Sobre grávidas e ardísias

ardisia

Sabe quando você entra num coletivo e de repente consegue achar um lugarzinho vago lá no fundo, meio escondido por algum jornal ou por um passageiro com sono ou por uma secretária com um fone de ouvido conectado a um celular com mp3? Aí você corre e se senta lá, pedindo desculpas para a pessoa ao lado, pisando no pé de alguém e finalmente alcançando o banco para uma viagem mais sossegada. Aí o coletivo começa a encher, os escritórios vão cuspindo os funcionários no final do expediente e as pessoas se amontoam, porque viram num comercial uma vez alguém dizer que sempre cabe mais um e a televisão é uma entidade que nunca mente, como o padre ou o pastor da mais recente igreja. Daí, claro, aparece uma jovem senhora, de idade incerta e enganosa, com uma camiseta baby look que deixa metade da notável barriga a ver navios, passando frio. E agora? Está grávida ou não? Na dúvida, você resolve ficar no seu canto e seja o que Deus quiser. Mas o mundo está lotado de marmanjos e marmanjas politicamente corretos, que se acham no direito de ter direito em um país como o nosso, e um deles (de pé e com inveja daqueles que se sentaram) me cutuca, cochichando: “aí, não vai dar o lugar pra moça, não?” Meço o tamanho da boa alma e decido que dá pra ignorá-lo. Mas ele não fica satisfeito, né? Quer ser o benfeitor da humanidade, o novo Batman tupiniquim, novo Ronaldo Fenômeno. Provoca, bem alto, até o motorista consegue escutar: “aí, moça, a senhora não quer se sentar aqui?”, apontando meu assento. Fico quieto e Deus é bom e às vezes justo, já que ela pergunta: “Por quê?” “Aí, a senhora tá grávida, tem prioridade.” Prioridade, onde é que ele aprendeu a palavra, eu me questiono. Até a redenção: “Não, não, eu não tô grávida não.” Pronto, eu tenho meu conforto preservado e todos olham não para o sujeito, mas para a moça, analisando o tamanho do estrago que aqueles pastéis fora de hora fazem na silhueta dos outros. Mas, é claro que ele não aprende e no próximo ônibus que terá de pegar vai fazer a mesma coisa quando aparecer uma gordinha na sua frente.

Domingo eu comprei uma ardísia, uma planta também conhecida como café de jardim. Dou nome a todas as minhas plantas – Afif, Astum, Wadiha, Factótum e assim por diante. Mas travei com a ardísia e ainda não consegui batizá-la. Aceito sugestões.

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2 comentários sobre “Sobre grávidas e ardísias

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