Concursos

Este ano fiquei muito contente, porque a ALAMI resolveu me homenagear, dando o nome Whisner Fraga ao seu já bem conhecido Concurso Contos do Tijuco. É uma emoção tremenda, claro. Depois foi a história do Prêmio Luiz Vilela, o artista Anésio Azevedo com suas intervenções, levando minha crônica não-publicada às ruas. E, como eu sempre digo, um texto na rua tem vida própria. A gente nunca sabe em que mãos cairá. Anésio me contactou, concordei com a intervenção, por ver nela uma obra de arte, e melhor ainda, arte em progresso – a arte modificando a arte enquanto está sendo criada. É fantástico. Mas sou avesso a brigas, ainda mais políticas. Sou um sujeito pacífico, domado. Se alguém me chama a atenção, fico com dor de barriga, fico triste, cabisbaixo. Sei que nesta vida é impossível caminhar sem granjear inimigos e eu os tenho também, óbvio. A diferença é que nunca tive a intenção de recrutar nenhum. Se vieram foi porque tinham de vir mesmo e pronto. O que faço é sempre agradecer por tudo o que chega até mim.

A profissão

 

A literatura brasileira ainda é um bebê bastardo, que não sabe quando começar a engatinhar, de forma que viver dignamente por meio da escrita é algo complicado ainda em nosso país. Alguns já conseguem, como todos sabem. E muitos outros conseguirão também, em breve. A tendência é que o Brasil siga seus colonizadores e avance. Para que um escritor consiga se sustentar com os trocados das letras, é fundamental que se criem mais concursos literários e mais feiras também. De direitos autorais nenhum gênio sobrevive. Basta fazer as contas – um baita escritor, como Luiz Ruffato, vende 3 mil exemplares de cada obra sua. Sendo otimista, 5 mil exemplares. De cada venda ganha aí seus 5 reais, o que contabiliza 25 mil reais. Só que, para desovar 5 mil exemplares, as livrarias levam 2 anos. Fazendo as contas, isso daria um salário aí de R$ 1042,00 mensais para um escritor do porte do Ruffato. Um soldador, com todo o respeito aos soldadores, ganha 7, 8 vezes mais. Agora, para chegar lá, o Luiz demorou um tempinho. Digamos que já estava beirando os 40 anos (novamente sendo otimista) quando começou a vender bem. Isso quer dizer que, para o sujeito fazer literatura de qualidade neste nosso país, é preciso deixar de viver durante quarenta anos. Daí vem aquele mito, provavelmente: o de que escrever é um dom. Ora, é muito legal dizer isso, porque dom não tem preço e, principalmente, não é preciso que seja remunerado. As editoras adoram e não fazem nada para mudar a cabeça do leitor. Continuando o raciocínio: daí que é preciso criar concursos literários que premiem escritores que estão começando (é bom reconhecer o valor da obra de algum octogenário, mas não basta) e também que se convidem iniciantes para feiras literárias (e que estas participações sejam bem pagas).

Quando resolvi ser escritor, eu tinha uns quatroze anos, por aí. Mas quando comuniquei à minha família, já escrevia há um tempinho. Aos 20 anos eu desejava abandonar tudo para me tornar escritor e fui pedir a ajuda da minha família. A resposta foi simples, curta, imediata: termine seu curso superior e depois você poderá ser o que quiser, pois já terá um trabalho para se manter. Ironia das ironias, pois todos sabem que escritor não é profissão. Lá fora a coisa é mais fácil, sem dúvida. O candidato a escritor basta comunicar aos pais que quer ser um artista e que, para tanto, precisa ser sustentado durante uns três, quatro anos, tempo necessário para confeccionar seu primeiro best seller.

O livro de Enrique Vila-Matas, “Paris não tem fim”, toca neste assunto. O autor, Vila-Matas, recorda-se da carta que escreveu ao pai, pedindo-lhe que não cessasse de lhe enviar a pensão, pois estava quase terminando de escrever seu primeiro romance.

” ‘Querido pai: Cheguei a essa idade na qual se tem pleno domínio das próprias qualidades e a inteligência alcança sua força e capacidade máximas. É, portanto, o momento de realizar minha obra literária. Para realizá-la, necessito de tranquilidade e pouca distração, não ter que pedir dinheiro para Marguerite Duras nem estar o tempo todo me ocupando de convencê-lo de que vale a pena financiar a escritura de um romance que, afinal, quando o terminar e publicar e receber o aplauso das multidões, haverá de enchê-lo de orgulho paterno e de grande satisfação por saber ter sido generoso comigo. Seu filho, que lhe quer…’ ”

Com esta carta consegui adiar por um tempo o fim definitivo dos reembolsos postais. Provido de indubitável senso de humor e de um estilo muito sóbrio e direto, meu pai me respondeu:

‘Querido filho: Cheguei a essa idade na qual uma pessoa se vê obrigada a comprovar como seu filho se tornou um imbecil. Dou três meses para que termine a sua obra-prima. Além disso, quem é Marguerite Duras?’ ”

Eu não disse que lá fora é fácil e sim que lá fora é mais fácil do que aqui.