Ainda geração

Geração Y

No prefácio da vigésima-sexta edição de “Raízes do Brasil”, Antonio Candido defende:

A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair em autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais de sua época. Então, registrar o passado não é falar de si; é falar dos que participaram de uma certa ordem de interesses e de visão do mundo, no momento particular do tempo que se deseja evocar.

Esta parece ser a ideia de geração difundida e defendida hoje pelos teóricos no Brasil. Ora, está claro, segundo Antonio Candido, que, para caracterizar uma geração, há a necessidade de existir o distanciamento temporal. Hoje, seguindo este raciocínio, talvez fosse possível discutir a Geração 1960 ou talvez a Geração 1970, mas jamais a Geração 1980, muito recente ainda. Evidente está também, de acordo com o catedrático, que as características individuais devem dar lugar ao conjunto, ao todo. Em uma geração literária talvez isso corresponda a esquecer os estilos e a considerar que Luiz Vilela e Sérgio Sant’Anna escrevem de maneira muito parecida. Ou mesmo argumentar que os temas escolhidos pelos dois é o mesmo. Nenhuma das duas hipóteses é verdadeira, como qualquer leitor de literatura brasileira pode comprovar. Assim, a Geração 1960, a que os dois pertencem, passa a ser exatamente o que é a Geração zero zero: um retrato de seu tempo. Talvez ambos se “dissolvam nas características gerais de sua época” simplesmente porque o tema geral, com o qual certamente se ocuparam em algum instante de suas obras, era o mesmo. E era o mesmo porque ambos começaram a escrever na mesma época. Mas, ainda podemos considerá-los Geração 1960, uma vez que continuam a produzir obras cada vez mais díspares com o que foi a suposta concepção de 1960? Está claro para mim o que ocorre. Quando Nelson de Oliveira resolveu, pouco depois de finda uma década, produzir um retrato da década, levando em conta principalmente o  fato de autores produzirem seus primeiros livros em uma mesma época, ele antecipou um trabalho que era para ser feito por teóricos daqui a 80 ou 90 anos. E isso gera ciúmes.

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