Zagreus

Zagreus

Zagreus

Quando lhe pedi de presente um gato, eu acrescentei que preferia um persa. Não por frescura, mas porque havia lido que os filhotes dessa raça não se importavam com a vida em apartamentos. Eu já sabia que o nome dele seria Zagreus, minha dúvida é se acrescentava o sobrenome Mersault. Não acho muito correta essa história de humanizar bichos de estimação, por isso não levo Zagreus para tomar banho em pet shops. Já que gatos não curtem água, ele só é forçado a encarar o chuveiro uma vez ao ano. Às vezes menos. E isso só porque de vez em quando eu o deixo correr na grama aqui do condomínio e ele acaba trazendo alguma pulga escondida no pelo. Também não corto suas unhas. Nunca pensei em colocar qualquer tipo de roupinha nele, mesmo no inverno. Bicho é bicho e tem o direito de ser bicho. Isso não quer dizer que eu o ache inferior a qualquer ser-humano: coloco-o em pé de igualdade.

Costumo me recordar do amor que o escritor Fernando Vallejo tem pelos animais.

Em Ituiutaba já ouvi alguns sermões: “em vez de cuidar de um gato, por que não adota uma criança?” Não vou discutir o mérito filosófico ou moral desse disparate. É que eu tive alguns amigos nesta vida. E ainda possuo alguns, quero crer. Um deles foi assassinado por um filho adotivo. Óbvio, o que não quer dizer que filho natural não mate os pais também. O que não quer dizer também que filho natural não ame os pais e que filho adotivo não ame os pais. É só que eu fiquei com esse trauma, que não consigo (e nem quero) superar. Outro dos amigos que tive também foi assassinado. Só que por um malandro que lhe pediu carona em um posto de beira de estrada. Por isso eu não dou carona a desconhecidos e muita vezes nem a conhecidos. Penso que ter esses problemas é bom, porque me mantêm atento.

Mas moralismo é coisa de cidade pequena e eu amo as cidades pequenas justamente porque podemos nos defrontar com preconceitos e nos lembrar que também somos preconceituosos e arrogantes. Nas metrópoles só existem pessoas civilizadas e deve ser por isso que nas cidades grandes eles cortam as cordas vocais dos cães que moram em apartamentos: porque os vizinhos não desejam ser incomodados com latidos. Essas modas que começam nas megalópoles e se alastram para o interior me assustam e luto contra elas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s