Confissão

Engenheiros

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Eu devia retomar a engenharia e procurar enriquecer de uma vez por todas. Assim, numa terça à tarde, eu iria ao shopping carregar dois ou três carrinhos com novidades do capitalismo: televisores LDC, LED, iPhones, Blue Ray e talvez uma trinca de camisas de grife. Só não sei de qual grife nem qual a diferença entre uma e outra marca, mas descobrirei, porque serei rico e pedirei à vendedora que me explique o porquê de tudo. Depois, caminhando rumo ao carro, pararei em uma ou outra loja para comprar alguma coisa, algo de que não necessite e que ficará esquecido num canto da casa construído especialmente para as compras desnecessárias ou desprezadas. Chegando em casa, conectarei o iPhone ao Notebook caríssimo, que me levará a um mundo entendiante e chique, do qual começarei a sentir uma necessidade cada dia maior, até que, dentro de uma ou duas horas eu me decida por outro vício. Trocarei de carro toda quinta-feira pela manhã – uma Ferrari por um Jaguar, um Porsche por um Lamborghini, até que tenha experimentado todas as potências resmungando sob todos os capôs da Terra. Aí, pondero que tenho vergonha de vestir camisas de grife ou que custem mais do que minha consciência me deixa pagar. E que não preciso de celular porque eu não atendo telefones. E que o Chabrol fica muito melhor na indefinição da nossa antiquada 32 polegadas aliada ao vídeo-cassete de quatro cabeças. Em carros, busco poucas coisas: que não quebre e que tenha uma certa segurança, porque viajo muito. E que adoro transporte público, quando funciona. Mas talvez haja uma razão para me tornar milionário: os bichos. Faria como o escritor colombiano Fernando Vallejo e toda sexta-feira à noite doaria minha fortuna da semana para manter os animais longe deste matadouro gigantesco que habitamos. Só alguns detalhes me separam da burguesia: a minha inaptidão para o comércio, essa incompetência para o negócio, a náusea, o tédio, o pudor.

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3 comentários sobre “Confissão

  1. A busca resulta na necessidade de procurar respostas, formas que nos auxiliam frente à algo que incomoda ou requer cuidados.
    Pelo texto meu querido Whisner voce esta cada dia melhor, como sempre…foge as regras..buscando, conquistando, vencendo, transpassando, reiventando a vida.
    Parabéns!

  2. Eu penso e sinto assim também, mas como é bom usar a tecnologia para ver um filho, um parente e um amigo distante na tela do computador. As maravilhas dessas tecnologias são uma tentação a assaltar nossos bolsos e matar a prioridade de uma reforma na casa. Ah! estou mirando numa televisão de LCD, mas minha consciência está proibindo essa compra não sei até quando resistirei. Parabéns por abordar um assunto pertinente aos dias atuais.

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