Há vagas

Estacionamento democrático

Trabalhando na Europa, um amigo meu ia de carona todos os dias de casa até o trabalho. Primeiro dia no novo emprego e já era convidado a dividir um carro: um colega passaria em sua casa. Um dia chegaram mais cedo, bem mais cedo e o estacionamento, enorme, estava praticamente vazio. Era possível escolher um excelente lugar, mas seu companheiro resolveu parar o carro bem longe, quase no extremo oposto à porta de entrada. Ora, este meu confrade não se conteve e questionou o francês: por que é que você parou tão longe, com tanta vaga melhor? A resposta o deixou desarmado e envergonhado: ainda tinham tempo para caminhar, mas os colegas que viessem a partir dali não conseguiriam bater o ponto na hora correta se tivessem de andar tanto. O fato de a história ter como palco a Europa não quer dizer nada: é somente um dado. Poderia ter sido aqui no Brasil, na Argentina, em qualquer lugar.

Recordei-me desta história ao ler ontem uma notícia no jornal, a respeito de um delegado que agrediu um cadeirante. Não é coisa rara de se testemunhar. Nem aqui e acredito que nem na Europa. Vejo duas, três, quatro vezes, todos os dias, um indivíduo que não é portador de necessidades especiais estacionar numa vaga preferencial. Um pavio menor e pronto, o resultado pode ser até morte. Se houvesse fiscalização, deveria ser aplicada a penalidade prevista no artigo 181, inciso XVII do CTB. Mas não há, porque não há dinheiro em jogo. Eu já disse e volto a repetir: tenho medo de qualquer pessoa armada – bandido ou mocinho. Não vi, mas os jornais divulgaram certa vez, em uma cidade do interior paulista, um tiroteio por causa de uma vaga em um shopping center.

Eu acho que o Estatuto do Idoso é um negócio maravilhoso, que não precisaria existir se a humanidade não fosse o que é. Este estatuto prevê a reserva de 5% das vagas em estacionamentos públicos e privados para pessoas com idade mais avançada. Nada mais justo e correto. Muita gente torce o nariz, outro tanto desrespeita, mas um dia o negócio pega. Tudo é muito recente ainda, as leis, os decretos, têm dez anos ou menos. Brasileiro é meio devagar, mas acaba aprendendo. Por via das dúvidas, eu tomei para mim a lição do europeu do início do post: sempre estaciono o mais longe possível da porta de entrada de qualquer local, assim tenho certeza que não provoco ninguém e faço minha parte para não levar um soco gratuitamente ou um tiro ou sofrer um derrame ou um ataque cardíaco por causa de uma discussão mesquinha, que só afiançaria que a sociedade não tem solução.

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