Foto e filme

Homem lança cadáver de criança em Porto Príncipe.

 

Ontem fomos ver “Biutiful”, magnífico. Todos já devem ter lido a respeito por aí, então não há muito o que falar da trama. Não penso que seja uma história triste, porque a realidade é, antes de tudo, forte, sombria e miserável. Quero comentar sobre o final do filme, porque foi o que me inquietou: Ige, a babá dos filhos de Uxbal, na minha opinião, foge com o dinheiro que o moribundo juntou durante anos para garantir o futuro das crianças. E a minha interpretação tem sua lógica: ela desaparece com a bolada, porque as pessoas são assim mesmo, egoístas, e ela precisava daquelas notas tanto quanto qualquer um. Indivíduos em um fórum de discussão no IMDb argumentam que não, que o filme seria soturno demais, que ela voltou para terminar sua função de guardiã dos meninos, blá blá blá. Mas é opinião de americanos e eles só gostam de narrativas com finais felizes e/ou esperançosos – não conta, portanto.

Anteontem saiu a lista dos vencedores do 54º Prêmio World Press de Fotografia e duas fotos me surpreenderam. Uma retrata o salto de um suicida em Budapeste e a outra, que achei mais contundente, mostra um homem lançando o corpo de uma criança em cima de uma pilha de cadáveres, em Porto Príncipe, no dia 15 de janeiro de 2010. A imagem mostra antes o descaso do mundo em relação ao sofrimento alheio e sugere, pelo menos para mim, já que foi feita por um europeu, o francês Olivier Laban-Matter, que a vida não tem mais valor nem sentido na sociedade de hoje, já que o desrespeito pelos mortos é um sintoma de que a vida não merece mais a nossa consideração. O sujeito que joga aquele corpo não tem culpa e aparentemente nem outra opção, já que o terremoto devastou a cidade, deixando milhares de mortos sem uma vala para ser enterrados. Parece-me mais ou menos justa esta análise, por isso me volto para o descaso do resto do mundo. E o fotógrafo, da mesma maneira, está ali para capturar uma cena que lhe dê algum prêmio e prestígio e não para ajudar a amenizar o sofrimento dos haitianos, o que pode ser paradoxal, pois, ao congelar aquele momento por meio da lente de sua máquina, cumpre também o papel de alertar a humanidade para a sua parcela de responsabilidade no drama de outros.

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