Crimes literários

Lendo a resenha sobre o novo livro do Jô Soares, publicada ontem, na Folha de SP, comecei a pensar que a crítica nacional não tem coerência. O autor do texto desce a lenha no livro do Gordo, porque a obra aparentemente é muito didática. Bom, um dia, num sebo, li as páginas iniciais de “Xangô de Baker Street” e decidi que aquilo não era para mim. Mas acho que o Jô está no caminho certo – ele se preocupa com as vendas de seus livros, logo deve se preocupar com seus leitores e seus leitores são, na melhor das hipóteses, aqueles que veem seu programa. Ou seja: a classe média que acredita que, ao ler Jô Soares, está por dentro da literatura contemporânea brasileira. Daí que ele precisa do didatismo, senão não vende mesmo. Deve mastigar as citações para o leitor, que não faz muita ideia do que representa o rio Estige para a mitologia ou da importância de Caronte para aqueles que morrem. E nem querem se dar ao trabalho de pesquisar. É assim que se vende meio milhão de livros. Por outro lado, já li texto deste mesmo resenhista e de outros mais ou menos importantes do que ele, reclamando de livros herméticos demais, quase ininteligíveis. É aí que entra, talvez, para estes resenhistas, uma obra de uma Isabel Allende, que nunca chegará a Roberto Bolaño, mas também não faz feio frente a um Antonio Skármeta. E não fere o ego de ninguém.

 

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