Ignorância

Postado em Cotidiano em 16/11/2009 por whisner fraga
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Falar, ouvir e ver

Outro dia li um trecho de uma entrevista com uma dessas garotas ex-Big Brother, que se empregou como atriz. Ela afirmava que o interior a havia deixado ignorante e que, ao se mudar para o Rio de Janeiro, corria atrás do prejuízo, frequentando o teatro, cinemas e se informando. Fiquei pensando durante vários dias naquelas respostas que têm tudo para convencer algum leitor descuidado. Há muito que discutir sobre tal declaração. Primeiro: morar na capital não garante sequer o acesso à cultura – ingressos para o teatro, cinema, shows musicais, espetáculos de dança etc., estão caros. Além disso,  os locais que oferecem cultura não são de fácil acesso para quem mora nos famosos subúrbios (banlieues, para ser chique, ou taudis, para ser realista). Para uma atriz de uma grande emissora, estas pedras no meio do caminho são pequenas demais para ser consideradas empecilhos. Por outro lado, há quem mora no interior, acusado de ignorante.  Outro problema. Victor Hugo ou Charles Baudelaire viveram em uma Paris que era muito menor do que inúmeras cidades brasileiras do século XXI espalhadas pelo interior. Ok, tinham acesso ao teatro e a outras formas de cultura. Se fizermos um paralelo entre as tecnologias da época e as de hoje, não tenho receio de arriscar um palpite: em termos de disponibilidade de bens culturais, hoje as cidades do interior são muito mais avançadas e oferecem muito mais recursos do que uma Paris de 1840, que deu ao mundo tantos gênios. A oferta de peças de teatro, de shows musicais, de filmes, de espetáculos, de maneira geral, é indescritivelmente maior nas capitais (São Paulo e Rio de Janeiro), mas esta disponibilidade não pode ser confundida com qualidade. No fundo, só há um pequeno número de shows, peças, vernissages, lançamentos de livros, que compensariam culturalmente o esforço para se chegar até eles. Os 98% restantes são o mesmo lixo que chegam para o resto do mundo e vêm do mesmo lugar. Mas foi outra frase da tal atriz que me deixou intrigado: ela revelou que somente agora, por morar na capital, está lendo determinados livros, porque no interior não os encontrava. Acredito que tudo neste mundo depende do interesse de cada um. Hoje qualquer pessoa encontra o livro que desejar a poucos cliques de sua casa. Tempo e disponibilidade para leitura são outro capítulo. Não quero neste espaço defender o interior provinciano e mesquinho, só quero afirmar que a mediocridade é uma virtude genuinamente humana e que 98% das criaturas deste planeta dela partilham sem o menor pudor ou dor de consciência. E também que não basta viver numa megalópole para ser culto e que não é suficiente morar no interior para ser ignorante – essas coisas são relativas.

Morte e poesia

Postado em Cotidiano, Literatura em 29/10/2009 por whisner fraga
solanotrindade

Solano Trindade

Ele trabalha em uma garagem de automóveis – compra e venda de carros usados. A loja fica ao lado de uma funerária. Hoje eles velam os mortos neste lugares. Há pouco tempo o velório era na casa do morto, o que era algo meio mórbido, já que as pessoas passavam a noite inteira com o defunto na sala. Não sei como encaravam o cômodo no dia seguinte ao enterro, mas devia ser um negócio bem estranho. Então, todo fim de tarde tem velório na funerária que fica ao lado da garagem. E ele vai até lá, pega um punhado de pão-de-queijo, biscoito e um pouco de café e leva para o dono da loja de carros usados, que não sabe de onde vem a comida, mas come mesmo assim. Além de pegar o lanche emprestado do morto, o empregado também deixava um cartão do dono da garagem de automóveis dentro do paletó do finado. E cochichava: “recomende o chefe lá em cima”.

Solano Trindade não tem nada a ver com essa história. Mas como faz tempo que eu não escrevo nada aqui, deixo uns versos deste poeta meio esquecido.

 

Rio

 

Rio meu de muito tempo

já muito o tenho sofrido

e muito o tenho gozado

 

Nunca me banhei no Copacabana

nunca fui ao Corcovado

nunca fui ao Pão de Açúcar

por tudo quanto é sagrado

 

As mulatas do Catete

meio escravas

meio senhoras

não dão bola pra mim.

 

Das favelas sem beleza

saem sambas bem bonitos

das favelas miseráveis

sai uma beleza de samba

 

Dormi no albergue noturno

sonhei com a amada distante

fui preso incomunicável

na rua da Relação

 

Na Lapa nunca fiz ponto

não fiz ponto no Leblon

As operárias têxteis

coitadas vestem tão mal

O tecido que elas tecem

não é delas, é do patrão.

Elas andam no meu trem

tão de noite tão de noite

que o poeta pode vê-las

cansadas de trabalhar

 

Eu vou sempre à macumba

não é por religião

é por amor às mulheres

esses cavalos de santo

bem carioca da gema

 

Tanto se joga porrinha

neste Rio de meu deus

que parece exercício

pra saudação do futuro…

 

Copiei esta poesia do livro “Poemas antológicos”, de Solano Trindade (1908 – 1974), publicado pela Nova Alexandria, em 2008.

Praça

Postado em Literatura em 22/10/2009 por whisner fraga

Celso, Álvaro e Cagiano na praça

Celso, Álvaro e Cagiano na praça

Neste sábado, dia 24 de outubro, lerei algumas poesias na Praça Benedito Calixto, em São Paulo, a partir das 14 horas, ao lado do Álvaro Alves de Faria, Celso de Alencar e Ronaldo Cagiano, no projeto “O autor na praça”.

Dia do professor

Postado em Cotidiano em 16/10/2009 por whisner fraga
St Martyr Eugenius

St Martyr Eugenius

É preciso acabar com o mito: não é qualquer pessoa que pode exercer a docência, não bastam boa-vontade e um pouco de dom. Também o professor não é nenhum sacerdote, é interessante que se lembre. A docência é uma carreira que exige competências próprias, que são adquiridas em cursos de formação. Este é um dos requisitos para que a carreira seja valorizada e para que os profissionais consigam ganhar um salário justo. Não basta ter dom para ser o guia de uma criança no seu processo de aprendizagem, é preciso conhecimento, experiência, leituras, muitas leituras, é necessário que se adquira em uma universidade os requisitos para o exercício competente da profissão. Por isso não comemoro essa bobagem de Dia do professor, é mais uma data para enaltecer e perpetuar a ideia do sacerdócio – enquanto a sociedade ainda enxergar o professor como um santo que doa o seu carinho e esforço às crianças em troca de esmolas, a educação brasileira não avançará.

Feriado

Postado em Cinema em 14/10/2009 por whisner fraga
The hangover

The hangover

Fui para Uberlândia neste final de semana prolongado e vi um filme engraçado: “Se beber não case”. É, eu sei, o título não ajuda muito, pra variar. Em inglês é “The hangover” (A ressaca), que fica melhor. Mas o negócio é que o título precisa ter aquele poder de atrair um público maior para as salas e convenhamos, com “A ressaca” fica difícil. Claro, é um filme muito mediano, pra passar o tempo mesmo. Mas a história até que convence. Quatro amigos vão para Las Vegas curtir a despedida de solteiro de um deles. Só que um dos loucos compra “Boa noite Cinderela” no lugar de Exctasy e mistura na bebida de todos. Ao acordarem no dia seguinte no hotel, há um tigre preso no banheiro e uma galinha ciscando pelo carpete. Ninguém se lembra de nada e, além disso, o noivo sumiu. Os três amigos vão passar o dia tentando descobrir o que aconteceu na noite anterior, enquanto procuram pelo amigo desaparecido. A comédia garante algumas risadas.

Ignorância

Postado em Literatura em 08/10/2009 por whisner fraga

herta-mueller-atemschaukel

Herta Müller venceu o Nobel de Literatura. Mas quem é essa mulher? Uma matéria do jornal Estado de São Paulo nos dá umas dicas. Parece que seu primeiro livro foi publicado com cortes, por causa da censura, o que é um prato cheio para a academia sueca, cujos critérios de seleção sempre passaram pelas questões humanitárias ou de militância política. Já encomendei dois livros dela: “O compromisso”, editado pela Globo. O único aliás, traduzido aqui no Brasil. Comprei também “O homem é um grande faisão sobre a terra”, que saiu em Portugal pela Cotovia.

Gift laden

Postado em Cotidiano em 05/10/2009 por whisner fraga
Marx

Marx

Um tal de Nicolas Arjona, alemão de 43 anos, resolveu montar uma loja diferente, em Berlim: uma loja que não tem como objetivo o lucro. Li hoje no G1.  Não é como naquele restaurante em que o sujeito paga o que quer. É diferente. Na Gift Laden, o sujeito não precisa pagar nada e pode levar para casa até três produtos (todos usados, claro). Uma placa no interior do estabelecimento adverte: leve somente aquilo de que você realmente precisa. Parece absurdo, não? Sim, para nós, brasileiros, parece sim. Mas na Alemanha funciona. Primeiro, aqui em nosso país de pobres, muita gente necessita de muita coisa. Segundo, muita gente quer sair no lucro o tempo todo. A lojinha ficaria sem produtos logo no primeiro dia. Imagino filas e filas esperando as portas abrirem, mendigos acotovelando estudantes, a classe média querendo se aproveitar das boas intenções de algum marxista. Ia dar polícia. Na Alemanha o sujeito escolhe um, dois, até três produtos e deixa um Euro em troca, doação voluntária, não obrigatória. Aqui o espertinho sairia com um ventilador debaixo do braço para anunciar por 20 reais no primeiro jornal gratuito de classificados. O marketing no Brasil é violento (não à toa um dos melhores do mundo) e a luta contra o consumo é inócua. Nosso povo não tem senso crítico (parece que o Falabella disse em um episódio de um desses programas dele que o telespectador brasileiro tem mentalidade de cinco anos – li num jornal e ninguém reclamou) e um comercial é um prato cheio pra essa fome de ignorâncias. Mas agora nós somos o país das Olimpíadas (não de atletas, bem lembrado), do Futebol e da Copa do Mundo e tudo vai ser diferente. Nós agora emprestamos dinheiro ao FMI e os 90 milhões de coitados que podem cair em extrema pobreza não cairão, porque o mundo será um lugar melhor, se Deus quiser e Ele quer, porque é Brasileiro.

Biografias

Postado em Literatura em 30/09/2009 por whisner fraga

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Uma matéria hoje veiculada hoje pelo Estadão, sobre a publicação de biografias, me levou a pensar a respeito do assunto. O texto trata de um livro que o jornalista Paulo César de Araújo vem escrevendo há cinco anos sobre a vida de Raul Seixas. Vou tentar ver os dois lados da moeda. De uma banda, uma das ex-mulheres de Raulzito tenta barrar o lançamento da obra, alegando que  a biografia não foi autorizada. O jornalista contesta alegando que ele mesmo a entrevistou algumas vezes e que ele não a reconhece legalmente como mantenedora do patrimônio de Raul Seixas. Alguns fatos: a tal ex-mulher ganha a vida há vários anos cuidando do legado do cantor, dá palestras sobre a obra do ex e tal. Ora, se o livro manchar muito a imagem do Raul, pode ser ruim para os negócios dela. Há pouco tempo uma biografia do rei Roberto Carlos foi censurada. O jornal Estado de São Paulo vem dando destaque a tudo quanto é matéria relacionada a censura, porque ele próprio foi censurado no caso Sarney. Ou seja: é fato que a censura à imprensa voltou à pauta de discussões da intelectualidade brasileira. O jornalista Paulo César tem seus interesses, lógico. Ao biografar Raul Seixas espera ganhar dinheiro, espera transformar seu livro em best seller, espera ser convidado a dar palestras pelo país e amealhar uma graninha. Não há nada de errado nisso, claro. Mas é bom manter em vista que ninguém está defendendo o pão por puro altruísmo.  Daí que a ex e a filha reclamam que o biógrafo quer saber só dos podres do Raulzito. Ora, em várias entrevistas que a ex deu para a imprensa, ela expõe em detalhes a sociedade alternativa de Raul, bem como a vida íntima dos dois. Então qual o problema? A censura.

Nada de novo sob o sol

Postado em Cotidiano em 25/09/2009 por whisner fraga
Sol

Sol

Primeiro o show do Ney Matogrosso. O teatro estava cheio, o que prova que há lugar para a música de qualidade também, a despeito dos preços salgados dos ingressos. Aliás, sal necessário, uma vez que os artistas têm de arranjar um outro jeito para manter a adega em dia com os vinhos do Porto. Essa história de download fez com que o cantor polarizasse seu lucro nos shows. Interessante também. Sentamo-nos na primeira fila. Acordei às quatro e meia da manhã. Resolvei não ir ao Correio, pois a greve normalmente acarreta alguns extravios de correspondências. Li a Folha de São Paulo, o Estadão e o jornal A cidade. Interessante o artigo do Jorge Zaverucha, sobre a crise em Honduras, publicado na Folha. Depois fui ver a entrevista que a Carla Dias deu ao Ralph, da clictv. A Nina, uma das gatas que vive com a gente, veio dormir no meu colo. Depois uma pizza foi pro forno – não tenho o hábito de comer massas, mas estava com preguiça para ir ao restaurante sozinho. À tarde, acabei comprando uns cogumelos e um salmão e daqui a pouco vou matar a saudade de comida japonesa. Corrigi uns textos, avancei um pouco em um conto, revisei algumas páginas, li umas centenas de parágrafos sobre democracia e já é noite. Daqui a pouco vou abrir um vinho. Ontem, no supermercado, uma vendedora me ofereceu uísque. Faz bem uns cinco anos que não experimento uísque e não estou com muita vontade. Se alguém me perguntasse: “e aí, alguma novidade?”, eu responderia: “não, nenhuma!”

Postado em Literatura em 22/09/2009 por whisner fraga

Gabriella Cleuren - Les tourments de la nuit

Gabriella Cleuren - Les tourments de la nuit

confidência é essa traição enjaulada arranhando as grades da calma