FLIP 2009

É só pisar em Paraty (é, eles preferem com y mesmo) para perceber que a FLIP já não é mais a mesma. Muita gente pela cidade, as pousadas que não têm dó do turista e cobram os olhos da cara (os dois olhos – sem miopia, sem estigmatismo, sem catarata. Prontos para o transplante.), os ingressos que se esgotaram em menos de um minuto. Não se anda mais pela cidade sem se trombar com alguém e sem que um vendedor ambulante o chame para vender alguma coisa – livro editado por conta própria, CD idem, papel higiênico idem. Até os índios resolveram pedir quinze reais por uma pequena onça de madeira. Nos bares de cerveja a 5 reais mais 10% do garçom a turminha badala – os mesmos do ano passado acrescidos de algum novo baladeiro. A balada literária é em Paraty. Estão vendendo tudo e o negócio é o seguinte: ou você ignora e passa sem olhar para o lado ou então se prepare para ouvir papo de vendedor a cada meia esquina. Não, não se respira literatura, é mentira. Respira-se comércio. Na livraria exclusiva que ficava ao lado da tenda dos autógrafos, livros caríssimos. Os autores se negando a autografar para mais de cem pessoas e mesmo assim só queriam assinar o nome, sem dedicatória, sem nada. Só o nome. Que pode ser falsificado por qualquer criança de quinze anos. Na livraria da cidade os livros saíam bem mais em conta, além de se conseguir um desconto de 10% nas primeiras compras. Chorando, o desconto era maior. Eu preferi as edições em inglês, que saem mais baratas do que as em português. Sem falar, claro, que, em caso de traduções, são melhores. Edna O’Brien, Gay Talese e Anne Enright no original. Preferi as traduções de Xinran e Ma Jian para o idioma de Shakespeare. Enquanto as edições brasileiras eram encontradas a mais de 60 reais, as inglesas estava a menos de 50. É, livro no Brasil é caro. E muita gente não compra livro porque é caro. Não adianta chorar dizendo que brasileiro lê pouco. Se lê pouco, é culpa também do preço. Um livro do Bellatin, mal e porcamente editado pela Cosac, fininho, não era vendido por menos de 39 reais. Basta ver o sucesso que vem fazendo a Estante Virtual. O que mais ouvi nas filas de autógrafos é que esse sebo é a maior descoberta literária no Brasil nos últimos cem anos.

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