Mais séries

Não poderia deixar de citar “Two and a half men”. Às vezes, penso em como roteiristas podem ser tão criativos. Eu fico rindo o tempo todo do Charlie Harper, alterego de Charlie Sheen. Infelizmente, todo mundo já deve ter ouvido falar das bagunças que o Sheen aprontou, de maneira que seu personagem deve morrer em breve e ser substituído por um internauta rico interpretado por Ashton Kutsher, um desses bonitinhos de Hollywood. Tudo para tentar salvar a série de maior audiência nos Estados Unidos.

 

The Big Bang Theory é também uma série que me interessa. Já vi todos os episódios. Algumas vezes, alguns temas científicos são simplificados, mas as piadas são, em geral, ótimas. A atuação de Jim Parsons, que interpreta o futuro Nobel de Física, Sheldon, garante boa diversão. Tenho a impressão de que Sheldon sofre da Síndrome de Asperger. Não sei se isso existe no roteiro original, mas sempre comparei Sheldon com o Max, da animação Mary & Max. Gosto igualmente dos cientistas Wolowitz, um judeu que ainda vive com a mãe (que jamais aparece) e Koothrappali, um indiano que não consegue conversar com mulheres. Claro, Leonard e Penny fazem um bom trabalho, mas são chatinhos. Destaque para a música de abertura, dos canadenses Barenaked Ladies.

 

Mad Men, que já está na quarta temporada. Ainda estou vendo a primeira, por indicação de uma ex-aluna. Estou gostando muito. É um trabalho competente, um visual exuberante. A série reconstrói a Madison Avenue, em Nova Iorque e as agências de publicidade que existiram naquela rua. Aproveita o gancho para mostrar as mudanças que a sociedade norte-americana sofreu naquela década, como a descoberta dos primeiros casos de câncer em fumantes. E chega de séries. Só acompanho essas seis mesmo, porque senão não sobraria tempo para as leituras.

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Um homem sério

 

Tenho lido muito sobre “Um filme sérvio” – violento, sem história etc. Está chocando meio mundo, segundo dizem, por causa de uma cena de estupro de um recém-nascido. Ainda não vi, mas vou ver em breve, embora ache que seja apelação. Ontem assisti a um filme dos irmãos Coen, “Um homem sério” e gostei muito. Tem uma história maluca, muito mais interessante do que a de “Onde os fracos não têm vez”. Aí pensei que é um filme doido e que só por isso vale a pena. É a história de um judeu, professor de física, pai de dois adolescentes estranhos. O Larry, o tal professor, enquanto tenta ser efetivado por uma universidade, faz exames de rotina e recebe a notícia de que sua esposa está apaixonada por outro cara, um indivíduo que quer ser amigo de todo mundo, inclusive dele. E o pior é que Larry é um sujeito irritante, porque não se revolta, aceita tudo com a calma dos justos, com a calma daqueles que pensam que é necessário sofrer aqui para ter prazer em outro lugar. E com o tempo ele vai provando que tem razão, as coisas começam a se ajeitar, a se resolver, de modo que fica sempre a pergunta: de que adianta espernear quando se está preso à teia e a aranha começa a rondar?

Foto e filme

Homem lança cadáver de criança em Porto Príncipe.

 

Ontem fomos ver “Biutiful”, magnífico. Todos já devem ter lido a respeito por aí, então não há muito o que falar da trama. Não penso que seja uma história triste, porque a realidade é, antes de tudo, forte, sombria e miserável. Quero comentar sobre o final do filme, porque foi o que me inquietou: Ige, a babá dos filhos de Uxbal, na minha opinião, foge com o dinheiro que o moribundo juntou durante anos para garantir o futuro das crianças. E a minha interpretação tem sua lógica: ela desaparece com a bolada, porque as pessoas são assim mesmo, egoístas, e ela precisava daquelas notas tanto quanto qualquer um. Indivíduos em um fórum de discussão no IMDb argumentam que não, que o filme seria soturno demais, que ela voltou para terminar sua função de guardiã dos meninos, blá blá blá. Mas é opinião de americanos e eles só gostam de narrativas com finais felizes e/ou esperançosos – não conta, portanto.

Anteontem saiu a lista dos vencedores do 54º Prêmio World Press de Fotografia e duas fotos me surpreenderam. Uma retrata o salto de um suicida em Budapeste e a outra, que achei mais contundente, mostra um homem lançando o corpo de uma criança em cima de uma pilha de cadáveres, em Porto Príncipe, no dia 15 de janeiro de 2010. A imagem mostra antes o descaso do mundo em relação ao sofrimento alheio e sugere, pelo menos para mim, já que foi feita por um europeu, o francês Olivier Laban-Matter, que a vida não tem mais valor nem sentido na sociedade de hoje, já que o desrespeito pelos mortos é um sintoma de que a vida não merece mais a nossa consideração. O sujeito que joga aquele corpo não tem culpa e aparentemente nem outra opção, já que o terremoto devastou a cidade, deixando milhares de mortos sem uma vala para ser enterrados. Parece-me mais ou menos justa esta análise, por isso me volto para o descaso do resto do mundo. E o fotógrafo, da mesma maneira, está ali para capturar uma cena que lhe dê algum prêmio e prestígio e não para ajudar a amenizar o sofrimento dos haitianos, o que pode ser paradoxal, pois, ao congelar aquele momento por meio da lente de sua máquina, cumpre também o papel de alertar a humanidade para a sua parcela de responsabilidade no drama de outros.

Mary e Max

Não acredito muito nessa história de filmes para as férias. Isto é, não funciona comigo. A lógica é que, durante as férias, as pessoas não queiram pensar muito e deixam o cérebro tirar uma folga também. Todos sabem que adoro stop motion, daí meu irmão me emprestou um filme bem legal, “Mary e Max”. O longa, além de tratar de relacionamentos entre pessoas solitárias, fala também de uma doença rara, a Síndrome de Asperger. A personalidade mais conhecida portadora da doença é o Nobel de Economia Vernon Smith, embora digam também que Einstein e Newton sofriam do mal. Os portadores do distúrbio apresentam uma alta resistência a mudanças e interpretam tudo ao pé da letra, características bem exploradas no filme. Excelente.

Ladrões

Ladrões de bicicleta

 

A primeira vez que vi “Ladrões de bicicleta” (Ladri di biciclette, 1948) foi com meu irmão e eu não tinha maturidade o bastante para ficar indignado com o que quer que fosse. Então revi o filme semana passada. Há uma cena, em que Antonio Ricci, o pai desempregado há anos dá um tapa na cara de seu filho, Bruno Ricci, que me deixou transtornado. Às vezes a gente quer transformar isso aqui num troço palatável, mas um tapa é um tapa e nós inoculamos uma morbidez beligerante em tudo que tocamos. Tenho lido o livro Pity the Nation e trabalhar com engenharia é muito cansativo – ter de publicar artigo é um negócio exaustivo. Ainda tem esse maldito curso de Pedagogia. Agora eu queria ver “Tropa de elite 2”, será que é tudo isso mesmo? Amanhã tenho estágio – a única coisa boa de acordar 5 da manhã é ver aquelas crianças. Estou trabalhando no conto “xiv” – preciso terminar o livro “sol entre noites” até fevereiro. Mais três contos e dá tudo certo.

Botecos

O que você faria?

Quando adolescente participava de um ritual, que hoje não sei se ainda existe. Todo sábado, algumas sextas e raros domingos, descíamos, eu e meu amigo libanês para o centro de Ituiutaba. Éramos muito novos, quinze, dezesseis anos, nossos pais não nos davam mesadas e se quiséssemos acompanhar o movimento da cidade, só tínhamos esta opção: permanecer de pé durante quatro ou cinco horas, conversando e observando as pessoas da calçada de frente para o boteco da vez. Os que chegavam cedo e conseguiam uma mesa geralmente consumiam dois ou três refrigerantes a noite inteira. Por isso a rotatividade desses bares era grande – casa cheia, mas pouca receita. Abria um, fechava outro e assim a vida útil dos estabelecimentos girava em torno de seis meses. Hoje não vejo muito isso por aí, parece que os jovens ganham mesadas mais polpudas e não precisam sair de casa jantados – podem comer fora.

Sessão filme: recomendo, por enquanto, “O que você faria?” (El método, Espanha, Argentina, Itália, 2005). Muito intrigante e engraçado. Sete executivos disputam uma vaga em uma grande empresa, que usa um enigmático Método Grönholm para selecionar seus candidatos. As quase duas horas do filme se passam  em uma sala (a menos de um ou outro trecho), onde cada um dos sete candidatos está de frente para um computador. Eles têm de passar por várias tarefas, cada uma delas elimina um concorrente. A primeira: há um infiltrante da empresa entre os sete, resta ao grupo descobrir de maneira unânime qual deles. Roteiro show.

Dúvidas

Drácula obeso

Após ver um trecho do filme “Drácula 2000”, cheguei sozinho à conclusão que nenhum dos livros e/ou filmes sobre vampiros conseguiu trazer o problema dessas criaturas para a realidade do século XXI. Ou seja, ninguém conseguiu atualizar o best seller de Bram Stoker, Drácula, publicado em 1897. Tá, teve uma Anne Rice, que tentou e tudo mais. Agora essa outra, Stephenie Meyer. Mas as criaturas retratas nestas obras são perfeitas demais e quando uma delas gruda no pescoço de um coitado, dá até vontade de estar no lugar da vítima. No longa citado acima, eu vi um vampiro beber o sangue de umas seis pessoas durante uma noite. Ora, um corpo normal tem, em média, 5 litros do tal líquido, o quer dizer que o sujeito ingeriu trinta litros do tal fluido valioso, o que equivale a, mais ou menos, trinta quilos de alimento. Tudo bem, o cara é sobrenatural, consegue comer desse tanto. Mas, e o problema da obesidade? Nunca vi um vampiro gordo na minha vida de leitor ou de espectador. Então, falta uma obra que aborde o lance do metabolismo, porque muito vampirólogo defende que é igual ao dos seres humanos mortais. Se a gente parar pra ponderar, o cara come a noite inteira e depois dorme durante doze horas, não dá pra aceitar que sejam tão magrinhos. Depois, por que vampiro precisa dormir o dia inteiro, se nós humanos não dormimos a noite toda? Vampiro sua? Tem chulé? Por que só existe vampiro que fala inglês? (Desculpe-me, André Vianco, não me esqueci de você, mas…) Bom, tudo isso é porque não quero falar de política, principalmente depois dessa caça às bruxas pós-censura ao Estadão. Por falar nisso, boa sorte e vida longa ao Noblat.

Quilômetro zero

Cartaz do filme "Quilômetro zero"

Ontem passou o filme “Os embalos de sábado à noite” (Saturday Night Fever, 1977) no TC Cult. É um clássico, já revi umas quatro vezes e não me canso de assistir ao (Tony Manero) John Travolta dançando na 2001 Odissey. A parte em que ele tenta estuprar a Stephanie (Karen Leen Gorney) no carro do companheiro e depois começa a ter um ataque de pânico, culminando com o acidente/suicídio do amigo Bobby, é fantástica, mesmo para as limitações do Travolta e do diretor John Badham da época. Aliás, existe um filme muito legal, Tony Manero, de 2008, sobre um serial killer obcecado pela dança que rolava na boate Odissey.

Sobre outro assunto, ontem resolvi fazer uma pesquisa na Internet a respeito da tilma de Guadalupe. É uma história impressionante. O problema é que a Internet não é uma fonta nada confiável para pesquisa e todas as informações que consegui foram em páginas religiosas. Para quem não sabe o que rolou, eis aqui uma página legal para lê-la. Só para fazer um resumo: a pintura impressa de Nossa Senhora no manto tem quase 500 anos, está flutuando a uma distância de 3 décimos de milímetros do tecido, se mantém à mesma temperatura do corpo humano. Os olhos da santa se comportam como um olho vivo e, quando aproximaram um estetoscópio da barriga da Nossa Senhora (sabe-se lá por que alguém teve essa ideia), perceberam um coração de criança pulsando 115 vezes por minuto. A tilma se encontra hoje na cidade do México e qualquer um pode vê-la.

Esta semana eu vi também o filme “Quilômetro zero” (Kilomètre Zero), que é muito bom. É sobre a recente guerra no Iraque. Um soldado curdo recebe a missão de levar o corpo de um companheiro para os familiares. Só que é uma viagem longa, que vai durar mais de um dia e o soldado morto viaja em um caixão que está amarrado ao teto de um carro. Há uma cena que é uma metáfora do que foi a devastação: os três (motorista, soldado vivo e soldado morto) precisam atravessar uma cidade para continuar a viagem. Só que há uma barreira e os responsáveis por ela não os deixam passar, pois os habitantes podem ficar deprimidos ao ver um morto pelo conflito passando. Então eles têm de esperar em um pátio. Ao se aproximarem do local em que deverão passar o dia (poderão atravessar somente durante a madrugada), veem dezenas de carros com caixões amarrados em seus tetos, esperando o momento de seguir viagem. Quando finalmente chega a hora, uma fila enorme, assustadora, de carros com caixões começa a andar e uma cidade preocupada, insone, presencia o cortejo. Só esta cena já vale o filme.

Ecologia

Avatar, de James Cameron

Sou prudente quando o assunto é este. Certo dia, conversando com um amigo, perguntei-lhe sobre essa história de alterações climáticas. Se isso não era cíclico, se em alguma outra época de sua história a humanidade não atravessou mudança semelhante. Fiz a mesma pergunta pouco antes a um especialista no assunto. Com o conhecimento de ambos, recebi a resposta que esperava: é possível. Sobre isso, a respeito da matéria de Pondé na Folha, o filme Avatar não é tão ingênuo assim não. Ali, ao contrário do que o articulista do jornal propôs, há uma violência no relacionamento com a natureza: é preciso matar para comer, por exemplo. O filme, visualmente, é deslumbrante. Cameron fez o que ninguém jamais havia feito em matéria de imagens. E cinema é, sobretudo, imagem. Penso que o que acontece é que o homem exagera em nome do capitalismo. Sempre faço um paralelo com o rato, que esgota os recursos de determinado lugar e se muda para outro. A questão é se o homem terá tempo de se mudar da Terra. Leio sempre por aí que o planeta está em um ponto chave – a decisão para salvá-lo tem de ser tomara agora. Mas quem disse que o planeta tem de ser salvo? Quem professou que o homem tem de ser salvo? Se realmente estamos nesta encruzilhada e é preciso tomar uma decisão, será que a resposta não é que está na hora de o homem ser extinto?