O mito da igualdade

É lógico que ainda vivemos em uma sociedade machista e preconceituosa. Estava estacionando quando vi a batida: um carro entrava em uma oficina, sem dar seta. Ou seja: vinha a uma velocidade razoável e do nada resolve virar. Uma moto que seguia atrás acabou batendo na lateral do outro veículo. Até aí, acidentes acontecem, principalmente por imprudência. Só que o motorista do Fiat desceu avacalhando. Claro, assim que percebeu que quem dirigia a moto era uma mulher, se sentiu no direito de ignorâncias. Chegou impondo, gritando. A moça tirou o capacete, o pulso ralado, transtornada, pois havia caído no chão, a jaqueta rasgada. E falou alto também, mas na boa, reclamando que o sujeito só se preocupava com o carro e nem queria saber se ela havia se machucado. Verdade: ele só repetia que a porta estava toda amassada. E gritava, gritava, gritava. Queria a qualquer custo que a moça pagasse o prejuízo. Foi quando ela argumentou que ele não tinha acionado a seta. Aí, retomando o domínio de si, acrescentou que ligaria para o namorado, e sacou o celular. A partir de então, eu vi uma transformação no indivíduo imprudente: “ah, vamos deixar disso, fica por isso mesmo, tá tudo certo”. Como se ele percebesse, de repente, que o argumento do namorado da moça viria mais forte, porque era de um homem. E tremeu. De homem para homem, a questão era outra. A moça desistia de brigar. Se fosse adiante, ganharia o conserto de sua moto, bastante danificada com a batida. Devia ter ligado para a polícia, feito um B. O., colocado aquele sujeito em seu devido lugar de idiota.

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2 comentários sobre “O mito da igualdade

  1. Mulheres: metade vítimas metade cúmplices! Esta frase de J-P Sartre cabe em certa medida para sua crônica de hoje. A maioria das mulheres ainda teme consequências desagradáveis diante da possibilidade de tomar atitudes assertivas a seu favor diante da arbitrariedade masculina. A foto da ilustração completa o posicionamento sartreano. Obrigada por trazer a discussão a público!

    • Concordo, Josefina! Fiquei chateado quando vi que a moça não chamou a polícia, era o certo a fazer. Por outro lado há o medo da violência, sabe-se lá o que ela poderia sofrer ali, sem amigos. Abraços e obrigado pela visita.

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