
Solano Trindade
Ele trabalha em uma garagem de automóveis – compra e venda de carros usados. A loja fica ao lado de uma funerária. Hoje eles velam os mortos neste lugares. Há pouco tempo o velório era na casa do morto, o que era algo meio mórbido, já que as pessoas passavam a noite inteira com o defunto na sala. Não sei como encaravam o cômodo no dia seguinte ao enterro, mas devia ser um negócio bem estranho. Então, todo fim de tarde tem velório na funerária que fica ao lado da garagem. E ele vai até lá, pega um punhado de pão-de-queijo, biscoito e um pouco de café e leva para o dono da loja de carros usados, que não sabe de onde vem a comida, mas come mesmo assim. Além de pegar o lanche emprestado do morto, o empregado também deixava um cartão do dono da garagem de automóveis dentro do paletó do finado. E cochichava: “recomende o chefe lá em cima”.
Solano Trindade não tem nada a ver com essa história. Mas como faz tempo que eu não escrevo nada aqui, deixo uns versos deste poeta meio esquecido.
Rio
Rio meu de muito tempo
já muito o tenho sofrido
e muito o tenho gozado
Nunca me banhei no Copacabana
nunca fui ao Corcovado
nunca fui ao Pão de Açúcar
por tudo quanto é sagrado
As mulatas do Catete
meio escravas
meio senhoras
não dão bola pra mim.
Das favelas sem beleza
saem sambas bem bonitos
das favelas miseráveis
sai uma beleza de samba
Dormi no albergue noturno
sonhei com a amada distante
fui preso incomunicável
na rua da Relação
Na Lapa nunca fiz ponto
não fiz ponto no Leblon
As operárias têxteis
coitadas vestem tão mal
O tecido que elas tecem
não é delas, é do patrão.
Elas andam no meu trem
tão de noite tão de noite
que o poeta pode vê-las
cansadas de trabalhar
Eu vou sempre à macumba
não é por religião
é por amor às mulheres
esses cavalos de santo
bem carioca da gema
Tanto se joga porrinha
neste Rio de meu deus
que parece exercício
pra saudação do futuro…
Copiei esta poesia do livro “Poemas antológicos”, de Solano Trindade (1908 – 1974), publicado pela Nova Alexandria, em 2008.








