Marketing agressivo

Em época de Flip, andar pelas trilhas da cidade histórica de Paraty, da pousada até as tendas do autor, é uma empreitada, digamos, um pouco espinhosa. Não bastassem aquelas pedras enormes socando os tornozelos a cada passo, havia os vendedores. Bom, já escrevi aqui que muitas vezes acabo vestindo uma camisa furada ou calçando um tênis estropiado só para não ter de encarar uma negociação em alguma dessas lojas de shopping center. Daí, imaginem a minha reação ao ser interpelado a cada vinte e dois segundos. Primeiro, fui atencioso. Parei, ouvi, comprei. Não tinha vencido uma esquina e já estava com três livros autografados debaixo do braço. O prejuízo girou em torno de 45 reais. Não vou entrar no mérito da qualidade literária das minhas aquisições para não magoar vaidades mais sensíveis. Se eu continuasse assim, chegaria atrasado para a mesa do Andrés Neuman e correria o risco de me ver sem dinheiro para as lembrancinhas da Festa, que também não estavam a preços católicos. Virei para minha esposa e a persuadi a me seguir: dali em diante seríamos alemães. Como somos muito brancos, não seria inverossímil a farsa. Se alguém nos oferecesse alguma coisa, responderíamos, altivos: Ich weiß nicht Portugiesisch sprechen. Dificilmente alguém entre aqueles mercadores de versos nos compreenderia. Por ter convivido, durante minha infância e adolescência, com turcos e libaneses, deveria ter desconfiado de minha tática. Não lhes importava se éramos alemães. Poderíamos ser iranianos, afegãos, holandeses: a língua dos gestos é universal. Assim, vimo-nos forçados à falta de educação. Se quiséssemos chegar a algum lugar com o mínimo de dignidade no semblante, teríamos de ignorar todo aquele que tentasse nos deter. Deveríamos duvidar daquele mantra: bom dia, gosta de poesia? Até hoje ando ressabiado com qualquer um que me deseje bom-dia assim, sem mais nem menos.

Mas o melhor da Flip são as filas de autógrafos. Delas, já saí com vários amigos. Como em toda fila, ali se fala do tempo e de outras superficialidades. Mas também se discutem livros, que muitas vezes ninguém leu ou lerá, mas se discute assim mesmo. E isso torna mais interessantes esses aglomerados organizados de gente. De modo que podemos nos rebelar em uníssono contra a má-vontade de um João Ubaldo ou contra a pieguice de um valter hugo ou contra a carranca de um Lanzmann ou contra os preços dos livros, das comidas, e assim por diante. Alguém poderá argumentar que ninguém é obrigado a ficar ali, debaixo ou ao lado de um vento de 40 km/h estapeando a 5 graus celsius, certo? Errado. Todos somos obrigados pelo vício. Tudo para que possamos ter em casa um objeto que somente outras quinze mil pessoas possuem. Para podermos mostrar aos nossos colegas que, depois de encararem, amebianos e indiferentes, aqueles rabiscos quase indecifráveis na folha de rosto de algum calhamaço, soltam: você tem também uma camiseta autografada da seleção? Não explicamos o vício nem tantamos compreendê-lo, apenas o fomentamos da melhor maneira possível, para que possamos continuar a convivência mais ou menos pacífica com o resto da humanidade. De modo que todos já sabem a resposta que dou quando me perguntam se já li todos os livros que possuo, certo?

 

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2 comentários sobre “Marketing agressivo

  1. Bem feito, quer ser escritor, tem de estar nesse meio caro pra caramba, como dizemos aqui no Sul. Mas o que nos resta, colega? Em agosto será assim em Passo Fundo na Jornada Nac. de Literatura. Você vem? Estarei lá, com muito menos fama, é claro e bem alemão mesmo. E não vai poder me enganar. Venderei também em alemão, kkkkk. Abraço.
    Roque

    • Roque, não precisaria nem me parar. Eu iria até você para lhe comprar seu livro. O problema é que o material que estava sendo vendido nas ruas de Paraty é que era de qualidade duvidosa. Abraço, camarada!

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