Profissões pouco rentáveis – primeira parte

A razão e a loucura, de Raphaelle Zecchiero

– Manobrista de cortador de grama;

– Professor titular de assovio;

– Técnico de um time de futebol de botão;

– Leitor de obras por escrever;

– Treinador de pulo de gato;

– Leiloeiro de objetos sem valor.

A lei e o serviço de inteligência

Há a necessidade de tantas vagas preferenciais?

Já escrevi aqui que sou a favor de vagas preferenciais em estacionamentos, para idosos, portadores de necessidades especiais, grávidas e assim por diante. Mas, acredito que, no anseio de angariar votos, nossos políticos não realizam pesquisas quantitativas ao, ou antes de, aprovar suas leis. Será que o número de portadores de necessidades (deficiência física, conforme a lei) somado ao de idosos somado ao de grávidas, que têm automóveis e que frequentam supermercados, cinemas, teatros, shopping etc., seria em tal quantidade que necessitam de tantas vagas preferenciais assim? Talvez. Na prática não é o que testemunho – nos supermercados que frequento, sempre há vagas sobrando para idosos e deficientes físicos (não há vagas específicas para grávidas, uma pena), mas nunca há vagas não-preferenciais. Ou seja, muitas vezes dou uma volta pelo estacionamento de um destes estabelecimentos e volto para casa, porque não tenho onde deixar o carro. Até aí tudo bem. Mas quando vou ao correio, que não é muito perto aqui de casa, senão iria a pé mesmo, sinto-me um pouco idiota. Isso porque o referido comércio tem somente três vagas e a lei prevê pelo menos uma vaga para portadores de deficiência física e uma vaga para idosos. Ora, sobra uma vaga para os demais cidadãos. Daí que, toda vez que preciso postar uma carta, não encontro um local para estacionar o carro ali pelas redondezas, o que significa que tenho de dar uma volta enorme para, em dias de sorte, parar a uns 3 quarteirões dali. Essa vaga para o resto da população que não é portadora de deficiência física nem idosa esteve ocupada em 5 vezes das 5 vezes que precisei enviar alguma correspondência. Das mesmas 5 vezes, as duas outras vagas, preferenciais, estavam vazias. Coincidência?

Pesquisas

Como parte da comemoração do aniversário de 90 anos, a Folha disponibilizou o seu acervo digitalizado, desde 1921. Todos os jornais deviam seguir este exemplo. Certa vez, em conversa com o escritor Duílio Gomes, ele me contou como foi penoso o processo de pesquisa para escrever seu conto “Todos os insetos”, do livro “Verde suicida”. “Hoje, acrescentou, as coisas ficaram muito mais fáceis.” Realmente, se não encontramos o material de que precisamos na Internet, é possível achar, sem maiores traumas, um bom livro, em algum sebo, sem nos levantarmos da cadeira. Se dominamos o inglês, nosso trabalho fica ainda mais fácil. Então, se temos a chance de pesquisar algum jornal do passado, temos a oportunidade de ler a notícia ainda fresca, interpretada sob o calor do momento. Assim, quando quis saber sobre a Operação Litani, que será abordada em meu novo livro, Sol entre noites, comprei várias obras sobre o assunto. Um que achei bem completo foi “Pity the nation – The abduction of Lebanon”, um calhamaço de setecentas páginas que pretende interpretar a história libanesa, levando em conta a influência da Síria, de Israel e de outras nações. Entretanto, trata-se de um livro publicado em 1990 e, mesmo seu autor, Robert Fisk, tendo visitado o sul do Líbano em março de 1978, pareceu-me que a influência do tempo sobre seu ponto de vista foi um pouco nociva. Ao passar a limpo, treze anos depois, sua aventura em Damour, Fisk cometeu o erro de ser influenciado e de ser um cidadão dos anos 1990 interpretando um fato do passado. Quando pesquisei os exemplares da Folha de 16, 17, 18, 19 e 20 de março de 1978, fiquei feliz ao constatar que Robert Fisk foi preciso em sua descrição dos fatos, mas tendencioso ao analisá-los. Assim, ganhei um importante aliado para a minha pesquisa: o olhar de 1978 sobre 1978.

Foto e filme

Homem lança cadáver de criança em Porto Príncipe.

 

Ontem fomos ver “Biutiful”, magnífico. Todos já devem ter lido a respeito por aí, então não há muito o que falar da trama. Não penso que seja uma história triste, porque a realidade é, antes de tudo, forte, sombria e miserável. Quero comentar sobre o final do filme, porque foi o que me inquietou: Ige, a babá dos filhos de Uxbal, na minha opinião, foge com o dinheiro que o moribundo juntou durante anos para garantir o futuro das crianças. E a minha interpretação tem sua lógica: ela desaparece com a bolada, porque as pessoas são assim mesmo, egoístas, e ela precisava daquelas notas tanto quanto qualquer um. Indivíduos em um fórum de discussão no IMDb argumentam que não, que o filme seria soturno demais, que ela voltou para terminar sua função de guardiã dos meninos, blá blá blá. Mas é opinião de americanos e eles só gostam de narrativas com finais felizes e/ou esperançosos – não conta, portanto.

Anteontem saiu a lista dos vencedores do 54º Prêmio World Press de Fotografia e duas fotos me surpreenderam. Uma retrata o salto de um suicida em Budapeste e a outra, que achei mais contundente, mostra um homem lançando o corpo de uma criança em cima de uma pilha de cadáveres, em Porto Príncipe, no dia 15 de janeiro de 2010. A imagem mostra antes o descaso do mundo em relação ao sofrimento alheio e sugere, pelo menos para mim, já que foi feita por um europeu, o francês Olivier Laban-Matter, que a vida não tem mais valor nem sentido na sociedade de hoje, já que o desrespeito pelos mortos é um sintoma de que a vida não merece mais a nossa consideração. O sujeito que joga aquele corpo não tem culpa e aparentemente nem outra opção, já que o terremoto devastou a cidade, deixando milhares de mortos sem uma vala para ser enterrados. Parece-me mais ou menos justa esta análise, por isso me volto para o descaso do resto do mundo. E o fotógrafo, da mesma maneira, está ali para capturar uma cena que lhe dê algum prêmio e prestígio e não para ajudar a amenizar o sofrimento dos haitianos, o que pode ser paradoxal, pois, ao congelar aquele momento por meio da lente de sua máquina, cumpre também o papel de alertar a humanidade para a sua parcela de responsabilidade no drama de outros.

Formatura

Eu e minha aluna Daniela, que vai para a Unicamp cursar o mestrado.

 

Ontem fui paraninfo de uma turma de formandos. Fiz um discurso sobre a amizade, algo no estilo de John Lennon, paz e amor. Pensei que, como estavam se formando em Mecânica, não precisariam, pelo menos naquele momento, ouvir sobre máquinas ou sobre a importância de estudar sempre ou algum tema similar, tão batido em cerimônias de formatura. Então falei da amizade, que seria mais tranquilo viver nesta sociedade danada se todos se vissem como amigos, uma coisa ingênua do tipo, mas na qual acredito honestamente. Acrescentei que professor e aluno devem ser amigos, porque a amizade acontece entre iguais, entre pessoas que se respeitam e a construção do conhecimento em grupo só pode acontecer se houver estes pré-requisitos. Fiquei muito feliz e emocionado com a homenagem.

Ainda geração

Geração Y

No prefácio da vigésima-sexta edição de “Raízes do Brasil”, Antonio Candido defende:

A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair em autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais de sua época. Então, registrar o passado não é falar de si; é falar dos que participaram de uma certa ordem de interesses e de visão do mundo, no momento particular do tempo que se deseja evocar.

Esta parece ser a ideia de geração difundida e defendida hoje pelos teóricos no Brasil. Ora, está claro, segundo Antonio Candido, que, para caracterizar uma geração, há a necessidade de existir o distanciamento temporal. Hoje, seguindo este raciocínio, talvez fosse possível discutir a Geração 1960 ou talvez a Geração 1970, mas jamais a Geração 1980, muito recente ainda. Evidente está também, de acordo com o catedrático, que as características individuais devem dar lugar ao conjunto, ao todo. Em uma geração literária talvez isso corresponda a esquecer os estilos e a considerar que Luiz Vilela e Sérgio Sant’Anna escrevem de maneira muito parecida. Ou mesmo argumentar que os temas escolhidos pelos dois é o mesmo. Nenhuma das duas hipóteses é verdadeira, como qualquer leitor de literatura brasileira pode comprovar. Assim, a Geração 1960, a que os dois pertencem, passa a ser exatamente o que é a Geração zero zero: um retrato de seu tempo. Talvez ambos se “dissolvam nas características gerais de sua época” simplesmente porque o tema geral, com o qual certamente se ocuparam em algum instante de suas obras, era o mesmo. E era o mesmo porque ambos começaram a escrever na mesma época. Mas, ainda podemos considerá-los Geração 1960, uma vez que continuam a produzir obras cada vez mais díspares com o que foi a suposta concepção de 1960? Está claro para mim o que ocorre. Quando Nelson de Oliveira resolveu, pouco depois de finda uma década, produzir um retrato da década, levando em conta principalmente o  fato de autores produzirem seus primeiros livros em uma mesma época, ele antecipou um trabalho que era para ser feito por teóricos daqui a 80 ou 90 anos. E isso gera ciúmes.

Bentancur

Paulo Bentancur

Ficcionista é sanguessuga de poesia. Está tudo ali nos versos, é só copiar, adaptar. Há muito que vinha querendo postar algo sobre o Paulo Bentancur, mas adiava. Agora, pouco antes da minha fisioterapia, resolvi digitar aqui a abertura do livro “Bodas de osso” (título maravilhoso, aliás). Quem quiser conhecer um pouco mais do Paulo, basta dar um click até o site dele. Em tempo: Bentancur escreveu o texto para as orelhas do meu “Livro da carne” e ficou um troço muito bonito. Metáfora, meu caro Watson, metáfora.

 

Outra infância


(Paulo Bentancur)

 

Meu pai e sua inveja olhavam os cavalos do patrão.

Minha mãe, debruçada na panelinha,

cozinhava a ansiedade de minha irmã faminta.

Eu sozinho, menino entre adultos

ilhados como Robinson Crusoé

numa história interminável.

No meio-dia escuro as sombras de uma voz

que nos sobrevoou com o pesado orgulho dos feridos

confessavam que não tinha almoço.

Crescido, ainda dormia no berço

apertado como um feto

sem o consolo da idade.

Eu já sabia que aventura

é coisa de livro, não entra em casa.