Outro miniconto meu

Escultura "O beijo da morte", que está no Cemitério de Poblenou.

O fim

 Não sei se para esconder as pernas, que escapuliam da saia, da anágua e de um e outro tecido que atravancavam a liberdade da pele, não sei se para disfarçar o mau-cheiro oriundo da fralda suja, mas cobriram-na até a cintura. O lençol abafou um pouco a pestilência que se espreguiçava pelo quarto há três horas ou mais, só que o ambiente ainda podia ser considerado insalubre. Não havia como ou por que consolar quem quer que fosse: o desfecho se daria em breve. Foi surpreso que ouvi a queixa, articulada num timbre de ameaça, numa entonação grave demais para a fachada de perpétua serenidade: “Não quero morrer”. Reiterou: “Não quero morrer”. E me pareceu que, quanto mais repetisse, mais morreria. E eu atesto: era angustiante presenciar aquela covardia em uma senhora de cento e três anos, que defendera durante toda a sua longa vida que ninguém nesta Terra jamais ficou para semente, para apagar a luz ou para contar a história.

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