Tanussi Cardoso

Mês passado, quando estive no Rio, ganhei o livro “50 poemas escolhidos pelo autor”, de Tanussi Cardoso. Eu aprecio antologias, principalmente estas, cujos versos são selecionados pelo próprio poeta. Sou fã de Tanussi há muitos anos, acho-o um escritor de primeira e ontem quis começar o ano lendo algo de qualidade.

Diário

(Tanussi Cardoso)

É silêncio e teu ombro pesa.

Todos os teus murmúrios são inúteis
-mesmo a tua ida ao teatro.

Teu corpo
pregado numa cruz imaginária
foge de ti
e te acusa da febre que incendeia o quarto.
Os papéis sobre a mesa do trabalho
contam histórias tristes
e as borboletas nos lagos gelados têm mais vida.

É tudo simples: praias, serras, estradas,
carros, engarrafamentos, shoppings, sonhos:
a palavra é simples: a morte é simples:
as luzes dos altares nada queimam:
nos mármores das estátuas
quebramos nossos espelhos.

E tudo teima em te acusar: teu sexo estúpido,
teus amigos imortais, o amor que não consola,
a família nos retratos,
a faca suja na manteiga
que sangra o pão do dia.
Olhas da janela os pombos mirando os milhos;
olhas o namoro nos fios;
enganas teu rosto com tua paz suspeita.

Teu peito te trai. Teu poema te trai. Teu país te trai.
O olho enrugado te trai.
Teu jornal te faz de tolo.
Tuas guerras santas são falsas.
Teu cão te ladra.
Teu gato te arranha.

O sol entra em tua cama
e te cospe no rosto
o ofício de outra manhã
a cumprir.

É silêncio e teu ombro pesa.

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