O escritor e pesquisador Valdomiro Santana analisa meu livro

O livro da carne, 7letras, 2010

Li na ficha catalográfica de seu livro que você nasceu em 1971. Nenhuma outra informação biográfica. Nada sabe o leitor em que cidade de Minas você nasceu, como era a escola primária em que estudou, se tomou banho de rio, brincou de gude, o que lhe ficou dos roxos, dos preceitos e das  procissões da Semana Santa, se havia matraca na Quinta-feira de Trevas, o que guardou da imagem do Senhor Morto; se, em sua cidade, a igreja era barroca, se havia em volta montanhas, se foi cursar o secundário num colégio católico em regime de internato; se e quando leu Boitempo, de Drummond, o poema “Infância”, de Paulo Mendes Campos, o conto “O carneirinho azul”, de Otto Lara Resende, a ficção de Guimarães Rosa, Itinerário poético, de Emílio Moura, Confissões de Minas,
também de Drummond.
À medida que eu ia lendo, devagar, bem devagar, os poemas de seu livro, me fazia essas perguntas. Uma estilística, vamos dizer assim, foi o que se impôs na leitura, a da reiteração obsessiva da preposição “para” e o uso deliberado, também obsessivo, dos verbos no infinitivo (impessoal). Mesmo onde essa preposição não aparece, ela fica subentendida, tanto quanto a sintaxe dos verbos em suas formas nominais.
A parte ou seção inicial “Antes do verbo” me parece dispensável. São circunlóquios. Os poemas prescindem dessa “justificativa”, ou do que soa como “explicação necessária”. Que eles próprios digam a que vieram. E o dizem. Há uma construção,  no sentido de que você riscou um projeto e o seguiu; o livro, por isso, tem uma unidade; há nele talvez um certo construtivismo à la João Cabral de Melo Neto, não a influência de sua poética, nem, muito menos, o decreto de banir palavras abstratas). Isso me fez pensar na palavra vers em francês, que, além do substantivo “verso”, pode indicar também como preposição “em direção a”, que equivale a “para”. As “receitas” os “roteiros” dão conta desse projeto de busca da infância, que não é necessariamente a “sua”, mas a do mundo, ou de “um” mundo, em que o “eu” foi arrancado, em que você, o autor, está dessubjetivado. Pois não é com memórias da infância que se faz o que quer que seja, mas com blocos de sensações, certos materiais ou objetos que pertencem ao tempo em pessoa, ao tempo que é nossa unica subjetividade, como fez Proust. E, nessa medida, o passado contraído se distende, o “foi” é o que continua pulsando, ainda que instantaneamente, nos órgãos dos sentidos. O tempo, note, não nos é interior; nós é que somos interiores ao tempo, no qual mudamos, nos perdemos e nos redescobrimos, já que ele mesmo, o tempo, não muda, por ser uma forma vazia, e tampouco é eterno.
O que ficou então em mim da leitura de seu livro? Ficou um entre dois, um intermezzo, alguma coisa no meio, sem as margem: uma, a do projeto falhado de busca da infância; a outra, a da subjetividade que os poemas (re)inventam. Não é sempre no meio que acontecem as coisas? O princípio e o fim não têm interesse algum, porque sem graça. Daí, a contraimagem suscitada pela leitura: uma espécie de cano furado, em que a água não vai de um ponto X a um ponto Y, mas esguicha para todos os lados.
Essa contraimagem subverte o “para”, o “em direção a”, a “receita”, “o roteiro”, o “sentido” perseguido. E o poeta, sem eu nenhum, puxa o tapete que ele próprio teceu.
Foi assim que li O livro da carne. Você merece o nome de poeta.
(Valdomiro Santana, 07 de janeiro de 2012)

Prêmios literários

Cinco dias em Guarulhos, cidade que não conhecia. Pouco mais de uma hora de van para chegar ao campus da instituição que sediaria o congresso. O motorista, solícito, me deu todas as dicas e consegui andar pelo centro com um pouco mais de segurança. A primeira pergunta que me faço quando chego a uma cidade nova é: eu moraria aqui? Assim, ponderando sobre prós e contras, julgo ter uma visão crítica dos lugares. Entre uma apresentação e outra, consegui adiantar umas dez linhas de um conto, rabiscar um início de prefácio e ler algumas páginas de Agustina Bessa-Luís. Foi tudo. A partir do dia 28 próximo, a vida muda. Os últimos compromissos “sérios” estão marcados para este dia. Domingo, na Folha, uma interessante matéria sobre os prêmios literários no Brasil. O dono da Record ficou nervoso porque premiaram Chico e não Edney e decidiu que sua editora não participará mais do Jabuti. Achei muito interessante uma frase de um entrevistado: os prêmios literários hoje dependem de celebridades para se tornarem conhecidos. Antes eles lançavam autores, agora autores precisam lançá-los. Claro que o Brasil está engatinhando nessa história de prêmio literário: existem aqueles que pagam fortunas para um ou dois autores e aqueles que pagam uma miséria para um ou dois desconhecidos. Aqueles bancados por grandes instituições e aqueles lançados por prefeituras e secretarias municipais de cultura. Mas não existe o meio termo. Um prêmio de quinze mil reais, que atrairia autores iniciantes? Nem pensar. Um prêmio exclusivo para autores independentes? Não, só lá fora. De maneira que um Jabuti ganha a função de laurear os mesmos cânones de sempre. E os jornais contribuem: destacam somente Edney e Chico. Sobre isso, encontrei uma página engraçada: Chico, devolve o Jabuti! Então, acho que isso acontece só no Brasil: a existência de um autor desconhecido que ganhou mais de cem prêmios literários e a de um jornalista que escreve um romance e papa todos os prêmios do ano em seu livro de estreia – uma obra-prima, comentam.

Duas imagens

Primeiro gostaria de falar sobre a Primavera dos Livros, que acontecerá em São Paulo no início de novembro. Este ano o evento será um pouco diferente – acontecerá em novo local e com maior quantidade de editoras. Depois vou postar aqui uma foto minha com a Ifinha, que é uma gata que adotamos lá no campus. Acabou de ter quatro filhotes e depois dessa estamos providenciando a castração. Ainda bem que todos os gatinhos já têm donos. É duro encontrar bichos mortos por aí, pelas ruas da cidade.

Eu e a gata Ifinha, ontem.

Primavera dos livros, em São Paulo.

Ladrões

Ladrões de bicicleta

 

A primeira vez que vi “Ladrões de bicicleta” (Ladri di biciclette, 1948) foi com meu irmão e eu não tinha maturidade o bastante para ficar indignado com o que quer que fosse. Então revi o filme semana passada. Há uma cena, em que Antonio Ricci, o pai desempregado há anos dá um tapa na cara de seu filho, Bruno Ricci, que me deixou transtornado. Às vezes a gente quer transformar isso aqui num troço palatável, mas um tapa é um tapa e nós inoculamos uma morbidez beligerante em tudo que tocamos. Tenho lido o livro Pity the Nation e trabalhar com engenharia é muito cansativo – ter de publicar artigo é um negócio exaustivo. Ainda tem esse maldito curso de Pedagogia. Agora eu queria ver “Tropa de elite 2”, será que é tudo isso mesmo? Amanhã tenho estágio – a única coisa boa de acordar 5 da manhã é ver aquelas crianças. Estou trabalhando no conto “xiv” – preciso terminar o livro “sol entre noites” até fevereiro. Mais três contos e dá tudo certo.

Tempo

Sim, às vezes bebo café.

Estou me mudando para uma casa. Isso é complicado, pois me deixa um pouco sem tempo. Eu mesmo encaixotei meus três mil livros – caixas e caixas, plástico bolha mais plástico bolha e eles não podem ficar muito tempo confinados. Além disso, uma novidade sobre “Sol entre noites”, o livro que escrevo no momento. Mais trabalho e menos tempo. Depois eu conto. Por enquanto, fiquem com algumas poesias d’O livro da carne. Aqui. Em tempo: estou apaixonado pela jabuticabeira no quintal.

Um pouco de literatura

Instrumento educativo

Estou um pouco cansado da Pedagogia. No Brasil, os cursos de Pedagogia são voltados para crianças. Ou seja – se um sujeito quiser ser professor universitário ou de cursinho ou colegial, não deve procurar a Pedagogia. Ingressei em um curso à distância da UFSCar em 2008 e, apesar de reconhecer a qualidade que a universidade oferece, mesmo à distância, tenho me sentido um peixe fora d’água. Porque não tenho interesse em lecionar para crianças e, se depender de mim, jamais o farei. Então tento adaptar o que leio à minha prática, que se resume em dar aulas em cursos técnicos e superiores. É isso.

Li as resenhas do Alcir Pécora publicadas na Folha de São Paulo nos últimos meses. Apesar de concordar com muita coisa que o crítico escreveu, tenho um certo receio de que ele pegue um livro meu pela frente. Porque são poucas as obras que ele elogia, o que significa que a literatura brasileira contemporânea é uma merda. E eu não estou tão certo disso. Neste último final de semana desceu a lenha (com argumentos) nos lançamentos de Nelson de Oliveira e Joca Reiners Terron.

Para terminar, tem uns poemas de meu último livro aqui.