Assim começa um conto antigo

Era sexta-feira quando passou cabisbaixa pela vizinha atenta, sem cumprimentá-la apesar do oi mexeriqueiro, mecanicamente abriu a porta de casa. Não esperava encontrar Nicanor e, de fato assim foi melhor, já no trabalho hora dessas, cansada para um desconsolo. Desejava um banho: antevia a banheira cheia de uma água reconfortante. O dia fora duro, de telefonemas engraçadinhos, informações que podiam encontrar no guia e era obrigada a todas as delicadezas. Ali se sentia dona de algo: vislumbre de uma liberdade tardia, porém essencial.

Se ele não estava, parecia tanto lhe fazer, ideia que a assustava, porque confirmava uma espécie de sujeição para com esse amor que não podia expirar por um motivo remediável. Não se encontravam há sete dias, dali a pouco viriam as férias, prometeram. Se facilitasse, podiam dispensá-la, meio descartável a sua espécie de funcionário. Arriscar?, ao mesmo tempo uma felicidade tão fácil e legitimamente exposta, uma maçã madura ao alcance, uma força agindo, mas quase impossível estender o braço.

———

Este conto se chamava “Feitiço de Áquila”, por causa daquele filme do Richard Donner, Ladyhawke, de 1985, com Michelle Pfeiffer. Com ele ganhei meu primeiro prêmio importante, o Xerox, que já não existe mais. No caso do filme, a história se passa em uma época medieval. O bispo da cidade de Áquila lança uma maldição em um casal – eles não podem se encontrar na forma humana – à noite ele é um falcão e de dia ela é uma loba. Transportei isso para os tempos atuais: ele trabalha no terceiro turno e ela no turno normal e ficam, algumas vezes, uma semana sem se ver. Engraçado que este conto foi traduzido para o inglês com o título “Aquila’s spell”, nada a ver com o título original do filme.

Feitiço de Áquila