Senso comum

Aqui! Aqui!

Como sempre gostei de equações matemáticas, que representassem algum fenômeno físico e como não havia conseguido me adaptar ao mercado, fui cursar o doutorado. Não por falta de opção, pois desde a adolescência eu sabia que jamais pararia de estudar. Discutia muito com um estudante de Física, tentando encontrar o significado de cada passo da resolução de uma equação diferencial. O que me alegrava nesse tempo era essa busca, queria entender os fenômenos que aquelas variáveis queriam representar. Não deixava de lado a literatura e nem a encarava como hobby – tinha o horário de leitura, de escrita, era tudo mais ou menos dividido. Mais ou menos, porque nunca fui organizado. Bom, o que estou tentando explicar é que a engenharia tem uma influência razoável sobre minha obra e por isso muitas pessoas não conseguem entender o que escrevo, porque não têm os pré-requisitos necessários e não se esforçam para tê-los. Não querem desafio. Outro dia, li uma resenha muito suspeita de uma professora universitária sobre um livro interessante. Ela argumenta que, ao escrever, o autor não pode se esquecer do leitor. Hum… Tenho sérias dúvidas a respeito dessa afirmação. É própria de alguém preso aos dogmas seculares da profissão. Ora, se se cria algo para seu leitor, você submete a arte ao critério de pessoas, do mercado, que estão submetidos aos preconceitos e limites de seu tempo. E daí se alguém pretende criar um romance ininteligível? Por um acaso não há um paralelo na pintura, com a abstração? Alguém consegue compreender uma pintura abstrata? E no entanto um Pollock não deixa de dar prazer nem deixa de ser belo. Meu livro “Abismo poente” e este novo, “Sol entre noites”, não chegam a ser ininteligíveis. De forma alguma. Só exigem do leitor uma paciência e uma atenção muito maior do que aquela necessária para ler um best seller. Só isso.

Conhecendo livro citado anteriormente, posso afirmar que não houve esforço por parte da resenhista, que fez uma leitura superficial e rápida. Claro, não podia ser diferente, pois um jornal paga, quando paga, 200, 300 reais, no máximo, por resenha. As humanas, como ciência, estão muito atrasadas em relação às exatas. Escrevo isso com conhecimento de causa, fiz cursos nas duas áreas. A linguística nem pensava em nos dar o ar da graça e Newton já fazia horrores com a Matemática e com a Física. E não pensem que Einstein é fácil de ser compreendido. Não é mesmo. O que dizem sobre sua teoria nos botecos, é senso comum, é Einstein mastigado, simplificado, deturpado e vomitado dois milhões de vezes. A Mecânica Quântica é complexa, mas para ser compreendida, os pesquisadores se debruçam sobre ela, leem com atenção, dispensam seu tempo a compreender o que Einstein queria dizer, a experimentar. A literatura devia ir pelo mesmo caminho, é a única forma de combater a mediocridade.

Comecei falando de equações, não? Então, hoje eu busco justamente o contrário, vejo os fenômenos, enxergo o mundo com o filtro da minha história e tento transformá-lo em texto. É assim que estou construindo a minha obra: encarando as palavras como variáveis e as frases como equações. Ao escrever assim , honestamente, só penso em mim. Nivelo os futuros e eventuais leitores com o prumo da minha própria interpretação – se eu consigo compreender o que escrevo, qualquer um também conseguirá, com mais ou menos esforço. Não acreditar na existência de leitores competentes, que conseguirão digerir o que se escreve, é o mesmo que subestimá-los e subestimar é desrespeitar.

Dia da consciência negra

Depois de tudo o que aconteceu nas últimas eleições, acredito que seja um bom momento para reflexão.

Duas imagens

Primeiro gostaria de falar sobre a Primavera dos Livros, que acontecerá em São Paulo no início de novembro. Este ano o evento será um pouco diferente – acontecerá em novo local e com maior quantidade de editoras. Depois vou postar aqui uma foto minha com a Ifinha, que é uma gata que adotamos lá no campus. Acabou de ter quatro filhotes e depois dessa estamos providenciando a castração. Ainda bem que todos os gatinhos já têm donos. É duro encontrar bichos mortos por aí, pelas ruas da cidade.

Eu e a gata Ifinha, ontem.

Primavera dos livros, em São Paulo.

Ladrões

Ladrões de bicicleta

 

A primeira vez que vi “Ladrões de bicicleta” (Ladri di biciclette, 1948) foi com meu irmão e eu não tinha maturidade o bastante para ficar indignado com o que quer que fosse. Então revi o filme semana passada. Há uma cena, em que Antonio Ricci, o pai desempregado há anos dá um tapa na cara de seu filho, Bruno Ricci, que me deixou transtornado. Às vezes a gente quer transformar isso aqui num troço palatável, mas um tapa é um tapa e nós inoculamos uma morbidez beligerante em tudo que tocamos. Tenho lido o livro Pity the Nation e trabalhar com engenharia é muito cansativo – ter de publicar artigo é um negócio exaustivo. Ainda tem esse maldito curso de Pedagogia. Agora eu queria ver “Tropa de elite 2”, será que é tudo isso mesmo? Amanhã tenho estágio – a única coisa boa de acordar 5 da manhã é ver aquelas crianças. Estou trabalhando no conto “xiv” – preciso terminar o livro “sol entre noites” até fevereiro. Mais três contos e dá tudo certo.

Upgrade

Está tudo derretendo.

A polícia não dava folga ontem na Santa Ifigênia, onde fui comprar umas pilhas recarregáveis. Voltava da Secretaria de Cultura, onde estive assinando o contrato do ProAC – meu novo livro, “Sol entre noites” foi premiado. Vou de Ficções novamente. Acho importante um autor ter várias obras com a mesma editora. É o que vou tentar. Esqueci um pouco de escrever aqui, porque estou trabalhando muito neste “Sol entre noites”. Pesquisa, principalmente. Depois andei meio desanimado. É muito motorista buzinando por nada, o tempo seco, o calor. Adotamos uma gata, Ifinha. É gata de rua, novinha, não dá para trazer pra dentro de casa. Dei vermífugo a ela, agora quero levá-la para que a castrem. Tem muito gato morto pelas ruas, é triste. Sobre isso estou escrevendo uma poesia, que lerei na Casa das Rosas, na quinta poética de setembro.