Outro miniconto meu

IngSoc 1984

Estado de direito

Quando o telefone se agitou em solavancos incisivos, persistentes, ele não imaginava que seria o patrão intimando-o para uma entrevista. O que poderia ter importância às cinco da tarde de uma sexta-feira? A terceira sala à esquerda de quem segue, do almoxarifado rumo ao banheiro, era temida: ninguém nunca saiu de lá contente. O gerente começou assim: então, você sabe né, essas manias da geração Y, esse negócio de considerar que a tecnologia faz parte da vida, você sabe, né, não é bem assim, de modo que, enfim, eu li o seu último post, de ainda há pouco, o das 15:32. Depois, contemplativo, o chefe prosseguiu: já avisei que isso de assunto pessoal no horário de trabalho não é uma boa, blog é tarefa para casa, mas tocamos na base da vista grossa. Só que divulgar às 15:32 que chegamos ao final de semana não é uma boa. Convocar, em uma página pública, os colegas para uma cervejinha às 17 horas, “assim que o sinal tocar e a gente abandonar os aquários”, não é de bom tom. Depois repetir a mensagem no seu Twitter? É um pouco demais, né? Nossa empresa sempre se prezou pela discrição. De modo que, é isso, não quero mais tomar seu tempo, enfim, tem a happy hour, né?, então já pode ir, seus colegas devem estar esperando. E segunda-feira você passa no RH para acertar suas contas. Não é nada pessoal, você sabe, né?, a empresa em recessão, os cortes são inevitáveis. É essa história de globalização, você já deve ter ouvido falar.

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