Sítio politicamente correto

Se este produto fosse vendido hoje, o menino negro teria de ser substituído por um branco e com todos os dentes. Mas o doce não sobreviveria, é politicamente incorreto. Então o cigarro desapareceria da mão da criança branca e seria transformado em um apito. Um apito de chocolate. Detalhe: cresci comendo os tais cigarrinhos e nunca senti vontade de fumar. E ainda tenho todos os dentes, apesar de tudo.

Ontem eu li que está sendo produzido um desenho do Sítio do Pica-pau amarelo. Parece que vai ser uma série, algo assim. O negócio que me deixou apreensivo, talvez até chateado, é que vão transformar a obra do pobre do Lobato. Depois da polêmica do ano passado, quando cortaram um livro do sujeito, porque tinha conotações racistas, agora mais essa. Vão acabar com o pó de pirlimpimpim. Pra não parecer outro pó. Se inicialmente as personagens do Sítio cheiravam o danado, depois passaram a borrifá-lo nas pessoas e agora ele desaparece. Vai se tornar um mantra. E estão propensos a sumir com a Tia Nastácia. Julgam que estes maus exemplos não contribuiriam para a educação decente das crianças.

Mas essas atitudes não são exclusivas do mercado brasileiro. A brincadeira tem filiais pelo mundo inteiro. Há alguns anos li uma notícia que iriam mudar a Bíblia, Deus passaria a ser homem e mulher. Quando fosse citado, a nova impressão traria assim: Naqueles dias Ele/Ela disse… Alguns radicais queriam trocar Ele por Ela e ponto final. Deus deveria ser feminino. Bom, nos cursos de Letras, era uma discussão linguística resolvida há até poucos anos.

Todos os grandes escritores do mundo já foram retocados, se não pela hipocrisia do politicamente correto, pelas armadilhas da imprensa. Será que não existe uma maneira de preservar a obra? Porque o autor passa. Não é injusto atentar desta maneira contra a arte de um morto?

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Van Eyck e Botero

Botero revisitou vários dos mestres que conheceu quando estudou na Europa. O resultado é sempre magnífico, como o paralelo que fez da tela de Jan Van Eyck, “O casal Arnolfini” ou “O retrato dos Arnolfini”. O quadro de Fernando Botero foi intitulado “O casamento dos Arnolfini (segundo van Eyck)” e acaba doando à cena uma leveza e uma vivacidade que o original não possuía. Já pensei em fazer isso na literatura – escolher um conto de um mestre e transformá-lo segundo meu estilo, mantendo os ingredientes principais. Ainda não trabalhei nisso, mas é um projeto.

O casal Arnolfini, Jan Van Eyck

Fernando Botero, O casamento de Arnolfini (segundo van Eyck)

Diálogo

Uma boa conversa

“Pô, cara, olha só, quanto tempo!”

“Pois é.”

“E aí, tudo certo?”

“Tudo.”

“E aí, você escreve ainda?”

“Ainda…”

“Nossa, legal.”

“Legal.”

“Já publicou algum livro?”

“Já sim.”

“Ah, é? Nossa, show. Sobre o quê que é?”

“São contos.”

“Ah, bacana. Mas você não tinha feito engenharia?”

“Fiz sim.”

“Nossa, legal.”

“É.”

“Ou, se você tiver algum livro seu aí, me passa pra mim ler.”

“Ah, claro, pode deixar.”

“Emprestado só, depois eu te devolvo.”

“Claro, claro. E você, o que tem feito?”

“Ah, tô aí na lida. Uma coisa aqui, outra ali.”

“Legal.”

“Olha, mas que bom ter um amigo famoso.”

“Quem?”

“Você, ué.”

“Ah, não, nunca fui famoso não. Nem minha família lê meus livros.”

“Hahahaha. Nossa, você é louco mesmo.”

“Por quê?”

“Engenheiro e escritor.”

“Ah, é.”

“Então tá, vou nessa. A mulher tá me esperando. Passa lá em casa depois pra gente tomar uma.”

“Ah, beleza, passo sim.”

“Você vai embora que dia?”

“Amanhã, eu acho.”

“Ah, então ainda dá tempo.”

“Dá sim.”

“Então tá. Valeu, até mais.”

“Até.”

 

Senso comum

Aqui! Aqui!

Como sempre gostei de equações matemáticas, que representassem algum fenômeno físico e como não havia conseguido me adaptar ao mercado, fui cursar o doutorado. Não por falta de opção, pois desde a adolescência eu sabia que jamais pararia de estudar. Discutia muito com um estudante de Física, tentando encontrar o significado de cada passo da resolução de uma equação diferencial. O que me alegrava nesse tempo era essa busca, queria entender os fenômenos que aquelas variáveis queriam representar. Não deixava de lado a literatura e nem a encarava como hobby – tinha o horário de leitura, de escrita, era tudo mais ou menos dividido. Mais ou menos, porque nunca fui organizado. Bom, o que estou tentando explicar é que a engenharia tem uma influência razoável sobre minha obra e por isso muitas pessoas não conseguem entender o que escrevo, porque não têm os pré-requisitos necessários e não se esforçam para tê-los. Não querem desafio. Outro dia, li uma resenha muito suspeita de uma professora universitária sobre um livro interessante. Ela argumenta que, ao escrever, o autor não pode se esquecer do leitor. Hum… Tenho sérias dúvidas a respeito dessa afirmação. É própria de alguém preso aos dogmas seculares da profissão. Ora, se se cria algo para seu leitor, você submete a arte ao critério de pessoas, do mercado, que estão submetidos aos preconceitos e limites de seu tempo. E daí se alguém pretende criar um romance ininteligível? Por um acaso não há um paralelo na pintura, com a abstração? Alguém consegue compreender uma pintura abstrata? E no entanto um Pollock não deixa de dar prazer nem deixa de ser belo. Meu livro “Abismo poente” e este novo, “Sol entre noites”, não chegam a ser ininteligíveis. De forma alguma. Só exigem do leitor uma paciência e uma atenção muito maior do que aquela necessária para ler um best seller. Só isso.

Conhecendo livro citado anteriormente, posso afirmar que não houve esforço por parte da resenhista, que fez uma leitura superficial e rápida. Claro, não podia ser diferente, pois um jornal paga, quando paga, 200, 300 reais, no máximo, por resenha. As humanas, como ciência, estão muito atrasadas em relação às exatas. Escrevo isso com conhecimento de causa, fiz cursos nas duas áreas. A linguística nem pensava em nos dar o ar da graça e Newton já fazia horrores com a Matemática e com a Física. E não pensem que Einstein é fácil de ser compreendido. Não é mesmo. O que dizem sobre sua teoria nos botecos, é senso comum, é Einstein mastigado, simplificado, deturpado e vomitado dois milhões de vezes. A Mecânica Quântica é complexa, mas para ser compreendida, os pesquisadores se debruçam sobre ela, leem com atenção, dispensam seu tempo a compreender o que Einstein queria dizer, a experimentar. A literatura devia ir pelo mesmo caminho, é a única forma de combater a mediocridade.

Comecei falando de equações, não? Então, hoje eu busco justamente o contrário, vejo os fenômenos, enxergo o mundo com o filtro da minha história e tento transformá-lo em texto. É assim que estou construindo a minha obra: encarando as palavras como variáveis e as frases como equações. Ao escrever assim , honestamente, só penso em mim. Nivelo os futuros e eventuais leitores com o prumo da minha própria interpretação – se eu consigo compreender o que escrevo, qualquer um também conseguirá, com mais ou menos esforço. Não acreditar na existência de leitores competentes, que conseguirão digerir o que se escreve, é o mesmo que subestimá-los e subestimar é desrespeitar.