Mirisola e Thiago de Mello

Já havia conversado com o Marcelo Mirisola em uma bienal, quando ele lançava seu primeiro livro. Várias obras depois eu o reencontro. Se não o reencontrei antes, para ser honesto, não foi por falta de chance. Quando Marcelo começou a escrever e foi elogiado pela crítica e descoberto pelos leitores, ele era mais agressivo, mais ácido. Pouco mais de uma década se passou, o escritor migrou para a Record e está mais seguro, mais pé no chão, diriam. E escrevendo melhor, julgo. Seu último romance, “Animais em extinção”, é muito bom, para dizer pouco. Ele não vai longe, ele já está longe. Depois o poeta Thiago de Mello, que ouço pela primeira vez, me pareceu uma pessoa encantada. Chegou no Theatro Pedro II já recitando uma poesia. Todo de branco, falou de seu amor pela floresta, de sua amizade mítica com Neruda. Tenho uma primeira edição de seu livro de 1955, “A lenda da rosa”, em muito bom estado e pedi para que ele a autografasse. Ele fez um longo “T” e lá embaixo, quase na raiz da letra, escreveu um “M”, um pouco tremido e me disse: agora você tem um livro que ninguém mais tem.

Tezza e Mutarelli

Ontem vi o Cristovão Tezza, com quem já havia falado em São Franciso Xavier, há poucas semanas. Gostei da palestra dele, bem lúcida. Comentou que um escritor iniciante deve escolher uma das três profissões: ator, publicitário ou professor. São as que trabalham, de certa maneira, e de acordo com o Tezza, com a criatividade e com a arte. Isso para um escritor que não se tornou ainda best seller e que precisa se manter e/ou manter uma família e/ou não quer morar mais com os pais.  Na sessão de autógrafos, um senhor comentou com o escritor catarinense que também lera um livro sobre mongolóides fantástico. Ecologicamente incorreto. Eu estava só com o “Filho eterno” e ouvi o Tezza dizer qualquer coisa sobre o título, que na França foi proibida a tradução literal e ficou como “Le fils du printemps” (O filho da primavera), título que também me agradou. Agora há pouco falei com o Lourenço Mutarelli, cuja obra me foi apresentada há anos pelo amigo Edgar Franco. É um sujeito bem bacana e fiz algo que não curto muito: dei um exemplar de Abismo poente pra ele. Do Mutarelli, famoso pelo “Cheiro do ralo”, eu li “Natimorto”, um livro e tanto. Como dizia, a obra da época em que ele era quadrinista, só conheço o que li na casa do Edgar, nas nossas férias.

Feira do Livro de Ribeirão Preto

Venho acompanhando a Feira do Livro em Ribeirão. Vou todos os dias.  Ontem vi o Moacyr Scliar, o Carlos Heitor Cony e o Márcio Souza. O Scliar falou sobre sua família, o pai imigrante, a mãe professora e como o livro era valorizado em sua casa: podia faltar comida, leitura não. Já a fala do Cony foi mais política, ele tentando explicar os motivos pelos quais recebe pensão do governo. Uma das razões: por ter perdido empregos em jornais quando fez críticas ao regime militar na década de 60. Contou a história das duas filhas, que por pouco não foram sequestradas por gente da marinha (elas tinham à época 9 e 12 anos e estudavam na mesma escola). Depois o Márcio e sua Amazônia. Defendeu o teatro, argumentou que hoje as pessoas não assistem mais a peças como faziam antigamente e que o melhor público atualmente é o de classes mais baixas. Explicou: a classe média fica entediada com peças longas (60 minutos é o máximo que suportam) e os mais pobres não, aguentam firmes um Shakespeare de três horas e que é preciso então trazer esse pessoal mais vezes ao teatro.

Avaliação da aprendizagem

É um dos assuntos que tem me tomado algumas horas esses dias. Quero escrever um artigo, então pesquiso em revistas americanas, europeias e brasileiras. De livros, uma das referências é o Luckesi. Outras: Pedro Demo, Jussara Hoffmann. Mas são leituras rápidas. Entre elas, termino o “Trocando em miúdos”, do Luiz Paulo Faccioli, cujos contos foram inspirados em músicas do Chico Buarque. Tem um miniconto bem bacana:


Mar e lua

Nasceram no mesmo ano. Os pais eram amigos, moravam na mesma quadra. Brincaram juntas, iam juntas ao colégio, ficaram mocinhas com diferença de dias. Às vezes também dormiam abraçadinhas. Coisa de adolescente, desculpavam as mães, um pouco desconfiadas de tanto grude.

Acabaram se apaixonando.

O amor tão urgente delas durou bem mais do que se previa. Anos depois, os pais se acostumaram.

Um belo dia elas resolveram casar e casaram. Com diferença de dias.