The passenger

Supermercado

Supermercado

Algumas vezes meu pai me chamava para passear de carro, aquelas coisas de cidade do interior: dar uma passada na padaria ou na mercearia. Aliás, era engraçado, fazíamos compras do mês. Íamos ao supermercado e enchíamos dois, três carrinhos, com uma infinidade de produtos, três sacos de sabão em pó, dois sacos de arroz de cinco quilos cada um e assim por diante. Passávamos duas horas ou mais entre os corredores, com uma lista que jamais obedecíamos e uma calculadora para nos provar que nossa família não era lá muito bem de vida. Depois, em casa, confrontávamos a lista que a moça do caixa nos dava com os produtos que transbordavam de sacos e sacos de papel. É, naquela época os saquinhos de supermercado ainda não eram de plástico. Então o supermercado servia para as compras do mês e as mercearias para as emergências. Os supermercados, na realidade, não eram tão super assim, tinham lá seus cinco corredores, no máximo, e pertenciam geralmente a um ex-dono de boteco. Lá a gente tinha de pagar no cheque (não tinha esse negócio de cartão de crédito e tal) e geralmente não nos era permitido parcelar o valor. Na mercearia a coisa era mais informal, tudo podia ser anotado na caderneta, ou seja, não era necessário ter dinheiro para sair de lá com um litro de óleo ou com uma caixa de bombom. O porém era o preço, claro. Alguém tinha de lucrar com essa história. Eu me ressentia muito com o fato de termos uma caderneta na mercearia do Seu Zé e não na do pai do meu melhor amigo. Confesso que até hoje não estou completamente sossegado com relação a isso. Mas comecei o post comentando os passeios de carro com meu pai. Eu gostava muito da companhia, de sair de casa depois de um dia inteiro confinado resolvendo os deveres da escola. Um dia, porém, flagrei o velho comentando com minha irmã que era difícil andar de carro comigo como passageiro porque, num cruzamento, era complicado ele enxergar alguma coisa por cima de mim. Ele alegou que eu gostava do banco muito perto do para-brisas. Foi um baque que até hoje não superei. Ao necessitar ir de passageiro de alguém, sempre me pego questionando qual deve ser a minha postura ao lado do motorista.

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