Evolução

O próprio título deste post pode ser pensado como uma crítica ou como um convite ao estudo de alguns livros de Richard Dawkins, também. Mas meu objetivo é um pouco mais humilde, embora, de maneira alguma, queria fazer qualquer tipo de crítica ao que quer que seja. É somente uma reflexão. Sei que não adianta, mesmo com argumentos, tentar mudar a opinião da maior parte das pessoas, no que diz respeito à religião. Quem é religioso continuará a ser religioso e a respeitar seus dogmas, apesar de qualquer prova e quem é ateu, assim seguirá sua vida, no ateísmo.

O interessante é que sempre ouço falar que a igreja não pode mudar suas posições com o passar do tempo e aqui me refiro à igreja católica. Que as leis foram criadas por Deus e que não dependem da época. Só que, se formos pensar direitinho, a religião parece ter superado a escravidão (ficando apenas neste exemplo). Pelo menos não encontramos mais padres professando que é bom que se tenha um escravo no quintal de casa, para ajudar no trabalho. Se não me engano, de vez em quando a igreja até se embrenha em alguma campanha contra a escravidão nos dias atuais (que existe, lógico). Então, por acaso, estava lendo um trecho do Êxodo, que defendia que não devemos cobiçar a mulher do próximo, nem os escravos do próximo. Ora, se a igreja não concorda mais com escravos, só resta dizer que a palavra de Deus foi superada, já que se acredita que a Bíblia foi escrita por homens, inspirados por Deus.

Assim, acompanhei outro dia que o Santo Padre condenou a união Gay, utilizando o mesmo texto sagrado para sustentar seu julgamento. Claro que os homossexuais estão se lixando para o que o Papa professa, mas eu acho que é questão de tempo para a igreja rever seu posicionamento radical (há pouco reviu algo sobre a camisinha, alguém se lembra?). Não serei tão radical quanto Christopher Hitchens, mas estou certo que em alguns anos outros “furos” do livro cairão por terra.

Download do conto “doze”

Quem quiser ler o meu conto publicado na revista “e”, é só fazer o download do arquivo abaixo. A minha amiga Cíntia escaneou as três páginas da revista e inseriu em um arquivo pdf. Boa leitura!

Doze

Revista e, do SESC

Meu conto “doze”, uma nova versão da narrativa “xii”, foi publicado na revista “e”, que é distribuída gratuitamente em qualquer unidade do SESC no estado de São Paulo.

Desenho de Marcos Garuti para o conto.

Comentário

O seu denso “Sol entre noites”, cuja atraente capa negra, fendida pelo sol, antecipa a estranheza da linguagem, que desafia o leitor a decifrá-la. Linguagem erudita, densa, quase cabalística que, labirínticamente, vai desentranhando a problemática central do romance: o doloroso processo existencial do homem, que, arrancado de suas raízes, vê-se transplantado para um novo solo e aos poucos vai  perdendo a própria identidade. Faço votos de que os leitores aceitem o desafio da leitura e descubram o doloroso mundo visto através de “olhares emigrantes”.

(Nelly Novaes Coelho, 30 de janeiro de 2012)

Nelly Novaes Coelho

Autran Dourado

Demorei a voltar aqui. Estava muito enrolado com alguns textos encomendados. Hoje recebi uma mensagem do meu amigo Ronaldo Cagiano. Era para eu ler uma entrevista do Autran Dourado, dada à Folha de SP faz alguns anos. É, realmente, muito boa. Eis um trecho que achei fantástico:

Folha – A erudição é necessária ao escritor?

Dourado – A erudição é acidental, embora seja uma coisa que se busque. Quando o autor está começando a escrever, não pode pensar em ninguém. Nem em outros autores nem em seu público, porque sequer consegue saber quem é seu público. O escritor é aquele solitário. Eu não sei qual é meu leitor e não me submeto à posição de procurá-lo.

É por isso que vejo com certo escândalo o que está acontecendo no Brasil: pessoas jovens que se iniciam na literatura e querem logo vender livro. Têm vocação de best-seller. São fabricantes de livro, e o livro que você vê não resultou de nenhum esforço maior, não correu nenhum sangue por ele. Isso não é ser escritor. Vender livro é um acidente na vida de um escritor.

Caso alguém se interesse, a entrevista completa está aqui.

Concordo com ele que a venda é um acidente necessário, assim como o reconhecimento. Mais feliz ainda é aquele escritor que se contenta com seu próprio esforço. Algo como a satisfação de ter feito um bom trabalho. Mas andei pensando que essa história de reconhecimento depois da morte não vale nada. Alguém por acaso considera, de verdade, que Machado de Assis ou Clarice Lispector ou Guimarães Rosa estão lucrando com o sucesso, em pleno 2012, com traduções mundo afora?

Crimes literários

Lendo a resenha sobre o novo livro do Jô Soares, publicada ontem, na Folha de SP, comecei a pensar que a crítica nacional não tem coerência. O autor do texto desce a lenha no livro do Gordo, porque a obra aparentemente é muito didática. Bom, um dia, num sebo, li as páginas iniciais de “Xangô de Baker Street” e decidi que aquilo não era para mim. Mas acho que o Jô está no caminho certo – ele se preocupa com as vendas de seus livros, logo deve se preocupar com seus leitores e seus leitores são, na melhor das hipóteses, aqueles que veem seu programa. Ou seja: a classe média que acredita que, ao ler Jô Soares, está por dentro da literatura contemporânea brasileira. Daí que ele precisa do didatismo, senão não vende mesmo. Deve mastigar as citações para o leitor, que não faz muita ideia do que representa o rio Estige para a mitologia ou da importância de Caronte para aqueles que morrem. E nem querem se dar ao trabalho de pesquisar. É assim que se vende meio milhão de livros. Por outro lado, já li texto deste mesmo resenhista e de outros mais ou menos importantes do que ele, reclamando de livros herméticos demais, quase ininteligíveis. É aí que entra, talvez, para estes resenhistas, uma obra de uma Isabel Allende, que nunca chegará a Roberto Bolaño, mas também não faz feio frente a um Antonio Skármeta. E não fere o ego de ninguém.

 

Cotidiano

Ontem fui assistir ao Dexter antes de dormir. Bom, muito bom. Antes vi os dois episódios de Two and a Half Men sem o Charlie. O primeiro foi meio sem graça – ficar fazendo piada em velório é sempre uma questão de mau gosto. Ainda mais quando a gente vê um negócio muito inverossímil: mulheres falando sobre a vida sexual numa ocasião dessas. O Kutcher manda mais ou menos, é muito narcisista. Quem salva a série é o Jon Cryer. O segundo episódio é bem mais engraçado, o roteiro mais redondinho. O bilionário da internet começa a pegar o jeito, então acho que a série se salvará. Ainda mais porque até agora a nova temporada foi um sucesso de público. Mas tenho dúvidas reais se continuará assim. De qualquer maneira, o programa do Charlie Sheen também está batendo recordes de audiência. Então, era uma da manhã e os gatos já estavam meio chatinhos, porque queriam dormir e a televisão fazia barulho. Mas eu estava meio sem sono e fui acabar de reler o “Divórcio em Buda”. Engraçado que quando eu leio esse título sempre me lembro de Buda, o filho do rei Sudodana. Mas não, Buda é a cidade mesmo. Sándor Márai escreve muito. Ainda meio sem sono, fui trabalhar nuns retoques em “Moenda de silêncios”, que eu e Cagiano publicaremos ano que vem. Quando comecei a cochilar, uma briga de gatos na rua me despertou.

Dia 04 de outubro, terça-feira, lançamento de “sol entre noites” na Livraria da Vila, na Alameda Lorena, 1731. Começa às 19 horas.

Quadro de Aldemir Martins - tenho três gatos iguaizinhos.

Mais séries

Não poderia deixar de citar “Two and a half men”. Às vezes, penso em como roteiristas podem ser tão criativos. Eu fico rindo o tempo todo do Charlie Harper, alterego de Charlie Sheen. Infelizmente, todo mundo já deve ter ouvido falar das bagunças que o Sheen aprontou, de maneira que seu personagem deve morrer em breve e ser substituído por um internauta rico interpretado por Ashton Kutsher, um desses bonitinhos de Hollywood. Tudo para tentar salvar a série de maior audiência nos Estados Unidos.

 

The Big Bang Theory é também uma série que me interessa. Já vi todos os episódios. Algumas vezes, alguns temas científicos são simplificados, mas as piadas são, em geral, ótimas. A atuação de Jim Parsons, que interpreta o futuro Nobel de Física, Sheldon, garante boa diversão. Tenho a impressão de que Sheldon sofre da Síndrome de Asperger. Não sei se isso existe no roteiro original, mas sempre comparei Sheldon com o Max, da animação Mary & Max. Gosto igualmente dos cientistas Wolowitz, um judeu que ainda vive com a mãe (que jamais aparece) e Koothrappali, um indiano que não consegue conversar com mulheres. Claro, Leonard e Penny fazem um bom trabalho, mas são chatinhos. Destaque para a música de abertura, dos canadenses Barenaked Ladies.

 

Mad Men, que já está na quarta temporada. Ainda estou vendo a primeira, por indicação de uma ex-aluna. Estou gostando muito. É um trabalho competente, um visual exuberante. A série reconstrói a Madison Avenue, em Nova Iorque e as agências de publicidade que existiram naquela rua. Aproveita o gancho para mostrar as mudanças que a sociedade norte-americana sofreu naquela década, como a descoberta dos primeiros casos de câncer em fumantes. E chega de séries. Só acompanho essas seis mesmo, porque senão não sobraria tempo para as leituras.

Facebook

Há poucos dias postei a seguinte mensagem no meu perfil do Facebook:

“A crítica recorrente em torno de minha obra é a de que não penso no leitor. Não acho que seja verdade. Eu apenas não subestimo nenhumleitor. Se alguém não pode dedicar duas horas de sua vida para ler um livro meu, melhor não ler mesmo. Agora, a quem se aventurar: garanto que vale a pena.”

A mensagem gerou muitos comentários – importar-se ou não se importar com o leitor, eis a questão. Penso que as duas coisas sejam válidas. Não sei se está certo quando um crítico literário diz que obra que presta é aquela simples, sem adjetivações. Essa besteria contaminou a literatura e está matando a poesia. Proust é ultrapassado. Outro dia li que Clarice Lispector se perde muito nos seus devaneios femininos. Já estão atacando Guimarães Rosa. Hilda Hilst então, deve mesmo ser esquecida em breve.

Sobre isso, sempre pensei que seria preconceito de minha parte julgar que as ciências exatas sejam mais complexas do que as humanas. Mas é isso mesmo, basta comparar a física quântica com a teoria literária e ver a evolução de cada uma. Eu acho muito salutar existir o sujeito que pensa em produzir um best seller e viver disso. Escrever um Harry Potter, um Senhor dos Anéis, um Alquimista e se dar bem. São obras simples, que deviam agradar a crítica. Por isso não entendo muito bem aonde um resenhista quer chegar. Nunca são claros seus critérios, parece tudo muito subjetivo, tudo na base do gostei, não gostei.

Lendo uma matéria na Folha sobre a banda Black Rebel Motorcycle Club, que faz um som difícil, gostei do comentário do baxista, Robert Levon Been: “Quando você começa a tocar sozinho no seu quarto, não está querendo agradar a ninguém, está apenas fazendo música para si próprio. Essa foi a nossa forma de recuperar aquele sentimento e não dar a mínima para o que as pessoas achavam.” Penso que falta isso na literatura, acho que estão preocupados demais com o  leitor. Quando escrevo, só quero, desesperadamente, que aquelas palavras me agradem. Não penso em nenhum outro leitor. Porque eu sei, claro, que existem centenas, milhares, milhões de pessoas iguais a mim, que gostarão, tanto quanto eu gostei, do que escrevi.

Black Rebel Motorcycle Club