Vamos comer os cães

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Há muitos cães vadios que conclamam a preguiça pelas calçadas

E comemoram com outros animais o cio da vida

Há muitos cães desordeiros que devoram os excessos de nossos jantares honestos

Há muitos cães libidinosos que rasgam os sacos de supermercados empanzinados de lixos

Há cães estuprando nossos queridos animais de estimação

Há cães desabrigados que mijam nos pneus inocentes de nossos carros

Que evacuam tufos de merda e sangue em nossos graciosos jardins

Que ferroam a passividade preguiçosa de nossa mansidão

Há cães espalhando pelo asfalto o asco de nosso cotidiano

Há cães insolentes que perseguem os poodles perfumados das famílias honestas

Não há esterilização que resolva

Não há agulha e seringa que o poder público consiga adquirir em leilões fraudulentos

Há apenas reciclagens incestuosas de desculpas franqueadas

Não há chumbinho para tanta vingança

Há muitos cães desabrigados que certo dia tiveram a proteção de uma família honesta

É pena tanto cão para pouca morte

Vamos comer os cães, propôs o esfaimado na corte de respeitáveis

Há lombo, há pernil, há nacos de carne cujos nomes teremos de inventar

Há muitas panelas para ferver, cozinhar, fritar, assar, marinar, gratinar e há incontáveis cães por aí.

Há muitos cães boêmios que uivam o medo em nossos sonhos honestos

Esterilizemos e depois comamos os cães

É o mais justo nesse tempo de justiça

Vamos esterilizar e depois comer os cães

Em regime de votação:

Aqueles que forem a favor permaneçam como estão!

O privilégio dos mortos

tejuco me angustiava, helena, e eu só podia andar pela cidade, tentando ver se esbarrava com algum conhecido, eu queria escapulir daquele mormaço já entranhado em minha pele, o calor que deixava as ruas desertas, as casas com as janelas abertas, os ventiladores a dez mil giros ao segundo, as cortinas afugentando a poeira com suas barras compridas, os cachorros acuando o aparelho de som, que espalha, sem pudor, as últimas tendências do ano anterior, a saber, eu vou rifar meu coração, se as flores pudessem falar, você não me ensinou a te esquecer e outros hits de cabaré, os gatos lambendo o sono com olhares negligentes, a televisão muda arremessando, para um público itinerante, as caras padronizadas de apresentadores de telejornais,

(…)

eu gostava daquelas músicas que irradiavam da outra sala, numa constância surpreendente, se considerarmos a sisudez de seu pai, helena, e se levarmos em conta também que uma capa do The Cure não era o símbolo da decência que esperávamos encontrar em uma “casa de família”, mas bastava invocar a teoria das possibilidades para me tranquilizar, de forma que ali, enquanto eu abocanhava um biscoito, de maneira que ali, helena, enquanto ouvia Fear of Ghosts, eu senti algo como uma inquietação e aquela estante, a cristaleira com os copos, as taças, as jarras na mesma imobilidade de anos e as aranhas riscando os cantos com suas redes e o ruído das notas se esfregando nos dedos diligentes do comerciante e o forno assando roscas e uma mulher a esparramar roupas no tanque e uma mosca sobrevoando os sorrisos desgastados pela falta de assunto e eu já não podia mastigar, já minha garganta pareceu bloqueada por um incômodo e eu tossi e não conseguia mais nem aquela tolerância, que caracterizava minha timidez, e abandonei a comida no pequeno prato, sob o espanto de minha amiga e então precisei sair para qualquer outro lugar,

foi assim que me tornei adulto,

(Trecho do meu romance inédito “O privilégio dos mortos”. A foto foi retirada do endereço http://www.virusphoto.com/243852-la-maison-abandonnee.html)abandonada

Peter Pan lê Peter Pan

Um livro da Kiera Cass vende 400 mil exemplares no Brasil. Pedro Bandeira teve um milhão de livros negociados em determinado ano. Marcelo, Marmelo, Martelo, da Ruth Rocha conquistou muito mais de um milhão de leitores. Bom, estamos falando de uma luta que começa lá no final dos anos 1960. Estamos falando de literatura infanto-juvenil e de formação de leitores, certo? Nem vamos chegar a Harry Potter e companhia para não complicarmos o assunto. Beleza. Prestaram atenção no termo “formação de leitores”? Então, vamos tratar agora de autores de livros para adultos. O autor que mais vende hoje no Brasil talvez seja o Milton Hatoum: foram comercializados 200 mil exemplares dos livros de maior sucesso dele (e estou falando de 5 ou 6 obras). A premiada obra de Cristovão Tezza,  O filho eterno, vendeu 70 mil exemplares. Vamos fazer umas contas. Perderam-se, no meio do caminho, 930 mil leitores, entre Rocha e Tezza. Ou 330 mil leitores, entre Cass e Tezza. Porque, convenhamos, literatura infanto-juvenil é também, ou deveria ser, literatura de formação. É meio óbvio que os leitores de Pedro Bandeira avançassem, em algum momento, para Machado de Assis. Gastam-se bilhões esperando que isso aconteça. Editores entopem os bolsos de grana. O que acontecem com esses leitores? São eternos Peter Pans? A literatura infanto-juvenil só consegue criar leitores infanto-juvenis para o resto da vida?

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Cavala, de Sérgio Tavares

Infelizmente não tenho tempo para ler todos os livros do mundo. Ninguém tem. Felizmente, as obras que devem ser lidas não chegam a 2% do montante. Tento ser, como diz o senso comum, um “leitor voraz” e se um romance ou um volume de contos não me agrada logo nas dez primeiras páginas, eu o abandono sem remorso. Ontem saquei da estante uma obra que vale a pena ser lida. Abandonei por algumas horas o W. G. Sebald, sugerido por Ronaldo Cagiano, e me embrenhei pelas páginas de “cavala”, que venceu o prêmio Sesc de 2009. A narrativa que dá nome ao livro é uma pequena obra-prima. Fala de uma ex-modelo que sofre de uma variante agressiva de TOC. O modo como Sérgio Tavares relata as manias, as crises de depressão, a fixação pela ordem onde é impossível haver ordem, é algo fantástico. A narrativa persegue o caos (no bom sentido) que a personagem sente dentro de si. No segundo conto aparece novamente o mendigo do primeiro – só que, se neste a ex-modelo só consegue sentir repulsa, naquele a protagonista, uma ninfomaníaca, extrai prazer da decadência e da degradação. Acho esse expediente, de utilizar a mesma personagem em diversos contos, muito interessante. O destaque é para a forma de narrar, lírica e ao mesmo tempo fragmentária, urgente.

Importante mencionar também que os contos são narrados em primeira pessoa. Outro dia li um resenhista escrever um absurdo. Atestou ele que o romance que criticava era bom, porque estava escrito em terceira pessoa, o que significava que o autor fugia dessa onda de falar de si próprio. Puxa, duas aberrações: o sujeito disse que o livro já era bom porque a história vinha narrada em terceira pessoa. Depois, o pior: na opinião dele, narrar em primeira pessoa significa falar de si mesmo. A julgar pelo argumento do resenhista, Sérgio deve ser uma ex-modelo anoréxica. 

Em breve escreverei uns comentários sobre o novo livro de poesia de Osvaldo Rodrigues.

Roteiro da queda – Whisner Fraga

O sono está no encalço da madrugada
E meu relógio analógico/digital vacila em um paradoxo genético
Os ponteiros acenam cinco horas
O quartzo traceja meia-noite e quinze
A temperatura, em graus Celsius, defende um calor
Que não posso sentir
A lua, conforme aquele escravo eletrônico/mecânico
Escora em quarto minguante
Enquanto a bússola relincha um norte militante, autômato
O cronômetro, a tábua de marés, o calendário
Os demais imprevistos do maquinismo
Compunham um estorvo à minha lógica
E não me restituíam o tempo.

Era um choro, um chiar dissonante de microrganismos
Acossando os entrepostos, os fortes, as trincheiras,
Triturando com seu algoritmo de bestas
A vulnerabilidade plasmática de minha filha.
Era um choro meu também
Um mecanismo de três meses
Cedia à experiência de um enigma de bilhões de anos.

Que era um choro que era um grito que era uma exigência
Que era uma promessa de algo incerto e seu holocausto recém-nascido
Que era a minha dor injetada em sua careta de pânico
Que era um mundo pilhando um mundo
E jumentos de lítio cacarejam uma hora irônica e falsa
Monstros de química martelam a próxima verdade:
Que a natureza é acaso
E ninguém pode pressupor o minuto que ainda não aconteceu.

arte

Tanussi Cardoso

Mês passado, quando estive no Rio, ganhei o livro “50 poemas escolhidos pelo autor”, de Tanussi Cardoso. Eu aprecio antologias, principalmente estas, cujos versos são selecionados pelo próprio poeta. Sou fã de Tanussi há muitos anos, acho-o um escritor de primeira e ontem quis começar o ano lendo algo de qualidade.

Diário

(Tanussi Cardoso)

É silêncio e teu ombro pesa.

Todos os teus murmúrios são inúteis
-mesmo a tua ida ao teatro.

Teu corpo
pregado numa cruz imaginária
foge de ti
e te acusa da febre que incendeia o quarto.
Os papéis sobre a mesa do trabalho
contam histórias tristes
e as borboletas nos lagos gelados têm mais vida.

É tudo simples: praias, serras, estradas,
carros, engarrafamentos, shoppings, sonhos:
a palavra é simples: a morte é simples:
as luzes dos altares nada queimam:
nos mármores das estátuas
quebramos nossos espelhos.

E tudo teima em te acusar: teu sexo estúpido,
teus amigos imortais, o amor que não consola,
a família nos retratos,
a faca suja na manteiga
que sangra o pão do dia.
Olhas da janela os pombos mirando os milhos;
olhas o namoro nos fios;
enganas teu rosto com tua paz suspeita.

Teu peito te trai. Teu poema te trai. Teu país te trai.
O olho enrugado te trai.
Teu jornal te faz de tolo.
Tuas guerras santas são falsas.
Teu cão te ladra.
Teu gato te arranha.

O sol entra em tua cama
e te cospe no rosto
o ofício de outra manhã
a cumprir.

É silêncio e teu ombro pesa.

Os números de 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

600 pessoas chegaram ao topo do Monte Everest em 2012. Este blog tem cerca de 6.400 visualizações em 2012. Se cada pessoa que chegou ao topo do Monte Everest visitasse este blog, levaria 11 anos para ter este tanto de visitação.

Clique aqui para ver o relatório completo

Mensagem de fim de ano

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“Abajo había, pues, un pueblo, y él era su alcalde y acaso llamaba desde el porvenir un incierto destino. Mañana, ayer. Las palabras estaban granadas de años, de siglos. El anciano Chauqui contó un día algo que también le contaron. Antes todo era comunidad. No había haciendas por un lado y comunidades acorraladas por otro. Pero llegaron unos foráneos que anularon el régimen de comunidad y comenzaron a partir la tierra en pedazos y a apropiarse de esos pedazos. Los indios tenían que trabajar para los nuevos dueños. Entonces los pobres -porque así comenzó a haber pobres en este mundo- preguntaban: «¿Qué de malo había en la comunidad?» Nadie les contestaba o por toda respuesta les obligaban a trabajar hasta reventarlos. Los pocos indios cuya tierra no había sido arrebatada aún, acordaron continuar con su régimen de comunidad, porque el trabajo no debe ser para que nadie muera ni padezca sino para dar el bienestar y la alegría. Ese era, pues, el origen de las comunidades y, por lo tanto, el de la suya. El viejo Chauqui había dicho además: «Cada día, pa pena del indio, hay menos comunidades. Yo he visto desaparecer a muchas arrebatadas por los gamonales. Se justifican con la ley y el derecho. ¡La ley!; ¡el derecho! ¿Qué sabemos de eso? Cuando un hacendao habla de derecho es que algo está torcido y si existe ley, es sólo la que sirve pa fregarnos. Ojalá que a ninguno de los hacendaos que hay por los linderos de Rumi se le ocurra sacar la ley. ¡Comuneros, témanle más que a la peste!» Chauqui era ya tierra y apenas recuerdo, pero sus dichos vivían en el tiempo. Si Rumi resistía y la ley le había propinado solamente unos cuantos ramalazos, otras comunidades vecinas» desaparecieron. Cuando los comuneros caminaban por las alturas, los mayores solían confiar a los menores: «Ahí, por esas laderas -señalaban un punto en la fragosa inmensidad de los Andes-, estuvo la comunidá tal y ahora es la hacienda cual» Entonces blasfemaban un poco y amaban celosamente su tierra.”

(Trecho de “El mundo es ancho y ajeno”, de Ciro Alegría).

 

“Abaixo havia, pois, um povoado, e ele era o seu alcaide e talvez o chamasse no futuro um destino incerto. O velho Chauqui contou um dia algo que também lhe contaram. Antes tudo era comunidade. Não havia fazendas de um lado e comunidades fechadas de outro. porém chegaram uns estranhos que anularam o regime de comunidade e começaram a dividir a terra em pedaços. Os índios tinham que trabalhar para os novos donos. Então os pobres – porque assim começou a haver pobres neste mundo – perguntavam: “Que mal havia na comunidade?” Ninguém lhes dava resposta ou como resposta os obrigavam a trabalhar até se arrebentarem. Os poucos índios cuja terra não tinha sido ainda arrebatada, resolveram continuar com o seu regime de comunidade porque o trabalho não deve ser motivo para que se morra e sofra, mas para proporcionar o bem-estar e a alegria. Essa era, pois, a origem das comunidades e por conseguinte, da sua. O velho Chauqui tinha dito mais: “Cada dia, para o sofrimento dos índios, há menos comunidades. Eu vi desaparecer muitas arrebatadas pelos poderosos. Eles se justificam com a lei e o direito. A lei! o direito! Que sabemos sobre isso? Quando um estancieiro tem o direito é que algo está errado e se existe lei é só a que serve para nos molestar. Queira Deus não ocorra a nenhum dos fazendeiros que se limitam com Rumi a invocar a lei. Comuneiros, temam-na mais do que a peste!” Chauqui era já terra e apenas lembrança, porém os ditos viviam no tempo. Se Rumi resistia e a lei lhe tinha dado somente algumas lambadas, outras comunidades vizinhas tinham desaparecido. Quando os comuneiros subiam às alturas, os maiores costumavam confiar aos menores: “Aí por essas ladeiras – designavam um ponto na áspera imensidade dos Andes – esteve a comunidade tal e agora é a fazenda tal”. Então blasfemavam um pouco e amavam ciumentamente a terra.”

 

(Tradução do trecho feita por Olga Savary)

Encurralada

Agora não sei o caminho. Isso é ruim. Durante semanas construí um texto, que acredito até que seja bom, forte. Agora não sei pra onde ir, o que fazer com a história, como terminar, como matar a personagem. Não sei escolher as palavras, elas fogem, resistem. Às vezes é ruim não saber de mais nada. Mas só às vezes.