Algumas questões

Às vezes vou ouvir algum escritor, é raro, mas algumas vezes vou. Há uma argumentação recorrente na voz desses sujeitos, velhos ou novos.

1) Eles reclamam que nasceram para a literatura, que não sabem fazer mais nada.

Caramba, todo mundo sabe “fazer outra coisa”. Se não sabe, aprende, as opções são inúmeras. Agora, gostar de outra profissão são outros quinhentos. Ainda assim, é possível. Escrever é somente uma alternativa num universo em constante expansão.

 

2) Eles escrevem por altruísmo, porque querem um mundo melhor, porque querem deixar algo para a posteridade.

As pessoas só escrevem por vaidade e egocentrismo. A perpetuação do nome é somente vaidade elevada à vigésima potência. Escritores gostam de ser bajulados, elogiados, badalados e gostam de ler e ouvir tudo o que dizem de bom a seu respeito. E, é evidente, que só podem ouvir e ler enquanto estão vivos, logo, o importante é reconhecimento aqui e agora, custe o que custar. O mundo melhor, para um escritor, é aquele em que todos querem ler seus livros.

Antonio Cisneros

 

REQUIEM (3)

A las inmensas preguntas celestes
no tengo más respuesta
que comentarios simples y sin gracia
sobre las muchachas
que viven por mi casa
cerca del faro y el malecón Cisneros.
Y no pretendan ver
en la cháchara tonta esa humildad
de los antiguos griegos.
Ocurre apenas
que las inmensas preguntas celestes
sacan a flote
mi desencanto y mis aburrimientos.
Que a la larga
me tienen dando vueltas
como un zancudo al final de la tarde.
Haciendo tiempo,
mientras llega la hora de oficiar
mis pompas funerarias,
que no serán gran cosa
por supuesto.
En estos tiempos malos bastará
con una mula vieja
y un ánfora de palo
brillante y negra
como el lomo mojado de un delfín.
¡Ah las preguntas celestes!
Las inmensas.

 

(Antonio Cisneros , poeta peruano que faleceu ontem)

Consumismo

 

O lançamento de “Moenda de silêncios” em BH é neste sábado, não se esqueçam de ir!

Hoje comprei um aparelho eletrônico e, ao ler o manual, me defrontei com uma frase mais ou menos assim: “vida útil deste equipamento: aproximadamente 5 anos, se observados os procedimentos de manutenção etc.” Puxa, eu cresci ouvindo aquela história de durabilidade. Íamos comprar uma panela, um colchão, um sofá e o mantra do vendedor era o mesmo, em qualquer loja: “isso dura pra sempre, senhora”. Aí, em algum momento da história, isso não se tornou uma ambição mais da sociedade: quem quer a mesma geladeira a vida inteira, o mesmo fogão? Só que a coisa foi piorando e hoje os smartphones seguem o exemplo dos carros e mudam de modelo ano a ano. Até aí tudo bem, compra quem quer. Se a pessoa não ceder ao marketing, pode ser que um telefone inteligente desses aí aguente uns oito ou nove anos.

O foda é o tapa na cara, o descarado tapa na cara: daqui a cinco anos, no máximo, você vai ter de comprar outro desse aí e jogar o seu fora. Pô, pode até ser que eu não queira um eletrônico que dure a vida inteira, já estou domesticado mesmo, mas também resistir por só cinco anos é achar que meu dinheiro é capim, não?

Libertação

Eu tinha 9 anos e cursava a 3a série do primeiro grau em uma escola pública de uma pequena cidade do interior mineiro, quando, durante uma aula, a professora, uma senhorinha sisuda e honesta, lançou o desafio: o autor do melhor trabalho sobre o dramaturgo Vianinha ganharia como prêmio um livro. Um livro! Eu queria sair naquele momento da escola, correr para a biblioteca, para o teatro, para algum centro cultural, em busca de informações, de fotos, de qualquer material que me ajudasse a obter aquela recompensa. Não queria ter de esperar. Assim, com o auxílio de adultos, de enciclopédias, de voluntários, de artistas, consegui vencer a competição.

Ao perceber a tristeza nos olhares de meus colegas, percebi que não tinha talento para o triunfo, mas acabei relevando isso quando rasguei o embrulho e desentranhei do pacote uma edição de Menino de Engenho, de José Lins do Rego. Uma edição barata, de papel ruim, capa duas cores, mas que exalava um cheiro de conhecimento, de tipografia, de diversão, que me persegue até hoje. Foi a primeira obra de minha biblioteca particular.

A partir dali, eu me tornei, nas palavras de meu pai, um desajustado. Tentaram me consertar: davam-me carona até o clube, um sol, uma piscina, me fariam desistir daquela loucura de me enfurnar num quarto pouco iluminado para ler alguma coisa. Tentaram me converter em uma criatura social, forçando-me a participar de cursos de oratória e socialização. Meus pais previam que, com o desajuste, se achegariam também a infelicidade, a miséria, a solidão. E, para a preocupação de todos, eu só piorava. Ia ao cinema, à praça, à casa dos pouquíssimos amigos, sempre com um livro debaixo do braço. Qualquer minuto de espera se tornava uma desculpa para a leitura.

Eu não tinha mesada, mas arranjava um jeito de conseguir uns trocados: passeava com o cachorro da vizinha, lavava alguma calçada, carregava as compras da semana daquela vovózinha torturada pela gota e pelo reumatismo. Eu havia contraído o “vício impune”, de que tanto falou o poeta Baudelaire. Trocava todas as moedas que ganhava por livros. Com o tempo, me tornei refém daquela máxima atribuída a Erasmo: “Quando tenho algum dinheiro adquiro livros e, se me sobra algum, compro então comida e roupas”.

Trato esses objetos com o carinho com que se deve tratar aquilo que se ama profundamente. Sei acariciá-los, sei sustentá-los com a palma estirada da mão, para que não se danifiquem, sei conservá-los para que me acompanhem com vigor nesta pequena viagem aqui na Terra. Não sei exatamente quantas obras possui o meu acervo, mas tenho livros espalhados pela casa toda. Livros em cima de mesas, da geladeira, dos criados, das camas, da máquina de lavar roupas, da pia. Helena, minha filha de onze meses, engatinha sobre capas, lombadas, páginas, e, surpreso, observo que, sob a ótica de um bebê, meus amigos ganham outras utilidades.

Então, acabei por me tornar uma espécie de “book hunter”. Passo horas e horas em sebos à caça de alguma obra rara. Descobri várias e às vezes sofro muito ao ver um autógrafo se desbotando diante da umidade, uma capa de uma rara primeira edição permanentemente danificada. Pena que o desmazelo de alguém comprometera algum tesouro. Por um desses acasos da existência, cheguei a conhecer a Guita, esposa de José Mindlin. Nem sei se posso afirmar aqui, sem correr o risco de ser leviano, que ela era uma restauradora de livros. O que ela fazia era muito mais: era mágica! Bastava um volume avariado lhe cair nas mãos para sofrer uma transformação.

A partir daí, eu, que nunca havia colado uma ingênua fitinha em qualquer lombada ou capa, tive a confirmação de que estava inteiramente certo. Restaurar qualquer objeto é uma tarefa que exige não só habilidade, paciência, carinho e conhecimento, mas também um dom. É preciso saber que o restaurador é alguém que consegue ressuscitar algo que estava perdido. É por isso que idolatro todo aquele que defende, que ama, que recupera, que quer o bem para um livro.

Eu quis, neste pequeno relato, dar uma amostra do meu amor pela palavra. Tento até hoje tranquilizar meus pais, atestando que a leitura não me fez miserável, mas sei que não acreditam, principalmente quando me encaram com uma condescendência eivada de dó. Se não nos trazem iluminação, se não nos trazem redenção, se não nos trazem esperança, pelo menos que as letras nos tragam prazer e libertação.

Fantasia fraudulenta

 O William Lagos traduziu meu “Abismo poente” para o inglês. Um dia traduzirá para o espanhol também. Ele me manda toda semana vários sonetos. Eu disse a ele uma vez que leio tudo, mas às vezes não comento. O fato é que ele é muito bom,  manja de literatura como poucos, conhece profundamente vários idiomas e escreve pra caramba. Vou colocar uns versos dele pra vocês conhecerem.

Fantasia fraudulenta III

que seja a fraude, então, seu esplendor,
não mais que brincalhona fantasia.
(talvez somente em mim gere poesia,
no romantismo bobo deste ardor…)

antigamente, havia um copo multicor,
no qual apenas uísque se bebia
e a cada gole a figura se despia,
numa lascívia a demonstrar certo candor…

hoje se mostra tudo, em mais clareza
e os véus já se esgarçaram do mistério…
mas essa imagem não se desnudará

e se a gatinha a agatunhar, tenho certeza
de que este verso de puro despautério
só um mutilado cartão descreverá…

(William Lagos)

Wikipiada

Estou sendo alvo de uma bobagem na Wikipedia. Uns administradores irão tirar a página com meu nome do ar. A justificativa: autopromoção. Ora, sob minha óptica, ter um verbete (que estão chamando de autobiografia) nesta “enciclopédia”, é motivo de vergonha e desconfiança para mim. Sempre digo aos meus alunos para não pesquisarem na Wikipedia, para não confiarem em seus verbetes. Claro, todos sabem que nada ali é totalmente confiável. Então resolveram, tarde demais, realizar uma “caça às bruxas”. Que besteira. Se nunca foi séria, não será agora que conseguirão o feito. Ora, se fosse um organismo sério, em vez de submeterem a página com meu nome a uma “votação”, em que, quem vota é somente administrador do site, deveriam pesquisar por aí a veracidade das informações. Basta uma visita à minha página pessoal ou uma pesquisa no sebo mais próximo ou na estante virtual, para perceber que nenhuma informação ali é descabida. Autopromoção? Que piada. Aí, tentei tirar eu mesmo minha página do ar antes que eu apele para questões de direitos autorais e eis que sou acusado de vandalismo. É ou não é o país da piada pronta?

O mito da igualdade

É lógico que ainda vivemos em uma sociedade machista e preconceituosa. Estava estacionando quando vi a batida: um carro entrava em uma oficina, sem dar seta. Ou seja: vinha a uma velocidade razoável e do nada resolve virar. Uma moto que seguia atrás acabou batendo na lateral do outro veículo. Até aí, acidentes acontecem, principalmente por imprudência. Só que o motorista do Fiat desceu avacalhando. Claro, assim que percebeu que quem dirigia a moto era uma mulher, se sentiu no direito de ignorâncias. Chegou impondo, gritando. A moça tirou o capacete, o pulso ralado, transtornada, pois havia caído no chão, a jaqueta rasgada. E falou alto também, mas na boa, reclamando que o sujeito só se preocupava com o carro e nem queria saber se ela havia se machucado. Verdade: ele só repetia que a porta estava toda amassada. E gritava, gritava, gritava. Queria a qualquer custo que a moça pagasse o prejuízo. Foi quando ela argumentou que ele não tinha acionado a seta. Aí, retomando o domínio de si, acrescentou que ligaria para o namorado, e sacou o celular. A partir de então, eu vi uma transformação no indivíduo imprudente: “ah, vamos deixar disso, fica por isso mesmo, tá tudo certo”. Como se ele percebesse, de repente, que o argumento do namorado da moça viria mais forte, porque era de um homem. E tremeu. De homem para homem, a questão era outra. A moça desistia de brigar. Se fosse adiante, ganharia o conserto de sua moto, bastante danificada com a batida. Devia ter ligado para a polícia, feito um B. O., colocado aquele sujeito em seu devido lugar de idiota.

Concursos

Este ano fiquei muito contente, porque a ALAMI resolveu me homenagear, dando o nome Whisner Fraga ao seu já bem conhecido Concurso Contos do Tijuco. É uma emoção tremenda, claro. Depois foi a história do Prêmio Luiz Vilela, o artista Anésio Azevedo com suas intervenções, levando minha crônica não-publicada às ruas. E, como eu sempre digo, um texto na rua tem vida própria. A gente nunca sabe em que mãos cairá. Anésio me contactou, concordei com a intervenção, por ver nela uma obra de arte, e melhor ainda, arte em progresso – a arte modificando a arte enquanto está sendo criada. É fantástico. Mas sou avesso a brigas, ainda mais políticas. Sou um sujeito pacífico, domado. Se alguém me chama a atenção, fico com dor de barriga, fico triste, cabisbaixo. Sei que nesta vida é impossível caminhar sem granjear inimigos e eu os tenho também, óbvio. A diferença é que nunca tive a intenção de recrutar nenhum. Se vieram foi porque tinham de vir mesmo e pronto. O que faço é sempre agradecer por tudo o que chega até mim.

Algumas palavras sobre o Concurso de Contos Luiz Vilela

Talvez os ituiutabanos não tenham uma ideia muito clara da importância do Concurso Luiz Vilela, que, durante mais de vinte anos, premiou contistas do país inteiro. O certame, que dava ao vencedor uma boa quantia em dinheiro, que recebia, a cada edição, em torno de mil trabalhos concorrendo ao prêmio, levava o nome de minha cidade natal aos cantos mais recônditos do Brasil. Digo isso com conhecimento de causa, pois, por onde quer que eu vá, quando respondo sobre Ituiutaba, logo já a conectam ao concurso.

Os livros editados com os dez melhores trabalhos circulam por todos os cantos. Recebo com frequência e-mails de gente pedindo exemplares, interessados em ler os contos selecionados. Quando relacionam o prêmio à cidade, logo pensam que aqui há políticos que valorizam a cultura, que reconhecem o valor da literatura. E é fato que deve ser louvado.

Estamos cansados de saber que uma parcela significativa da população saiu da faixa de pobreza, alcançando o status de consumidora. Os da classe C migraram para a B, os da B para a A, fazendo com que nosso povo tivesse acesso aos bens de consumo, embora continue sem acesso aos bens culturais, seja por desinteresse, seja por falta de dinheiro mesmo. Ações que saiam à captura de leitores só podem ser louvadas.

Posso garantir a qualquer um que venha me questionar, que os mil exemplares editados com os dez contos vencedores alcançam uma enormidade de leitores. Um livro em uma biblioteca, um livro lançado ao mundo, é sempre uma surpresa. Como vencedor da edição de 2007 do Prêmio Luiz Vilela, como autor selecionado em quatro outras oportunidades, posso afirmar que a antologia fez muita diferença em minha carreira.

Graças ao concurso, meu nome chegou aos ouvidos de antologistas e de pesquisadores que se interessaram pela minha escrita. Fui convidado a participar de importantes obras, caso da Geração zero zero, que mapeou os melhores escritores contemporâneos da década passada. Meu nome, de boca em boca, alcançou uma pesquisadora norte-americana, que passou a estudar meus dois últimos livros com seus alunos de pós-graduação. De boca em boca, minha prosa encontrou uma editora alemã, que se interessou pelo que faço e que traduzirá um texto meu para a Feira de Frankfurt, em 2013.

Poderia ficar aqui defendendo o concurso durante horas, mas acho que já dei uma boa amostra do meu pensamento. Por motivos que não pretendo abordar neste texto, o prêmio deixa de levar o nome do escritor ituiutabano mais conhecido no Brasil e no mundo. Não tenho dúvida nenhuma que grande parte do sucesso do Concurso Luiz Vilela se deveu ao fato de que o próprio Vilela gerenciava todos os passos do certame. Parece-me que ficou decidido que continuará a existir um prêmio literário em Ituiutaba, só que com outro nome. Não sei se será a mesma coisa, mas espero que sim.