra, alegando que  a biografia não foi autorizada. O jornalista contesta alegando que ele mesmo a entrevistou algumas vezes e que ele não a reconhece legalmente como mantenedora do patrimônio de Raul Seixas. Alguns fatos: a tal ex-mulher ganha a vida há vários anos cuidando do legado do cantor, dá palestras sobre a obra do ex e tal. Ora, se o livro manchar muito a imagem do Raul, pode ser ruim para os negócios dela. Há pouco tempo uma biografia do rei Roberto Carlos foi censurada. O jornal Estado de São Paulo vem dando destaque a tudo quanto é matéria relacionada a censura, porque ele próprio foi censurado no caso Sarney. Ou seja: é fato que a censura à imprensa voltou à pauta de discussões da intelectualidade brasileira. O jornalista Paulo César tem seus interesses, lógico. Ao biografar Raul Seixas espera ganhar dinheiro, espera transformar seu livro em best seller, espera ser convidado a dar palestras pelo país e amealhar uma graninha. Não há nada de errado nisso, claro. Mas é bom manter em vista que ninguém está defendendo o pão por puro altruísmo.  Daí que a ex e a filha reclamam que o biógrafo quer saber só dos podres do Raulzito. Ora, em várias entrevistas que a ex deu para a imprensa, ela expõe em detalhes a sociedade alternativa de Raul, bem como a vida íntima dos dois. Então qual o problema? A censura.

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Nada de novo sob o sol

Sol

Sol

Primeiro o show do Ney Matogrosso. O teatro estava cheio, o que prova que há lugar para a música de qualidade também, a despeito dos preços salgados dos ingressos. Aliás, sal necessário, uma vez que os artistas têm de arranjar um outro jeito para manter a adega em dia com os vinhos do Porto. Essa história de download fez com que o cantor polarizasse seu lucro nos shows. Interessante também. Sentamo-nos na primeira fila. Acordei às quatro e meia da manhã. Resolvei não ir ao Correio, pois a greve normalmente acarreta alguns extravios de correspondências. Li a Folha de São Paulo, o Estadão e o jornal A cidade. Interessante o artigo do Jorge Zaverucha, sobre a crise em Honduras, publicado na Folha. Depois fui ver a entrevista que a Carla Dias deu ao Ralph, da clictv. A Nina, uma das gatas que vive com a gente, veio dormir no meu colo. Depois uma pizza foi pro forno – não tenho o hábito de comer massas, mas estava com preguiça para ir ao restaurante sozinho. À tarde, acabei comprando uns cogumelos e um salmão e daqui a pouco vou matar a saudade de comida japonesa. Corrigi uns textos, avancei um pouco em um conto, revisei algumas páginas, li umas centenas de parágrafos sobre democracia e já é noite. Daqui a pouco vou abrir um vinho. Ontem, no supermercado, uma vendedora me ofereceu uísque. Faz bem uns cinco anos que não experimento uísque e não estou com muita vontade. Se alguém me perguntasse: “e aí, alguma novidade?”, eu responderia: “não, nenhuma!”

Confissão

Engenheiros

Engenheiros

Eu devia retomar a engenharia e procurar enriquecer de uma vez por todas. Assim, numa terça à tarde, eu iria ao shopping carregar dois ou três carrinhos com novidades do capitalismo: televisores LDC, LED, iPhones, Blue Ray e talvez uma trinca de camisas de grife. Só não sei de qual grife nem qual a diferença entre uma e outra marca, mas descobrirei, porque serei rico e pedirei à vendedora que me explique o porquê de tudo. Depois, caminhando rumo ao carro, pararei em uma ou outra loja para comprar alguma coisa, algo de que não necessite e que ficará esquecido num canto da casa construído especialmente para as compras desnecessárias ou desprezadas. Chegando em casa, conectarei o iPhone ao Notebook caríssimo, que me levará a um mundo entendiante e chique, do qual começarei a sentir uma necessidade cada dia maior, até que, dentro de uma ou duas horas eu me decida por outro vício. Trocarei de carro toda quinta-feira pela manhã – uma Ferrari por um Jaguar, um Porsche por um Lamborghini, até que tenha experimentado todas as potências resmungando sob todos os capôs da Terra. Aí, pondero que tenho vergonha de vestir camisas de grife ou que custem mais do que minha consciência me deixa pagar. E que não preciso de celular porque eu não atendo telefones. E que o Chabrol fica muito melhor na indefinição da nossa antiquada 32 polegadas aliada ao vídeo-cassete de quatro cabeças. Em carros, busco poucas coisas: que não quebre e que tenha uma certa segurança, porque viajo muito. E que adoro transporte público, quando funciona. Mas talvez haja uma razão para me tornar milionário: os bichos. Faria como o escritor colombiano Fernando Vallejo e toda sexta-feira à noite doaria minha fortuna da semana para manter os animais longe deste matadouro gigantesco que habitamos. Só alguns detalhes me separam da burguesia: a minha inaptidão para o comércio, essa incompetência para o negócio, a náusea, o tédio, o pudor.

Minas

A beleza de Minas Gerais

As belezas de Minas Gerais

Minas Gerais é um estado estranho, com pessoas de hábitos inusitados. Lá, quando namorados terminam o relacionamento, geralmente por motivo de traição ou ciúme ou enjoo, jamais voltam a se falar e se, por acaso, em uma calçada da cidade, um percebe o outro se aproximar, muda imediatamente de sentido, atravessa a rua ou entra em um estabelecimento qualquer, tudo para evitar o contato. Há também os casados, vinte, trinta anos de convivência e de repente o divórcio: brigas pela posse dos filhos, lutas por pensões e jamais voltarão a ouvir a voz um do outro. Claro que viverão o resto das  horas maldizendo o/a parceiro/a, o que lhes fará bem. Ocasionalmente encontrarão outra pessoa para dividir suas frustrações, com quem manterão um relacionamento de animosidade e desapontamento. Em Minas, as pessoas se silenciam – quando dizem que mineiro é calado, é verdade, porque está sempre tramando. Desconfia dos outros porque não confia nem em si próprio. E nunca diz abertamente a verdade – se comenta que o vestido da outra não combina com o sapato, pode estar com inveja. Se o mineiro não deseja se encontrar com determinada pessoa, pede para o filho ou a empregada ou outra pessoa atender o telefone e dizer que não está em casa. Só numa pescaria o povo de Minas é honesto (e só no câncer solidário, já sentenciou o escritor), pois não esconde aquele furioso desejo de trazer à superfície o maior peixe.

Pedido de socorro

Um dia difícil

Um dia difícil

Foi a segunda vez que isso aconteceu comigo. E não sei se é algo frequente, que rola com todo mundo. Eu estava debaixo de uma árvore, aproveitando sua sombra e pensando se o curso começaria com atraso, quando uma mulher se aproximou e me perguntou se eu podia entrar no banheiro masculino e procurar pelo Fulano de Tal. Ora, Fulano é um famoso educador e fiquei um pouco sem jeito, sem saber se ia lá ver se o cara estava passando mal ou se dava uma desculpa qualquer. Fui e ele lavava os óculos na pia. Como o conhecesse de fotos, não tinha dúvida nenhuma de que era o de Tal. Entretanto, achei melhor iniciar a conversa com uma pergunta: O senhor é que é Fulano de Tal? Ao que ele imediatamente respondeu amavelmente que sim. Enxugou as mãos e me cumprimentou. Percebi que ele esperava que lhe dissesse algo mais. E este algo mais certamente não era uma frase do tipo: tem uma senhora lá fora procurando por você. Então lhe questionei sobre uma teoria que vinha estudando e ele ficou feliz por poder me ajudar. Alguns minutos mais tarde saímos juntos e aí sim, eu lhe disse que alguém o aguardava. Outra vez, Fernanda Venturini (cujo nome descobri porque pesquisei agora no Google e que na época só soube que era esposa do Bernardinho porque ela me dissera) me pediu para procurar seu marido no banheiro masculino, o Bernardinho. Ora, fui até lá (e iria, de qualquer maneira, porque precisava lavar o rosto, entre outras coisas) e disse a ele que sua esposa o chamava lá no pátio. Como eu percebesse que ele ainda não havia lavado as mãos, relutei em cumprimentá-lo. Mas eu desconfiava que vinha fazendo um bom trabalho com alguma seleção de vôlei (não sabia se era a masculina ou a feminina) e me senti na obrigação de um parabéns.

The passenger

Supermercado

Supermercado

Algumas vezes meu pai me chamava para passear de carro, aquelas coisas de cidade do interior: dar uma passada na padaria ou na mercearia. Aliás, era engraçado, fazíamos compras do mês. Íamos ao supermercado e enchíamos dois, três carrinhos, com uma infinidade de produtos, três sacos de sabão em pó, dois sacos de arroz de cinco quilos cada um e assim por diante. Passávamos duas horas ou mais entre os corredores, com uma lista que jamais obedecíamos e uma calculadora para nos provar que nossa família não era lá muito bem de vida. Depois, em casa, confrontávamos a lista que a moça do caixa nos dava com os produtos que transbordavam de sacos e sacos de papel. É, naquela época os saquinhos de supermercado ainda não eram de plástico. Então o supermercado servia para as compras do mês e as mercearias para as emergências. Os supermercados, na realidade, não eram tão super assim, tinham lá seus cinco corredores, no máximo, e pertenciam geralmente a um ex-dono de boteco. Lá a gente tinha de pagar no cheque (não tinha esse negócio de cartão de crédito e tal) e geralmente não nos era permitido parcelar o valor. Na mercearia a coisa era mais informal, tudo podia ser anotado na caderneta, ou seja, não era necessário ter dinheiro para sair de lá com um litro de óleo ou com uma caixa de bombom. O porém era o preço, claro. Alguém tinha de lucrar com essa história. Eu me ressentia muito com o fato de termos uma caderneta na mercearia do Seu Zé e não na do pai do meu melhor amigo. Confesso que até hoje não estou completamente sossegado com relação a isso. Mas comecei o post comentando os passeios de carro com meu pai. Eu gostava muito da companhia, de sair de casa depois de um dia inteiro confinado resolvendo os deveres da escola. Um dia, porém, flagrei o velho comentando com minha irmã que era difícil andar de carro comigo como passageiro porque, num cruzamento, era complicado ele enxergar alguma coisa por cima de mim. Ele alegou que eu gostava do banco muito perto do para-brisas. Foi um baque que até hoje não superei. Ao necessitar ir de passageiro de alguém, sempre me pego questionando qual deve ser a minha postura ao lado do motorista.